Gerando resumoApós 19 anos de operações em Eldorado, na província argentina de Misiones, o grupo brasileiro Dass, que produz calçados de marcas como Nike, Adidas e Fila, anunciou neste mês o fechamento da fábrica na cidade, demitindo 150 trabalhadores. Em janeiro, a Dass já havia encerrado as atividades de outra planta na Argentina, em Coronel Suárez.Em abril, a multinacional Whirlpool, dona da Brastemp, da Consul e da KitchenAid, também fechou uma fábrica na Argentina. Apenas três anos após investir US$ 50 milhões para produzir máquinas de lavar roupas na cidade de Pilar, na província de Buenos Aires, a empresa decidiu encerrar a operação no local. Foram desligados 220 profissionais.Leia tambémArgentina depende de setor externo, seviços financeiros e indústria do conhecimento para crescerPUBLICIDADENo começo deste ano, em janeiro, a maior fabricante de pneus do país, a Fate, foi outra a comunicar o fim das atividades de sua fábrica, também na província de Buenos Aires, e a demissão de 900 trabalhadores.As notícias de encerramento de operações de unidades fabris e de desligamento de profissionais contrastam com os números macroeconômicos positivos registrados pelo presidente Javier Milei neste terceiro ano de mandato. Embora o governo do libertário tenha obtido resultados melhores nos fundamentos econômicos, como a queda da inflação, a alta do PIB e o registro de superávit primário (diferença positiva entre as receitas e as despesas do governo), as transformações estruturais na economia têm criado dificuldades para alguns setores e acelerado a informalidade no país.Casa Rosada na Argentina, sede do governo; Milei lida com aumento da informalidade Foto: Felipe Mortara/Estadão“A economia era muito fechada e está sendo aberta. Por isso, muitas fábricas que tinham margens altas viram essas margens reduzirem e acabaram fechando”, diz o economista Andres Borenstein, do banco BTG Pactual na Argentina. “Mas o país precisava se modernizar e fazer essas mudanças estruturais”, acrescenta.No primeiro trimestre, a participação dos informais no mercado de trabalho argentino chegou a 44,2% — ou quase 6 milhões de pessoas —, o que representa um aumento de 2,2 pontos porcentuais em relação aos primeiros três meses de 2025. O número deste começo de 2026 é também o mais alto da série histórica, iniciada no primeiro trimestre de 2024, quando a informalidade era de 40,8%.PublicidadeA taxa de desemprego na Argentina tem ficado estável. Entre janeiro e março de 2026, ficou em 7,8%, ou 0,1 ponto porcentual abaixo do registrado no mesmo período de 2025, mas 0,9 ponto acima do verificado no primeiro trimestre de 2023 (anterior à posse de Milei, que seria em 10 de dezembro daquele ano). Uma das explicações para o aumento da informalidade é a perda de relevância de segmentos industriais tradicionais da economia argentina, como o têxtil e o calçadista, que passaram a enfrentar a concorrência internacional com a maior abertura econômica do país. Ao mesmo tempo, setores em expansão, que têm puxado a alta do PIB, como o extrativista, a indústria do conhecimento, o agronegócio e o mercado financeiro, não conseguem absorver esse excedente de mão de obra.Publicidade“A Argentina vinha de uma economia muito protegida, com incentivo a alguns setores industriais específicos, como o têxtil. Hoje está mudando o seu perfil produtivo”, afirma Roberto Nolazco, gerente de assuntos públicos para a América Latina da consultoria Prospectiva.A economista-chefe da consultoria argentina Abeceb, Elisabet Bacigalupo, destaca que os setores públicos e privados não estão criando vagas de trabalho e que os postos informais são de baixa qualidade. “Mas ajudam a amortizar a alta do desemprego.”Quantas fábricas fecharam as portas na Argentina?Para Borenstein, do BTG Pactual, a informalidade faz parte da “dor” inicial do processo de modernização econômica. “Essa mudança vai gerar frutos depois.”PublicidadePUBLICIDADEDesde novembro de 2023, no entanto, cerca de 200 empresas fabricantes de sapatos fecharam as portas no país e 6,6 mil postos formais de trabalho foram perdidos, de acordo com a Câmara da Indústria de Calçados. Segundo a organização, no primeiro trimestre deste ano, a produção do setor recuou 24,3% na comparação com o mesmo período de 2025.“A medida decorre do agravamento do cenário crítico que a indústria calçadista nacional na Argentina vem enfrentando”, disse o grupo Dass por meio de nota. “A combinação entre a persistente queda na produção, a ausência de novos pedidos por parte dos clientes e a abertura das importações gerou uma perda severa de competitividade, tornando inviável a sustentação da estrutura fabril local.”Leia também Diretora do FMI visitará a Argentina no fim do mês, anuncia governo MileiArgentina zera carga tributária para exportar veículos; veja como isso afeta o BrasilApesar do fechamento da fábrica, a empresa manteve no país o escritório de gestão de marcas em Buenos Aires e seus centros de distribuição de calçados em Coronel Suárez e Cañuelas.PublicidadeProcurada pelo Estadão, a Whirlpool afirmou em nota que a decisão de fechar a fábrica na Argentina “faz parte de uma revisão global contínua da nossa estrutura de produção, visando a eficiência operacional e a alocação responsável de recursos”. A reportagem apurou que a unidade tinha margens apertadas e que, com a abertura econômica, perdeu rentabilidade. Com o encerramento das atividades em Pilar, a produção das máquinas de lavar roupas foi transferida para Rio Claro, no interior de São Paulo. A alteração na estratégia da companhia fez com que a planta brasileira recebesse R$ 300 milhões em investimentos e abrisse 200 vagas de emprego. “Apesar dessa mudança, a empresa continua comprometida com o mercado argentino, mantendo suas atividades de vendas, distribuição e atendimento ao consumidor, além do lançamento de novos produtos, sempre com a missão de melhorar a vida em casa”, destacou a Whirlpool.Para Bacigalupo, da Abeceb, é natural que uma transformação estrutural provoque crescimento em velocidades distintas entre os diferentes segmentos econômicos e as diferentes regiões do país. “Isso faz parte do processo de abertura econômica. Tinha empresa que investia aqui, na Argentina, simplesmente porque não podia mandar dólares ao exterior e não queria ficar com pesos no caixa, porque eles viviam se desvalorizando.” Companhias que enfrentavam essa adversidade tinham também uma capacidade instalada grande demais e agora precisam encerrar linhas de produção, explica a economista.
Argentina de Milei tem alta no PIB e queda na inflação, mas empresas fecham e informalidade cresce
Transformações estruturais na economia têm criado dificuldades para alguns setores tradicionais do país









