Uns 20 anos atrás, numa aula de neurologia, um professor nos repetiu o batido dilema: "Se uma árvore cai e ninguém ouve, ela faz barulho?". A resposta naquela sala era: "Não, ela faz ondas de compressão do ar. Barulho é um evento neurológico. Sem um sistema nervoso, não há som".

Essa aula me veio à cabeça nos acréscimos do segundo tempo de Portugal x Croácia. A Croácia perdia por um gol quando a bola foi alçada à área. Matanovic subiu para cabecear, ela passou por ele, tocou nas costas de um defensor português e sobrou para um croata, que cruzou para o toque final do empate.

Comemoração, vídeo de torcedor emocionado. Meu filho feliz porque dormiria mais tarde com a prorrogação.

Porém o VAR chama o juiz e mostra o lance com um gráfico: uma linha que salta quando a bola passa perto da cabeça do croata. Um chip escondido na bola acusou alteração na aceleração inercial da bola, o que a Fifa interpreta como toque. Nesse instante medido, o jogador para quem a bola sobrou estava impedido. Gol anulado.

O que diz a regra? Impedido é quem está à frente do penúltimo defensor "no momento em que a bola é jogada ou tocada por um companheiro". A palavra-chave, como já levantamos, é "tocada". O que a definia quando a regra foi escrita? O que humanos reconheciam como tal. Não poderia haver toque se ninguém viu aquilo que, na escala do jogo, árbitros, jogadores e espectadores reconheciam como toque.