Diferentemente do que foi publicado anteriormente, o patrocinador é a Tokio Marine Seguradora, e não o instituto. Segue o texto corrigido. Enquanto o mercado editorial passa por um momento de recuperação, impulsionado pelo crescimento das vendas de livros e pela proliferação de clubes de leitura e comunidades literárias nas redes sociais, a iniciativa privada parece, ao menos neste ano, ter virado a página quando o assunto é patrocínio à Festa Literária Internacional de Paraty (Flip), um dos principais eventos literários do país. A dez dias da abertura, a edição deste ano captou pouco mais da metade dos recursos obtidos em 2025. No ano passado, sete marcas investiram R$ 10,1 milhões no festival; em 2026, os seis patrocinadores confirmados desembolsaram R$ 5,25 milhões. São eles: Instituto Motiva, Netflix, Tokio Marine Seguradora, Fundação Itaú, Maqmóveis e BMC Hyundai. A organização ainda negocia a entrada de outras quatro empresas e atribui a demora nas decisões ao calendário marcado pela Copa do Mundo e pelas eleições. Segundo o diretor artístico e cultural da Flip, Mauro Munhoz, o patrocínio privado responde atualmente por 55% do orçamento do festival. O restante vem de receitas próprias, como bilheteria, livraria e o programa de casas parceiras, além de recursos públicos e emendas parlamentares. A redução na captação preocupa porque pode limitar o alcance das ações permanentes desenvolvidas pela Associação Casa Azul, que organiza a festa em Paraty. “A Flip não é só um festival”, afirma Munhoz, acrescentando que são esperados cerca de 35 mil visitantes nesta edição, um público ligeiramente superior ao do ano passado. Segundo ele, além da programação literária, a instituição sem fins lucrativos desenvolve projetos de qualificação de espaços públicos e realiza ações ligadas à formação cultural. O menor investimento da iniciativa privada ocorre em meio a um cenário de aquecimento do mercado editorial, mas de perda de leitores. A 6ª edição da pesquisa “Retratos da Leitura no Brasil”, realizada pelo Instituto Pró-Livro com apoio da Fundação Itaú, mostra que, pela primeira vez na série histórica iniciada em 2007, os não leitores passaram a ser maioria no país. Segundo o levantamento, 53% dos brasileiros não leram nem parte de um livro - impresso ou digital, incluindo obras didáticas e religiosas - nos três meses anteriores à pesquisa. Em relação à edição anterior, realizada em 2019, o país perdeu cerca de 6,7 milhões de leitores. Já o levantamento “Panorama do Consumo de Livros”, realizado pela Câmara Brasileira do Livro (CBL) e pela Nielsen BookData, mostra que o consumo segue em expansão. Em 2025, 18% da população adulta comprou pelo menos um livro, dois pontos percentuais acima do registrado no ano anterior. Os resultados coadunam com a pesquisa “Produção e Vendas do Setor Editorial Brasileiro”, feita pela CBL e pelo Sindicato Nacional dos Editores de Livros (SNEL), com apuração da Nielsen BookData. O estudo mostra que, em 2025, as editoras venderam 6,5% mais exemplares ao mercado em relação ao ano anterior, alcançando um faturamento de R$ 4,5 bilhões, o que representa uma alta de 3,3%. Para o presidente do SNEL, Dante Cid, o aparente paradoxo pode ser explicado pelo comportamento dos próprios leitores: quem já tinha o hábito de ler passou a comprar mais livros, enquanto os não leitores continuaram afastados. Segundo ele, o tempo dedicado às telas continua sendo o principal obstáculo à leitura, embora mais recentemente as próprias redes sociais estejam formando novos leitores. “Com os booktalkers, parte do inimigo virou aliado.” A comunidade BookTok no TikTok, por exemplo, reúne mais de 60 milhões de vídeos publicados no mundo sobre livros e leitura. No Brasil, a hashtag #BookTokBrasil soma mais de 3,5 milhões de publicações, e os vídeos relacionados ao tema ultrapassaram 6 bilhões de visualizações apenas no primeiro semestre. Para o líder de políticas públicas para segurança da plataforma no Brasil, Gustavo Rodrigues, o sucesso da comunidade está em transformar a leitura em uma experiência compartilhada. A plataforma também impulsiona clubes de leitura e permite que usuários comprem as obras no TikTok Shop. A leitura está virando objeto de desejo porque desenvolve repertório” O diretor-presidente (CEO) da Estante Virtual, André Palme, chama a atenção para uma parte importante do mercado editorial que muitas vezes não entra nos levantamentos do setor: são as vendas de livros usados, os audiolivros e a autopublicação. “Os livros usados são um motor invisível da leitura no Brasil.” Por isso, a Estante Virtual, que é apoiadora da Flip, vai promover a ação “Leitura na Praça”, em Paraty, para estimular a troca de livros. A superintendente de conhecimento e estratégia institucional na Fundação Itaú, Ana de Fátima Sousa, concorda que a forma de consumir literatura está mudando. Prova disso é o crescimento do público em bienais e festivais literários. “Ler também é criação de comunidades.” Isso explica, inclusive, o interesse de marcas de luxo, como a Chanel, em ter seus próprios clubes de livros. Segundo a executiva, as feiras literárias ajudam não apenas na formação de leitores, mas também são espaços importantes de circulação de escritores e editoras. O hábito da leitura precisa ir além do incentivo da família, da escola e até das redes sociais, segundo a presidente da CBL, Sevani Matos. Para ela, são necessárias políticas públicas que não só melhorem a qualidade do ensino, mas também estimulem a leitura. “Em um país em que há diversos municípios sem livrarias, é essencial ter iniciativas como a modernização das bibliotecas públicas e a liberação do acesso virtual a obras pela plataforma MEC Livros”, afirma. É exatamente em prol do incentivo à leitura entre crianças e jovens que a Tokio Marine Seguradora decidiu patrocinar a Flip pela primeira vez. O presidente do instituto da companhia, Masaaki Itakura, afirma que, durante o festival, será lançado o projeto “Broto da Cultura”, que prevê a distribuição de cerca de 2 mil livros infantis em escolas, hospitais e comunidades, além de ações de leitura mediada e concursos de escrita. “A leitura e a educação são a principal porta para que jovens e crianças construam um futuro”, diz Itakura. Segundo ele, a intenção é transformar o projeto em uma iniciativa permanente e ampliar a distribuição de livros nos próximos anos. O Instituto Motiva também afirma que o apoio ao festival faz parte de uma estratégia mais ampla de atuação em Paraty, município escolhido como um dos 20 territórios prioritários para seus investimentos sociais. Neste ano, o instituto destinou R$ 2 milhões à Flip, entre recursos próprios e incentivos fiscais, além de financiar transporte para moradores da região e ampliar o acesso de estudantes da rede pública às atividades culturais. De olhos nos diferentes públicos, a Netflix vai participar da Flip pelo terceiro ano consecutivo. Nas edições anteriores, a plataforma de streaming realizou ativações em torno de adaptações literárias como “Pssica” e “O Filho de Mil Homens”. Neste ano, pela primeira vez, tornou-se patrocinadora oficial do evento. Segundo a vice-presidente de conteúdo da Netflix Brasil, Elisabetta Zenatti, cerca de 15% dos filmes brasileiros disponíveis na plataforma são adaptações literárias. “Queremos mostrar aos autores que somos parceiros e que podemos levar essas histórias para o mundo inteiro por meio do audiovisual.” “A leitura está virando objeto de desejo porque desenvolve repertório, criatividade e capacidade de interpretar o mundo. Em um momento em que a inteligência artificial ganha espaço, o diferencial passa a ser formular perguntas melhores”, afirma Munhoz, da Flip. “As pessoas compram livros, mas eles ficam empilhados porque falta tempo para ler. A Flip oferece justamente uma experiência de imersão e de conversas presenciais. É um lugar de resistência.”
Mercado editorial cresce, mas Flip vê patrocínio encolher neste ano
Entre 2025 e 2026, investimento privado caiu de R$ 10,1 milhões para R$ 5,25 milhões; recursos vindos de empresas representam 55% do orçamento
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