O jornalismo na América Latina e no Caribe atravessa uma das fases mais críticas e incertas de sua história contemporânea. Longe de ser uma crise unidimensional, a imprensa se vê presa a uma convergência de ameaças. Esse retrato é respaldado por quatro dos principais estudos sobre a indústria da comunicação: o Digital News Report 2026, do Reuters Institute; o relatório Estado do Desenvolvimento da Mídia 2025, da DW Akademie; o recente e alarmante Relatório Sombra sobre a Liberdade de Imprensa na América Latina 2025, elaborado pela Rede Vozes do Sul (Red VDS); e os dados atualizados do Índice Mundial de Liberdade de Imprensa 2026, da organização Repórteres Sem Fronteiras (RSF). O diagnóstico da RSF para 2026 é o mais sombrio desde a criação do levantamento. Segundo o relatório, "pela primeira vez na história da Classificação Mundial da Liberdade de Imprensa da RSF, mais da metade dos países do mundo se encontra em uma situação ‘difícil’ ou ‘muito grave’. Em 25 anos de existência do ranking, a pontuação média dos países analisados nunca foi tão baixa". Essa realidade global é complementada pelos números do Relatório Sombra, que confirmam que a deterioração regional não apenas continua, mas se transforma: em 2025 foram documentados 2.484 alertas envolvendo 3.230 vítimas em 17 países da região. O Estado como principal agressor Em todo o continente, a liberdade de imprensa enfrenta um retrocesso estrutural no qual os governos deixaram de atuar como garantidores para se tornarem agressores. O Relatório Sombra confirma essa tendência com um dado inequívoco: um em cada dois agressores identificados na região (50,5%) era um agente estatal. O influenciador argentino e libertário Daniel Paserini ('El Gordo Dan') antes de um ato do presidente da Argentina, Javier Milei — Foto: Pilar Camacho / La Nación da Argentina / GDA Além dos ataques verbais, a deterioração também se manifesta por meio de obstáculos crescentes ao acesso à informação pública, processos judiciais intimidatórios, tentativas de endurecimento das leis de difamação e normas ambíguas relacionadas à desinformação, à cibersegurança e aos conteúdos digitais. A organização registrou 279 alertas relacionados a restrições ao acesso à informação e 190 vinculados ao assédio judicial. Em sintonia com esse cenário, a RSF 2026 destaca que “a nível regional, as Américas experimentam uma deterioração significativa, com a queda de sete posições dos Estados Unidos e o colapso de vários países latino-americanos, mergulhados em uma espiral de violência e repressão”. Daniel Dessein, presidente da Comissão de Liberdade de Imprensa e Informação da Associação de Entidades Jornalísticas Argentinas, alerta para a magnitude desse ambiente. — A intolerância e os ataques à imprensa se repetem em regimes e países muito diferentes, desde ditaduras como Cuba e Nicarágua até governos com características ideológicas distintas, surgidos de eleições livres, como El Salvador e Colômbia. Na Colômbia, a Red VDS documentou o deslocamento forçado de 22 jornalistas em razão da asfixia do ambiente e da estigmatização. Werner Zitzmann, diretor-executivo da Associação Colombiana de Meios de Informação, expõe a gravidade da situação. — A estigmatização e os ataques permanentes geraram uma cultura de rejeição ao jornalismo e aos meios de comunicação, e também de violência contra eles, especialmente em áreas dominadas por grupos criminosos. No Peru, o cenário é igualmente dramático. O país despencou 53 posições no ranking da RSF desde 2022, e o Relatório Sombra aponta que as coberturas sobre mineração ilegal e corrupção elevaram em 83% o número de jornalistas vitimados. Segundo Rodrigo Salazar Zimmermann, diretor-executivo do Conselho da Imprensa Peruana, há tentativas constantes de aumentar as penas de prisão por difamação no país, "em média, duas por ano". — No ano passado, foram contabilizados 458 ataques contra jornalistas e quatro assassinatos. Grande parte dessas agressões parte do Estado ou de seus funcionários. No Uruguai, o panorama apresenta características próprias. De acordo com Martín Aguirre, diretor do jornal El País e vice-presidente regional da Sociedade Interamericana de Imprensa, "existe um monopólio estatal das principais empresas de serviços públicos" que reduz a concorrência e limita investimentos publicitários. Já Argentina e El Salvador institucionalizaram o assédio estatal e o chamado “discurso estigmatizante”. "Os fervorosos defensores de Donald Trump na América Latina, Javier Milei e Nayib Bukele, reproduzem a cartilha do ocupante da Casa Branca contra os meios de comunicação e seguem a mesma tendência no ranking. Argentina (98º, -11) e El Salvador (143º, -8) registram retrocessos significativos devido, entre outros fatores, à deterioração do clima político e social", afirma o RSF 2026. Sangue, censura e perseguição judicial A violência letal em 2025 custou a vida de 23 jornalistas na América Latina, nove a mais que em 2024, o equivalente a um profissional assassinado a cada 16 dias. No Índice 2026, o México consolida-se tragicamente como o país mais perigoso do mundo para a imprensa, “acima da Ucrânia e da Síria”. Nos países sob regimes fechados ou ditaduras consolidadas, a asfixia transformou-se em controle total. A RSF descreve o cenário da seguinte forma: "A Venezuela continua mergulhada em grande incerteza quanto às garantias da liberdade de informação. Cuba atravessa uma profunda crise que obriga os poucos jornalistas independentes a atuar cada vez mais na clandestinidade, enquanto na Nicarágua o panorama midiático está simplesmente em ruínas, vítima de repressão sistemática e deterioração permanente das condições de exercício da profissão." Segundo o Índice Chapultepec, da SIP, o México continua entre os países mais perigosos das Américas para o exercício do jornalismo, com nove profissionais assassinados pelo crime organizado no último ano. Entre as estratégias mais recentes de intimidação está a utilização de supostos casos de violência de gênero contra comunicadores que publicam investigações envolvendo mulheres em cargos políticos. O México obteve apenas 34,9 pontos em uma escala de 100, seu pior resultado desde a criação do índice em 2020, e caiu cinco posições no ranking regional. Esse retrato continental encontra na América Central um de seus focos mais preocupantes. Giselle Boza, coordenadora do Programa de Liberdade de Expressão e Direito à Informação da Universidade da Costa Rica, descreve a deterioração como um fenômeno de fronteiras porosas. — Os jornalistas relatam perseguição estatal, criminalização, estigmatização pública e outros mecanismos indiretos de censura. Na Costa Rica, há o uso da publicidade estatal para premiar ou punir veículos — explica. Diante desse cerco multifacetado, a saída frequentemente é o exílio. Segundo Boza, o exílio de jornalistas tornou-se um fenômeno regional crescente. Embora a Nicarágua siga como o caso mais extremo, El Salvador e Guatemala também registram deslocamentos forçados. A especialista afirma que a violência passou a assumir formas mais complexas, como restrições legais, perseguição judicial e pressão estatal sobre veículos de comunicação.