Comprei as figurinhas e cards da Copa, em tese para fazer com o meu filho. Para a minha filha, comprava as figurinhas do álbum das Guerreiras do K-Pop, sobre a animação que ganhou dois Oscars e começou a tirar meu dinheiro na mesma época.Há uma diferença importante entre os dois tipos de figurinha: matemática. As figurinhas da Panini trazem dados pessoais, como altura e peso, e os cards indicadores da performance dos jogadores, inclusive a soma desses números. O álbum das Guerreiras do K-Pop não tem nada disso.O menor interesse em matemática por parte delas seria alimentado por estereótipos e até pelo hiato de confiança Foto: Felipe Pedro/EstadãoPUBLICIDADEFiquei pensando nos álbuns depois que o jornal concorrente fez uma matéria sobre a falta de mulheres nas engenharias. Apesar de todo avanço na educação feminina nas últimas décadas, ainda são poucas meninas querendo fazer economia, engenharias e TI. Até pouco tempo, acreditávamos que das áreas “STEM” sairiam as profissões deste século, e havia preocupação com poucas mulheres nessas carreiras.Minha explicação passa pelas figurinhas. Fora da evidência anedótica, muito já foi discutido na academia sobre meninos terem melhor desempenho do que meninas em matemática desde cedo. O menor interesse em matemática por parte delas seria alimentado por estereótipos e até pelo hiato de confiança (confidence gap): a terrível tendência que começa na adolescência, com meninas passando a duvidar de si e meninos ficando sem noção.Há algum tempo o hiato de confiança é usado para explicar desigualdades no mercado de trabalho, e faz sentido para explicar o interesse em matemática, já que se jogar em um problema exige justamente confiança. PublicidadeJá eu acho que os meninos são expostos a números bem antes do que meninas e de um jeito mais divertido. No álbum da Copa, nos esportes e nos videogames. A atual geração de meninos assiste ao Mundial familiarizada inclusive com odds, e crianças aprendendo sobre probabilidade é meu copo cheio para a praga das bets.Sei que aprendi muito quando era criança e o Fluminense foi o primeiro grande time a ser rebaixado para a segunda divisão, e, em seguida, para a terceira. Aprendi sobre humilhação, mas também aprendi sobre probabilidade nos telejornais, sobre o que aconteceria se perdêssemos para o CRB de Alagoas.Pode ser que, na era da inteligência artificial, habilidades cognitivas como matemática sejam menos importantes, mas eu suspeito que não. Eu colocaria as meninas para assistir ao resto da Copa, explicaria o que é xG antes dos jogos e usaria a relação entre números de faltas e cartão amarelo para concluir que estão roubando para a Argentina.Bom final de Copa!