De um canto de guerra revolucionário a uma marcha sem palavras, hinos das duas semifinalistas de hoje traduzem diferentes construções de identidade nacional 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 RESUMO Sem tempo? Ferramenta de IA resume para você GERADO EM: 13/07/2026 - 22:58 Contraste de Hinos Nacionais Reflete Identidades na Copa 2026 Os hinos nacionais da França e Espanha refletem visões opostas de identidade nacional, especialmente evidentes na semifinal da Copa do Mundo de 2026. A "Marselhesa", com suas letras revolucionárias de 1792, inspira fervor patriótico, enquanto a "Marcha Real" da Espanha permanece sem letra, simbolizando unidade em meio à diversidade cultural. Esse contraste ilustra abordagens distintas à história e coesão social de cada país. CLIQUE E LEIA AQUI O RESUMO No campo das estruturas poéticas, estrofes com quatro versos se chamam quadrilhas, enquanto as de cinco versos são quintilhas, em uma forma de organizar as modelagens musicais. Na “Marselhesa”, hino nacional da França, as duas primeiras estrofes são, respectivamente, uma quintilha e uma quadrilha, com dizeres como “O estandarte sangrento é hasteado” e “Eles chegam até vossos braços para degolar vossos filhos, vossos companheiros”. Com um hino exaltado por muitos e temido por outros, franceses enfrentam hoje, pelas semifinais da Copa do Mundo de 2026, a seleção da Espanha, que em matéria de hino nacional, não tem sequer um monóstico (estrofes de, pelo menos, um verso), mas uma canção sem letra oficial definida desde 1716, quando foi composta. Jogadores da França perfilados para hino na Copa do Mundo 2026 — Foto: AFP Adversários no campo do Mundial, franceses e espanhóis adotam posições distintas em relação à construção de suas músicas nacionais. Criado no ano de 1792 — não por acaso, o mesmo da Queda da Bastilha, episódio definitivo da Revolução Francesa — , o hino francês foi encomendado como um canto de guerra para inflamar as tropas na fronteira. Para o temor dos inimigos O músico Claude Joseph Rouget de Lisle compôs a letra e a melodia em uma única noite, batizando-a de “Canto de Guerra para o Exército do Reno”. A população rebatizou a música em homenagem aos batalhões do sul e, em 1795, a Convenção Nacional a oficializou como hino nacional. Ironia ou não, o compositor da melodia, um monarquista moderado, quase foi guilhotinado pelo próprio radicalismo da Revolução que sua música embalava. o hino frequentemente ressurge nas redes sociais e na mídia devido à literalidade de seus versos de guerra. Emmanuel Macron canta o hino francês com tripulação do porta-aviões Charles de Gaulle no Mediterrâneo após ataques de drones iranianos a Chipre, em 9/3/2026 — Foto: Gonzalo Fuentes/Pool/AFP Em março de 2026, o presidente francês, Emmanuel Macron, usou o submarino atômico Le Téméraire como palanque militar na Bretanha. Lá, entoou a Marselhesa para anunciar a ampliação do arsenal nuclear francês. A Espanha instrumental Diferente da esmagadora maioria das nações, o hino nacional da Espanha, a “Marcha Real”, carrega um fator quase único: ele não tem letra oficial. Nasceu como uma marcha militar instrumental. Jogadores da Espanha em hino durante a Copa do Mundo 2026 — Foto: AFP A ausência de palavras está ligada à pluralidade da população do país, formado por regiões com identidades e idiomas próprios, desde as questões da Catalunha e do País Basco até as diversas línguas oficiais, como o catalão, o galego e o basco. Manter o hino estritamente instrumental funciona como uma salvaguarda contra divisões e conflitos, garantindo que todos os cidadãos, independentemente de suas regiões, se sintam representados. Já se tentou, no entanto, substituir a “Marcha real” por uma canção com versos. Durante a ditadura franquista, José María Pemán compôs “¡Viva España!”, de tom ufanista, usada até a redemocratização, em 1975. Uma investida também ocorreu por parte do Comitê Olímpico Espanhol (COE), que em 2007 queria escrever uma letra para o hino, que seria cantada nos Jogos Olímpicos de 2008, na China. A versão tinha a proposta de seguir uma linha mais plural e aberta, mas, após seu vazamento na imprensa, foi duramente rejeitada pela população e por diversas esferas políticas. De volta à gaveta. Mikel Oyarzabal nasceu na cidade de Eibar, localizada na província de Gipuzkoa, no País Basco — Foto: Francois Nel/Getty Images via AFP O contraste que se verá em campo resume duas formas distintas de lidar com o passado e com a coesão social. Enquanto o Estado francês recorre à eloquência e à força histórica de suas estrofes (ainda que com trechos inimagináveis hoje, como o que fala em “sangue impuro”) para projetar sua soberania nacional, a Espanha opera sob a lógica da concessão e do pacto de convivência, onde a ausência de palavras na Marcha Real funciona como uma ferramenta de preservação de sua própria integridade territorial.