Já faz alguns meses que o burburinho mais burro do mundo tem circundado o lançamento vindouro de "A Odisseia", adaptação do épico homônimo de Homero que agora está prestes a estrear nos cinemas. Como seria de esperar, o vórtice de burrice gira em torno da origem racial e da sexualidade do elenco.

Gostaria muito de poder deixar esse povo falando com as paredes. Mas, já que essa não parece ser mais uma opção, o jeito é tentar minimizar a algaravia sem sentido explicando algo que arqueólogos e historiadores sabem há muito tempo. Eis, pois, o óbvio: o mundo de Homero sempre foi híbrido, polimórfico, transformado das formas mais radicais por cada geração que se apropria dele.

O fato mais irônico de todos talvez seja o profundo anacronismo dos poemas homéricos. Tanto a tradição grega quanto as descobertas da arqueologia moderna indicam que o gérmen para a história da guerra de Troia talvez derive da destruição de uma cidade real chamada Wilusa (daí o termo "Ílion", origem de "Ilíada") por volta de 1200 a.C. na atual Turquia, no fim da Idade do Bronze.

O fim da cidade pode até estar ligado a alguma pendenga envolvendo os micênicos, grupos que falavam um idioma ancestral do grego, e povos da Anatólia, como os do Império Hitita. Mas a queda de Wilusa acaba sendo seguida por mais de 400 anos de silêncio quase absoluto das fontes escritas da região –aliás, nesse período, os gregos também desaprenderam a escrever.