Treze anos depois de São Paulo ter descoberto, entre gás lacrimogêneo e barricadas improvisadas, que 20 centavos podiam incendiar uma metrópole, 143 cidades brasileiras já aboliram por completo a tarifa nos transportes públicos, transformando o país num dos maiores laboratórios mundiais de mobilidade gratuita.

Ainda assim, o debate continua teológico. Os seus partidários tratam-na como uma conquista social, acima das contas; os adversários, como um desvario fiscal, abaixo de qualquer sensatez. Segundo um levantamento divulgado há poucas semanas pela NTU (Associação Nacional das Empresas de Transporte Urbanos), a tarifa zero prosperou sobretudo nas cidades pequenas, onde a escala do sistema tornou possível aquilo que, nas grandes metrópoles, continua a parecer uma temeridade orçamentária.Muitas dessas experiências surgiram depois da pandemia, quando a perda de passageiros agravou uma crise antiga e levou várias prefeituras a aceitar, por necessidade, uma solução que talvez tivessem rejeitado em tempos mais prósperos.

A experiência de largas centenas de cidades pelo mundo já permite seis conclusões sobre a tarifa zero, embora nenhuma delas satisfaça por inteiro os seus devotos ou adversários. A primeira, que não exige grande poder de adivinhação, é que, abolida a tarifa, aumenta o número de viagens e passageiros, seja porque muitas pessoas passam a fazer deslocamentos que antes evitavam por falta de dinheiro, seja porque parte dos novos usuários caminhava ou usava bicicleta.