O número de mortos nos dois terremotos que atingiram a Venezuela em 24 de junho subiu para 4.333, informou neste sábado o presidente da Assembleia Nacional, Jorge Rodríguez, ao anunciar que a distribuição de moradias para os desabrigados começará na próxima semana. Segundo Rodríguez, 315 das vítimas fatais ainda não foram identificadas. O número oficial de feridos permaneceu inalterado em 16.740. As autoridades informaram ainda que 6.462 pessoas foram resgatadas e cerca de 17 mil ficaram desabrigadas. Ele afirmou ainda que a presidente em exercício e sua irmã, Delcy Rodríguez, começará na próxima semana a entregar as primeiras 200 moradias às pessoas afetadas pelos terremotos, mas não forneceu mais detalhes. O presidente da Assembleia Nacional acrescentou que 856 edifícios foram atingidos, dos quais 190 desabaram completamente ou sofreram colapso estrutural. De acordo com estimativas preliminares do governo, serão necessárias cerca de 25 mil moradias. As autoridades já identificaram aproximadamente 40 terrenos, que somam 584 mil metros quadrados, para a construção de conjuntos habitacionais em Osma e Chuspa. Rodríguez disse ainda que as operações de busca continuam. "Enquanto houver vida, haverá esperança. Ainda temos um ou dois locais onde a situação permanece incerta, áreas ativas nas quais estamos procurando sobreviventes", afirmou. Enquanto o balanço de mortes aumenta, os sobreviventes da tragédia lamentam suas perdas. Maria Alejandra Sanz desviou o olhar ao saber que equipes de resgate haviam retirado o corpo sem vida de uma de suas melhores amigas dos escombros de um prédio destruído pelos incidentes que atingiram o Estado de La Guaira, no norte do país, no mês passado. A estudante do ensino médio, de 17 anos, ficou deitada na quase escuridão por 17 horas após os tremores, presa sob o prédio desabado na cidade litorânea de La Guaira, onde cresceu, bebendo sua própria urina para sobreviver e presumindo que os outros membros de sua trupe de dança estivessem mortos. Do grupo de dez amigos que vinha preparando uma coreografia para a formatura do ensino médio, quatro não conseguiram sair com vida. “Estou bem”, disse Sanz, sem muita convicção, durante uma entrevista em frente à sua antiga casa, nove dias após o desastre, com o ar caribenho ainda pesado de poeira e tristeza. Mais cedo naquele dia, as equipes de resgate haviam retirado o corpo de seu amigo, Gonzalo Marquez, dos escombros. Então veio uma série de perguntas sem resposta: seus amigos teriam sobrevivido se as equipes de resgate tivessem chegado mais cedo? As coisas seriam diferentes se a trupe de dança tivesse ensaiado em outro prédio? E se ela estivesse com Marquez no andar de baixo, em vez de ter ido buscar água para ele em seu apartamento no andar de cima? Por que ela poderá ir para a universidade, enquanto ele foi sepultado? Criados em meio ao colapso econômico, à migração em massa e ao regime autoritário, Sanz e seus amigos começaram o ano de 2026 acreditando que a destituição do presidente venezuelano Nicolás Maduro pelos EUA poderia finalmente oferecer um futuro diferente. Mas aí vieram os terremotos. A trupe de Sanz vinha ensaiando sete dias por semana no mês que antecedeu os terremotos, às vezes até as 3 da manhã. Naquela noite, no salão de festas do térreo de seu prédio, elas estavam aperfeiçoando os passos para “Dangerous”, uma música de 1991 do ícone pop americano Michael Jackson. A formatura seria em três dias. Cerca de 20 minutos antes dos terremotos, Marquez pediu água a Sanz. Ela subiu ao apartamento no terceiro andar que dividia com os pais, acariciou sua cadela Bruna pela última vez e estava prestes a pegar a água quando o prédio começou a tremer às 18h04. Ela se moveu para a moldura da porta mais próxima e, segundos depois, foi engolida pela escuridão quando os andares abaixo dela desabaram. A moldura da porta caiu diagonalmente sobre sua cintura, protegendo-a de uma parede que desabou. Sanz viu um raio de luz entre os dedos e percebeu que não estava soterrada muito profundamente. Conseguiu libertar os pés tirando os tênis grandes demais que havia recebido para a apresentação de dança. Ela diz que sabia que sua própria urina poderia ser sua única chance de beber, então coletou o que pôde na mão e levou à boca. A luz logo se apagou e ela rezou. “Se eu tiver que morrer, que seja enquanto estiver dormindo”, ela se lembra de ter pensado naquele momento. Sanz acordou com a luz incidindo sobre sua mão novamente e começou a se arrastar em direção a ela, enfiando o corpo lentamente entre pedaços de concreto e abrindo um buraco na parede acima dela pelo qual pudesse passar. Quando ela emergiu com metade do corpo livre, gritou pedindo ajuda a um vizinho. O pai de Sanz, de 71 anos, que estava do lado de fora junto com a esposa no momento dos terremotos, subiu correndo pela pilha de escombros. A adolescente se agarrou a ele em um estado de confusão mental. Quando chegou até a mãe, Sanz soube que cinco de suas dez amigas haviam escapado ilesas. Maria Alejandra Sanz, de 17 anos, está com seu pai, Alejandro Sanz, enquanto observam os destroços do prédio onde moravam em La Guaira, Venezuela , em 5 de julho de 2026 — Foto: REUTERS/Ricardo Arduengo “E o Gonzalo? E a Isa?”, perguntou Sanz. Não havia notícias sobre Marquez, mas os voluntários do resgate tinham visto Isa Campos, que Sanz conhecia desde sempre, consciente debaixo dos escombros. Ela estava viva, disseram eles. Naquele momento, era verdade. "Poderia ser minha filha" Jeffry Campos, pai de Isa, presa nos escombros, chegou ao local duas horas após o desastre e passou a noite inteira vasculhando a massa de concreto e aço junto com o pai de outra dançarina. Por volta das 11h, uma unidade da polícia de Caracas juntou-se aos esforços, usando apenas as próprias mãos. O equipamento necessário para retirar Isa Campos de entre duas vigas nunca chegou. Conhecida por sua inteligência e energia contagiante, ela morreu cerca de 24 horas após os terremotos. Seu corpo permanece nos escombros. “A ajuda chegou tarde”, disse seu pai do lado de fora de uma igreja onde foi celebrada uma missa em homenagem à filha. “Equipes de resgate, bombeiros e militares só chegaram dois ou três dias depois.” Após ver um vídeo no TikTok sobre as dançarinas presas na noite dos terremotos, o engenheiro civil Andrés Ganscka partiu de sua casa, no centro da Colômbia, levando macacos hidráulicos e elétricos, ferramentas manuais, fraldas e creme para bebês. “Eu vi o vídeo e pensei: ‘Essa poderia ser minha filha’”, disse Ganscka, pai de três filhos. Ele chegou na noite seguinte a um local de desastre repleto de corpos e membros. Ganscka coordenou equipes de resgate voluntárias no prédio da família Sanz, vasculhando os escombros em busca das dançarinas desaparecidas e de outras 15 crianças que estavam jogando tênis de mesa lá dentro. As autoridades venezuelanas finalmente chegaram três dias depois dele. No total, Ganscka gastou cerca de US$35.000 na operação de resgate. Uma escavadeira remove os escombros do prédio de apartamentos que desabou, onde a sobrevivente Maria Alejandra Sanz ficou presa por 17 horas após dois terremotos em La Guaira, Venezuela , em 5 de julho de 2026 — Foto: REUTERS/Ricardo Arduengo Um futuro imaginado Sanz e Marquez tinham vagas garantidas em universidades de Caracas; ele planejava estudar engenharia e ela estava decidida a seguir arquitetura. Eles conversavam sobre ficar na Venezuela para construir um país melhor. Como outros venezuelanos da mesma idade, eles tinham visto seus pais lutarem contra uma crise econômica que já dura mais de uma década, turbulências políticas e surtos de violência, enquanto amigos e parentes migravam para o exterior. Mas a captura de Maduro pelas forças americanas durante uma operação em janeiro parecia oferecer esperança. Quando Marquez foi designado para a carteira ao lado da dela durante o primeiro ano do ensino médio, Sanz diz que não deu muita importância a ele. Mas, no último ano, eles viraram amigos inseparáveis. Embora não fosse aparentemente engraçado no início do relacionamento, mais tarde ele passava o tempo todo provocando-a com suas piadas sarcásticas. Eles foram o Papai Noel e a Mamãe Noel na apresentação de Natal da escola. Quando não estavam dançando, praticavam piano. “Ele costumava ser o único garoto, não se importava com o que os outros pensavam, cheio de personalidade e o protetor do grupo”, disse Sanz. O chat em grupo, antes tão ativo, no qual eles coordenavam fantasias, cenografia e horários de ensaio, ficou praticamente em silêncio. Sanz diz que os outros sobreviventes oscilam entre o entorpecimento e o luto, aparentando estarem bem num momento e chorando no outro. “Conversávamos sobre como não iríamos mais nos ver depois da formatura, falávamos sobre como o Gonzalo se parecia com o pai e teria cabelos grisalhos”, disse Sanz. “Eles vão ficar jovens para sempre, sempre jovens.”