No país que eliminou o Brasil da Copa do Mundo no último domingo, o jogo mais complexo acontece longe dos gramados. A Noruega construiu uma estratégia de desenvolvimento baseada em economia doméstica de baixas emissões, mas financiada pela exportação de petróleo e gás — um paradoxo apelidado por cientistas locais de "a bela e a fera". O Brasil, em contraste, enfrenta dificuldades para avançar na transição para uma economia menos dependente de combustíveis fósseis. O documento final da COP30, presidida pelo Brasil, não mencionou a transição energética. O país tentou emplacar um mapa do caminho para a redução do uso de combustíveis fósseis até os 45 do segundo tempo tempo, mas acabou derrotado: houve resistência dos chamados "petroestados", como Arábia Saudita, Índia e Rússia, que marcaram posição e impediram a formulação de consenso. Embora o país do craque Erling Haaland não tenha sido a principal barreira para o gol do Brasil na COP30, a Noruega é um dos quatro do Norte Global — com Estados Unidos, Canadá e Austrália — responsáveis pelo crescimento mundial de petróleo e gás desde o Acordo de Paris. Juntas, as quatro nações aumentaram a produção em quase 40% entre 2015 e 2024, segundo o instituto Oil Change International. Só no país escandinavo, o crescimento foi de 7%. 'Esquema tático' norueguês Um "esquema tático" adotado pela Noruega, no entanto, faz os índices de emissões do país parecerem bem no placar. É o que explica o diretor da ONG 365.org no Brasil, o engenheiro ambiental João Cerqueira. Ele ressalta que as metas climáticas da Noruega englobam apenas as emissões ocorridas dentro do território do país. Dessa forma, a poluição do petróleo e do gás extraídos no país e enviados para o mercado internacional não entra na conta. — A Noruega consegue mostrar uma frota elétrica impressionante e um avanço real na eletrificação interna, ao mesmo tempo em que segue expandindo a extração fóssil para vender lá fora. E não é um plano de transição energética isolado que sustenta isso: é petróleo pagando por petróleo, na prática — analisa Cerqueira, que completa: — O modelo norueguês depende de continuar empurrando o problema para o comprador final. Uma conta que, como vamos ver, começa a chegar. O modelo adotado pela Noruega já motivou embates com Brasil. Durante o governo Jair Bolsonaro, em 2019, o então ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, criticou o país nórdico por explorar petróleo no Ártico. A Noruega colocou a zaga em campo e afirmou “estar comprometida a continuar com a gestão responsável, prudente e sustentável dos seus recursos petrolíferos”. Investimento verde Uma das iniciativas norueguesas em curso é o financiamento da preservação ambiental. O país foi o principal doador do Fundo Florestas Tropicais para Sempre (TFFF, na sigla em inglês), uma das apostas do Brasil para a COP30. A Noruega destinou US$ 2,9 bilhões para o projeto, que visa beneficiar 73 nações em desenvolvimento que abrigam cerca de 1 bilhão de hectares de florestas tropicais e subtropicais úmidas. Para o conterrâneo de Odegaard, Toerris Jaeger, diretor-executivo da ONG Rainforest Foundation Norway (RFN) desde 2021, o investimento na proteção florestal é uma importante iniciativa do governo norueguês. Mas ele percebe o jogo duplo. — Elaboramos em 2012 um relatório que definia o cenário como a “bela e a fera”. A “bela” é uma iniciativa anual que destina recursos para proteger a floresta e o clima. A “fera” representa, por outro lado, o Fundo Soberano Norueguês que, na época, investia muito mais em setores que impulsionam o desmatamento, como a pecuária, as indústrias extrativistas e a exploração madeireira. Na avaliação de especialistas, o afastamento da Europa do mercado de combustíveis fósseis representa um problema que a Noruega terá que enfrentar. Longo prazo O modelo norueguês hoje em prática remete a decisões tomadas desde 1970, quando a agenda climática não ocupava o centro do debate público, ressalta Rosana Santos, doutora em Energia e diretora-executiva do Instituto E+ Transição Energética. Para a pesquisadora, a estratégia norueguesa esteve baseada em uma visão de desenvolvimento de longo prazo que permitiu a construção de uma das matrizes elétricas internas "mais limpas do planeta": — O país utilizou os recursos provenientes do petróleo para desenvolver competências industriais, tecnológicas e científicas. Empresas que nasceram atendendo à indústria offshore hoje atuam em áreas como energia eólica offshore, captura e armazenamento de carbono (CCS), hidrogênio de baixo carbono, digitalização e tecnologias marítimas avançadas. 'Pouco a ensinar' O diretor do Instituto Internacional Arayara, Juliano Bueno, resume: a Noruega é uma referência técnica e de política pública para países ricos que já possuem uma matriz elétrica limpa, mas não de responsabilidade climática. — O mundo emergente, como o Brasil, a China e a Índia, não pode e não deve se espelhar no modelo da Noruega, que consiste em exportar fósseis para financiar um oásis verde interno. A referência para o mundo precisa vir de modelos que mostrem como crescer e se desenvolver sem depender da extração de combustíveis fósseis. Nisso, a Noruega tem pouco a ensinar. Nesse sentido, Bueno avalia que o Brasil segue a cartilha norueguesa: — O Brasil ruma a passos largos para o modelo norueguês, com a falas do presidente Lula em expandir toda exploração de petróleo e gás na Amazonia Profunda e na Margem Equatorial para subsidiar a transição energética. Este pano de fundo é meramente para atender o lobby de petroleiras internacionais ou nacionais — observa. Divergências internas Após não conseguir emplacar o mapa do caminho mundial, a Presidência brasileira determinou a formulação de um documento nacional para o fim do uso dos combustíveis fósseis. Prometido para fevereiro, o projeto atrasou em meio a “tensões” internas no governo federal, admitiu o ministro do Meio Ambiente, João Paulo Capobianco, em entrevista ao GLOBO na semana passada. Sucessor de Marina Silva, que deixou a pasta para disputar as eleições, ele prevê para as próximas semanas a entrega do plano anunciado pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Segundo Capobianco, há "tensão" em torno de como a transição energética será realizada no país. — Como vamos fazer essa transição considerando que temos que combater essa pobreza energética? É uma tensão entre os ministérios. Como vou abrir mão de uma fonte de energia ou acelerar a redução do uso se ainda tenho que resolver demandas que estão colocadas hoje? Surgem discussões. No campo internacional, o Brasil investe na flexibilização do documento proposto na COP30 para que ele saia do papel na próxima conferência. Em junho, o país indicou que o mapa do caminho terá caráter flexível e adaptado às realidades nacionais.
Como a Noruega, algoz da seleção na Copa, encara suas contradições para também superar o Brasil na transição energética
País europeu aposta no mercado internacional de petróleo para investir em um economia interna de baixa emissões; 'esquema tático' norueguês é apelidado por cientistas locais de 'a bela e a fera'











