A legitimidade dos mecanismos internacionais não decorre do poder de sanção, mas da confiança que inspiram 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 Plenário da ONU, em Nova York — Foto: ANGELA WEISS / AFP RESUMO Sem tempo? Ferramenta de IA resume para você GERADO EM: 10/07/2026 - 20:41 Crise de Credibilidade: ONU Sob Pressão por Supressão de Denúncias A credibilidade da ONU está em xeque devido a alegações de pressão interna para suprimir denúncias de violações de direitos humanos. Declarações de Alice Edwards sobre tortura e casos de assimetria no tratamento de vítimas israelenses e palestinas levantam dúvidas sobre a imparcialidade da organização. A confiança pública, essencial à legitimidade da ONU, está ameaçada pela percepção de critérios desiguais e resistência à revisão de registros. CLIQUE E LEIA AQUI O RESUMO Os direitos humanos dependem de um princípio elementar: nenhuma vítima pode ser ignorada antes que os fatos sejam apurados. A força das instituições internacionais repousa na confiança de que denúncias serão examinadas com independência, sem distinção entre vítimas, autores ou interesses políticos. Por isso chamaram a atenção as declarações da relatora especial da ONU Alice Edwards sobre tortura. Em palestra no University College London, ela afirmou ter enfrentado semanas de pressão de colegas para não enviar comunicação oficial registrando denúncias de atrocidades cometidas em 7 de outubro de 2023. Outros relatores também foram, segundo ela, desencorajados a assinar o documento. A ONU respondeu que cada especialista decide livremente se participa de comunicações conjuntas. Isso esclarece o procedimento, mas não se houve pressão. Dias antes, em Genebra, a sobrevivente Ilana Gritzewsky confrontou publicamente a relatora Reem Alsalem, que afirmara não haver evidências suficientes de violência sexual nos ataques de 7 de outubro, apesar de relatórios já produzidos por organizações independentes. A percepção de assimetria se amplia com outro episódio: em junho, a Comissão Independente de Inquérito da ONU sobre o Território Palestino Ocupado concluiu que forças israelenses cometeram violência sexual contra crianças palestinas. Israel rejeitou o relatório, e a UN Watch questionou a robustez de suas conclusões. Chama a atenção o contraste entre a cautela diante de denúncias envolvendo vítimas israelenses e a segurança com que outras acusações foram apresentadas. Os questionamentos não se limitam aos mecanismos de direitos humanos. Nesta semana, a UN Watch publicou relatório segundo o qual a Unesco manteve, em seu Observatório de Jornalistas Assassinados, registros de nomes depois identificados pelo Hamas e pela Jihad Islâmica Palestina como integrantes de suas organizações armadas, sem revisar publicamente as classificações diante de novas informações. Algo semelhante ocorreu na Agência das Nações Unidas de Assistência aos Refugiados da Palestina no Oriente Próximo (UNRWA, na sigla em inglês). Em 2024, a supervisão interna da ONU concluiu haver evidências suficientes para medidas contra nove funcionários suspeitos de participação nos ataques de 7 de outubro. Revisão independente reconheceu falhas nos mecanismos de neutralidade da agência. Ainda que persistam divergências sobre a dimensão do problema, o episódio levantou dúvidas sobre a capacidade de a organização responder com transparência quando seus procedimentos são questionados. Esses episódios não são idênticos. Mas apontam para uma preocupação comum: a dificuldade de responder a críticas fundamentadas, revisar registros diante de novas evidências e demonstrar critérios equivalentes em situações comparáveis. A legitimidade dos mecanismos internacionais não decorre do poder de sanção, mas da confiança que inspiram. Quando essa percepção se enfraquece, não é apenas uma decisão específica que perde credibilidade — é a autoridade institucional construída ao longo de décadas. As declarações de Alice Edwards não deveriam ser tratadas nem como verdade definitiva nem como episódio irrelevante. São graves o bastante para justificar esclarecimentos públicos. O mesmo vale para as dúvidas sobre Unesco, UNRWA e outros mecanismos das Nações Unidas. Instituições cuja autoridade repousa na confiança internacional precisam demonstrá-la continuamente. A ONU segue sendo a instituição com mandato mais amplo para lidar com essas questões — o que torna sua credibilidade, hoje, seu ativo mais valioso. Nenhuma organização o preserva se a percepção de critérios desiguais, ou a resistência em revisar seus próprios registros, passa a fazer parte de sua imagem. Essa credibilidade, mais que qualquer relatório específico, está hoje em julgamento. *Nira Broner Worcman, jornalista, é CEO da Art Presse Comunicação e autora de “Enxugando gelo” (2025 - edição hors commerce), sobre a cobertura midiática da guerra entre Israel e grupos terroristas
A credibilidade da ONU entra em julgamento
A legitimidade dos mecanismos internacionais não decorre do poder de sanção, mas da confiança que inspiram







