O cancelamento, no ano passado, pelo presidente americano Donald Trump de uma pesquisa do governo sobre segurança alimentar poderá dificultar a avaliação do impacto dos cortes de sua gestão no programa de vale-alimentação sobre a fome nos Estados Unidos, especialmente entre as crianças. A lei de impostos e gastos assinada por Trump em julho do ano passado transferiu aos Estados uma parcela significativa dos gastos do Programa Suplementar de Assistência Nutricional (Snap, na sigla em inglês) e ampliou as exigências de trabalho para os beneficiários, entre outras mudanças. Desde então, 4,7 milhões de pessoas, cerca de 11% dos participantes, perderam os benefícios do Snap, conhecido como programa de vale-alimentação, número que deve aumentar à medida que os Estados continuem implementando as mudanças. Posteriormente, em setembro, Trump cancelou a pesquisa do Departamento de Agricultura dos EUA (Usda), que durante 30 anos serviu como indicador do acesso das famílias a alimentos suficientes para manter um estilo de vida saudável. Na época, o Usda afirmou, em comunicado, que a pesquisa, utilizada por autoridades para orientar políticas públicas e programas da agência, era "redundante, cara, politizada e desnecessária". Ainda assim, esse relatório era o "padrão-ouro" para compreender o acesso a alimentos, disse Craig Gundersen, economista da Universidade Baylor. Especialistas afirmam que sem esses dados se torna muito mais difícil entender se a fome aumentará em consequência das mudanças promovidas por Trump no Snap. "Haverá, sem dúvida, uma lacuna nas informações sobre a prevalência da insegurança alimentar", disse Michele Ver Ploeg, pesquisadora sênior do Centro Nacional para Política Alimentar e Agrícola, organização sem fins lucrativos. Ela trabalhou anteriormente no Serviço de Pesquisa Econômica do Usda, inclusive como chefe da divisão de assistência alimentar da agência. Um porta-voz do Usda, por outro lado, afirmou que o governo federal, assim como alguns Estados, continua coletando dados sobre fome por meio de outras pesquisas e que o número de beneficiários do Snap não representa, por si só, o nível de insegurança alimentar. Entretanto, estudos anteriores financiados pelo Usda mostraram que aumentos nos benefícios do Snap reduziram a insegurança alimentar entre famílias de baixa renda, enquanto reduções dos benefícios levaram ao aumento das taxas de insegurança alimentar. A Casa Branca não respondeu a um pedido de comentário. Entre 1995 e 2025, o Usda financiou o Departamento do Censo para aplicar uma pesquisa de 18 perguntas sobre segurança alimentar como suplemento à Pesquisa Populacional Atual (Current Population Survey). O levantamento perguntava, por exemplo, se alguém da família havia deixado de fazer refeições no ano anterior por falta de comida e se os entrevistados não tinham condições de pagar por uma alimentação equilibrada. Outras pesquisas, conduzidas pelo Urban Institute e pela Universidade do Sul da Califórnia, coletam alguns dados sobre segurança alimentar dos domicílios, mas "a verdade é que não existe nada realmente comparável" à pesquisa do Usda, afirmou Ver Ploeg. Bancos de alimentos e outras organizações sem fins lucrativos podem divulgar seus próprios levantamentos, mas eles não serão tão abrangentes nem representativos, disse Parke Wilde, economista especializado em alimentação da Universidade Tufts. "Não é que ninguém vá divulgar estatísticas relevantes; é apenas que os dados divulgados não terão a mesma qualidade", afirmou Wilde. Imagem aérea mostra beneficiários de um banco de alimentos aguardando em uma longa fila para receber alimentos durante a distribuição diária no Banco de Alimentos St. Mary's em Phoenix, EUA, em 29 de maio de 2026 — Foto: REUTERS/Rebecca Noble/Foto de Arquivo Fome em alta A última pesquisa do Usda, divulgada em dezembro passado, mostrou que 13,7% dos domicílios enfrentaram insegurança alimentar em algum momento do ano, o maior índice em uma década, coroando vários anos consecutivos de aumento desse problema. Os relatórios do Usda não apresentaram explicações para esse aumento. Outras pesquisas apontaram o fim dos programas de assistência alimentar da época da pandemia e a inflação como os principais fatores. Matthew Rabbitt, pesquisador visitante da Universidade Cornell, que trabalhou na pesquisa do Usda e coordenou seus três últimos anos de publicação, disse que os formuladores de políticas públicas perderam uma ferramenta para responder ao avanço da fome, inclusive para medir o impacto dos cortes de Trump no Snap. "Se não tivermos medidas de insegurança alimentar neste momento, não poderemos tomar decisões de política pública bem informadas", afirmou Rabbitt. Segundo ele, será especialmente difícil avaliar a insegurança alimentar entre crianças, já que as demais pesquisas disponíveis não coletam informações comparáveis sobre esse grupo. "Nós deixamos de monitorar a insegurança alimentar infantil nos Estados Unidos." Voluntários preparam sacolas de alimentos durante uma distribuição diária de alimentos no Banco de Alimentos St. Mary's em Phoenix, EUA, em 29 de maio de 2026 — Foto: REUTERS/Rebecca Noble Esforços para retomar a pesquisa Parlamentares do Estado do Maine aprovaram em março uma lei para produzir uma pesquisa anual sobre insegurança alimentar no Estado, a primeira desse tipo no país. Anteriormente, o Estado utilizava a pesquisa do Usda como referência para medir seu progresso rumo à meta de erradicar a fome até 2030, disse Jackie Farwell, porta-voz da governadora democrata Janet Mills. "O cancelamento do relatório pela administração Trump significa que os Estados já não conseguem medir seu progresso em relação à média nacional e aos demais Estados", afirmou Farwell por e-mail. Ela disse que o gabinete da governadora está trabalhando com organizações sem fins lucrativos e especialistas nacionais para produzir um relatório sobre a fome no Estado até o início de 2027. Democratas no Congresso americano apresentaram projetos de lei para restabelecer a pesquisa do Usda. A senadora democrata Lisa Blunt Rochester, coautora de um dos projetos no Senado para restaurar o levantamento, afirmou que os cortes promovidos por Trump tanto no Snap quanto na pesquisa "enfraqueceram os esforços federais para combater a insegurança alimentar e tornaram mais difícil identificar onde existem lacunas na oferta de assistência". "Dados precisos são essenciais para garantir que os recursos sejam direcionados para onde são mais necessários", disse. Voluntários montam caixas de alimentos durante uma distribuição diária de alimentos no Banco de Alimentos St. Mary's em Phoenix, EUA, em 29 de maio de 2026 — Foto: REUTERS/Rebecca Noble
Corte de Trump em pesquisa sobre segurança alimentar pode dificultar medição da fome nos EUA
Especialistas afirmam que sem levantamento do Departamento de Agricultura torna-se difícil mensurar consequências das mudanças promovidas pelo governo em programas de assistência nutricional






