Bertha Fernandes e Jorge Giordan, da Whirlpool, que está apostando em produtos menos chamativos: “quiet luxury” — Foto: Keiny Andrade/Valor Fabricantes de eletrodomésticos estão investindo em design de linhas retas, acabamento fosco e revestimentos que se camuflam na marcenaria. O objetivo é que os equipamentos sejam imperceptíveis, mas sem perder a finalidade de tornar a rotina diária mais fácil para o consumidor. Nada de ruído estético ou funcional. Com a integração definitiva da cozinha à área social, por exemplo, os eletrodomésticos precisaram “desaparecer visualmente”. Estabelecendo, assim, “tendências estéticas e funcionais que começam a moldar o morar brasileiro. A principal delas é a mimetização ou camuflagem dos aparelhos”, diz Patricia Elias, diretora de marketing e produto do grupo Elettromec, que tem as marcas próprias Elettromec e Invita, e é a representante exclusiva das grifes de luxo em eletrodomésticos como a estadunidense Viking, a italiana Fulgor Milano e as coifas Falmec. Surgiram, assim, refrigeradores, adegas, cervejeiras e lava-louças de embutir que recebem painéis de revestimento idênticos à marcenaria dos armários, tornando-se imperceptíveis quando fechados. Cooktops de indução são instalados diretamente sob as pedras das bancadas, deixando a superfície totalmente lisa e limpa para ser utilizada como mesa de refeições após o uso. Telas de controle digital e painéis de LED são projetados para acender apenas com a aproximação ou o toque do usuário, mantendo o aspecto minimalista do ambiente. “Estas características são tendências do setor e estão presentes em diferentes linhas das marcas do grupo”, diz Elias. Para tamanha sintonia visual e funcional, os projetos podem chegar a R$ 1 milhão. “Se há alguns anos esse consumidor buscava o conceito do status para o eletrodoméstico, hoje passou a exigir mais soluções inteligentes e integradas ao seu dia a dia. Então ele enxerga o produto dentro de um conjunto, não somente uma peça icônica isolada”, diz Rubens Domene, diretor comercial do grupo Elettromec. Para os consumidores mais interessados em inovação, as marcas têm buscado atender essa demanda por conveniência, conforto e bem-estar com tecnologias que “pensam pelo usuário” e com designs que praticamente mimetizam o ambiente. Na edição da Casa Cor em São Paulo deste ano, por exemplo, a Brastemp, marca da Whirlpool, apresentou sua linha mais sofisticada, a B-Design, com estética fluida, sem puxadores aparentes e na cor-tendência, o back inox, um inox escuro e fosco, que torna os equipamentos menos chamativos. É uma linguagem “quiet luxury” para os eletrodomésticos. “No design contemporâneo, painéis, controles e componentes deixam de ser destacados por contrastes visuais e passam a se fundir à linguagem estética do produto”, disse Mayra Laska, que comanda a área de design da Whirlpool América Latina, ao elencar as tendências que pautaram os lançamentos da Brastemp na Casa Cor. Isso porque o consumidor quer cada vez mais “projetos integrados, em que a geladeira, por exemplo, que é um volume imenso e uma dificuldade para arquitetos equacionarem, fique esteticamente bonita em seu ambiente”, diz Bertha Fernandes, chefe de comunicação e marcas da Whirlpool. O destaque da linha B-Design na Casa Cor ficou para a geladeira B-Smart com três portas que, por meio da inteligência artificial, consegue equacionar a temperatura interna e preservar até 44% mais tempo os vegetais. É uma resposta direta às pesquisas feitas pela companhia junto a consumidores interessados em fazer com que seus “morangos durassem mais na geladeira”. É um nicho peculiar estimado em 3% do mercado total de eletrodomésticos do país" “Em vez de utilizar a inteligência artificial apenas como apelo de marketing ou voltada exclusivamente para a eficiência energética, a marca desenvolveu um software integrado a sensores ópticos e de temperatura que aprende a rotina da casa”, diz Jorge Giordan, vice-presidente de engenharia e marketing de produto da Whirlpool. Assim, a tecnologia traz “benefícios tangíveis para a rotina das famílias, distanciando-se da conectividade complexa que ainda possui baixa penetração no país.” A inteligência artificial é aplicada por meio de softwares integrados a sensores ópticos e de temperatura que monitoram a frequência de abertura de portas, o total de alimentos armazenados e as variações térmicas externas para ajustar o funcionamento do compressor. “O aparelho pensa pelo usuário, ajustando-se automaticamente à semana que começa com a geladeira cheia e termina vazia. A gente livra o consumidor dessa preocupação. Isso é inovação com propósito”, diz Fernandes. Essa mesma filosofia foi estendida para lavadoras de roupas e lava-louças. Sensores detectam o nível de sujidade da água e o peso da carga para definir e ajustar o ciclo de lavagem de forma autônoma, poupando o consumidor de tomar decisões de qual função escolher. Outra solução voltada para a eficiência de tempo e espaço é a torre de lavar e secar, com lavadora e secadora acopladas na vertical, que permite realizar as duas funções ao mesmo tempo. A Brastemp também apresentou na Casa Cor o conceito de refrigerador camuflado, reproduzindo assim a mesma lógica das cozinhas na Europa em que ao abrir uma porta descobrem-se eletrodomésticos como a geladeira ou a máquina de lavar. Na edição da mostra do ano passado, a empresa havia lançado o cooktop direto na pedra que, com a aceitação dos arquitetos e consumidores, entrou em desenvolvimento. Outra tendência apontada por Elias é a busca por saudabilidade e silêncio. Em ambientes integrados, o controle de ruídos e odores tornou-se prioridade. Coifas que se assemelham a obras de arte suspensas, como as da Falmec, operam com sistemas de sucção potentes e silenciosos, monitorando a qualidade do ar da residência. A proliferação de apartamentos compactos e estúdios de alto padrão, por sua vez, impõe a necessidade de otimização do espaço, “sem que se abra mão do luxo”, diz Domene. Para esse perfil de moradia, as marcas têm desenvolvido eletrodomésticos multifuncionais e compactos. Os fornos que reúnem, em um único nicho, as funções de microondas, convecção (processo de transferência de calor), cozimento a vapor e fritadeira sem óleo, são símbolos desta tendência. O Elettromec Solo a Vapor Digital, por exemplo, custa a partir de R$ 18.990. O Grupo Elettromec, foi fundado em 1997, em Valinhos, interior de São Paulo, e começou com a importação de coifas italianas, criando o segmento de eletrodomésticos de luxo no Brasil. Atualmente, se define como uma “house of brands”, fabricando seus produtos de marca própria na Europa e China. As pessoas querem ter mais tempo, tão escasso, conveniência e conforto" — Daniel Horai Seu diretor comercial, Domene, calcula que o grupo é líder do segmento de luxo no Brasil, com 51% de participação em um mercado que deve movimentar de R$ 1 bilhão a R$ 1,5 bilhão, a partir da estimativa de dados de importação de equipamentos que “são públicos”. A marca Elettromec representa 80% das vendas do grupo, que cresceu 20% no ano passado. A projeção para este ano também é de 20%. “É um nicho peculiar estimado em cerca de 3% do mercado total de eletrodomésticos do país, que gira em torno de R$ 40 bilhões pelos dados da Euromonitor e da GFK”, diz Domene, que trabalhou praticamente em todas as fabricantes presentes no país. “Esse mercado de alto padrão ainda é subestimado e subutilizado no território nacional, se você pensar no contingente de proprietários de carros importados, helicópteros e iates de luxo, que ainda não foram totalmente educados para enxergar o eletrodoméstico sob a mesma ótica de exclusividade e sofisticação”, afirma Domene. Para conquistar esse público, a estratégia do grupo tem sido afastar-se do modelo de varejo tradicional e focar na experimentação e no relacionamento com arquitetos e decoradores, que atuam como os principais especificadores e influenciadores de compra. “A jornada de compra de um eletrodoméstico de alto padrão exige um atendimento altamente consultivo e personalizado, inviável para indústrias focadas em produções de larga escala”, diz o diretor. Por isso, a empresa, que está presente em 500 pontos de venda com suas marcas, tem expandido seu modelo de varejo com treze lojas próprias. A mais recente das Villa Elettromec foi inaugurada em abril, na alameda Gabriel Monteiro da Silva, o corredor de lojas de decoração de São Paulo. Ali, em espaços com cozinhas funcionais, os clientes e profissionais de arquitetura podem testar os produtos durante almoços e eventos, “vivenciando o conceito de que o luxo contemporâneo está mais associado à experiência do que à mera posse do objeto”, diz Elias. Para Daniel Horai, diretor da Worldpanel by Numerator, “as pessoas querem produtos que permitam otimizar a rotina. A ideia é reduzir as atividades domésticas para poder ter tempo, tão escasso, para fazer outras coisas”. Observa que “trata-se de uma busca universal por conveniência e conforto, embora a forma como esse desejo se materializa nos eletrodomésticos varie conforme o poder aquisitivo das famílias”. A busca por maximização do tempo e do espaço perpassa todos os perfis sócios-econômicos. O exemplo mais significativo deste movimento é a airfryer. Pela pesquisa da Worldpanel, na classe C a presença do equipamento alcançou 62% dos domicílios em 2025, um aumento de 31 pontos em relação a 2022. Entre os lares das classes AB, chegou a 82%, com avanço de 29 pontos. Com isso, o produto deixou de ser aspiracional para se incorporar ao dia a dia das famílias.
O design sem ruídos chega para integrar a cozinha à área social
Fabricantes investem em produtos que não façam barulho estético ou funcional







