Historicamente, os ingleses influenciaram muito mais culturalmente a Argentina do que o Brasil ou qualquer nação da América do Sul 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 Torcedores argentinos fazem a festa nas ruas de Atlanta antes da semifinal contra a Inglaterra — Foto: Roberto Schmidt/AFP RESUMO Sem tempo? Ferramenta de IA resume para você GERADO EM: 14/07/2026 - 20:03 Rivalidade Argentina: Brasil no Futebol e Inglaterra na Política A Argentina vê o Brasil como um grande adversário no futebol, admirando seus craques e sua cultura, mas não como inimigo. O verdadeiro antagonismo é reservado à Inglaterra, intensificado após a Guerra das Malvinas. Historicamente, a influência inglesa é significativa na Argentina, refletida em clubes e na rivalidade esportiva surgida na Copa de 1966, perpetuada pelas tensões políticas. CLIQUE E LEIA AQUI O RESUMO Os argentinos sempre admiraram o Brasil e o futebol brasileiro. É nas praias de Santa Catarina, Rio de Janeiro e Bahia que passam ou passaram as férias da juventude. Adoram nossa musicalidade e o que eles enxergam como nossa alegria. Não nos veem como inimigos. O sentimento de alteridade dos argentinos não é com os brasileiros. Nós somos vistos como um vizinho muito maior, gigantesco, diverso. Morei em Buenos Aires e sempre vi uma dificuldade na Argentina para entender quais seriam os grandes times brasileiros, qual seria o Boca-River, o Racing-Independiente. Tem o Santos, de Pelé. O São Paulo, dos anos 1990. Em alguns momentos o Grêmio; em outros, o Cruzeiro. Agora, são o Flamengo e o Palmeiras. Tem ainda Corinthians, “Mineiro”, que é como eles chamam o Atlético, Vasco, Fluminense, Botafogo e Inter. Isso além de Bahia, Sport, Athletico Paranaense. Para a Argentina, o Brasil seria o maior adversário. A seleção pentacampeã com tantos craques históricos como Pelé, Garrincha, Rivelino (ídolo de Maradona), Zico, Sócrates, Ronaldo, Romário, Ronaldinho, Rivaldo, Kaká, Neymar e Vini Jr. Seria o superclássico da América do Sul. Jamais vemos o sentimento de ódio. Racismo, sim, existe — em certos setores da torcida argentina, em uma escala maior do que a dos brasileiros, mas talvez no patamar de torcidas com tons racistas como algumas na Espanha e na Itália. O sentimento de alteridade fora do futebol do argentino é muito mais com o Chile do que com o Brasil. Compartilham a terceira maior fronteira do mundo, de mais de 6 mil quilômetros na cordilheira dos Andes, atrás apenas de EUA-Canadá e Rússia-Cazaquistão. No campo, no entanto, apesar de uma ou outra geração um pouco mais forte, os chilenos sempre foram fregueses dos argentinos. O Uruguai tem seu lugar como rival, mas ainda é visto mais como um irmão caçula pela Argentina. O grande inimigo é a Inglaterra. Historicamente, os ingleses influenciaram muito mais culturalmente a Argentina do que o Brasil ou qualquer nação da América do Sul. Basta observar os nomes de muitos times tradicionais argentinos — River Plate, Boca Juniors, Racing Club, Newell’s Old Boys, All Boys, Banfield e tantos outros. No futebol, a rivalidade começou em 1966 na Copa da Inglaterra. Mas se acentuou depois de 1982, quando os argentinos invadiram as Malvinas/Falklands, dominada pelos britânicos. A ação foi determinada pela Junta Militar da Argentina e terminou em fracasso. Mas todos os governos argentinos, dos mais à esquerda aos mais à direita, incluindo o de Javier Milei, sempre demandaram a soberania sobre as ilhas no Atlântico Sul. É comum ver camisetas para vender e placas com os dizeres “Las Malvinas son argentinas”. Ao todo, 649 militares argentinos morreram no conflito. A guerra impactou inclusive no emocional da seleção da Argentina, que acabou eliminada em derrota para o Brasil por 3 a 1. Na Copa seguinte, Maradona deixou bem claro que encarou o jogo como uma guerra pelos “pibes” argentinos. Houve mais jogos entre Argentina e Inglaterra e, até hoje, um dos cânticos da seleção inclui as Malvinas. “Cada jogo contra a Inglaterra está carregado de passado e é ocasião para a vingança”, afirmou o cientista político argentino Vicente Palermo ao livro Los Hermanos e Nós, sobre futebol argentino, que escrevi com Ariel Palacios, correspondente da Globonews em Buenos Aires.