Passamos mais tempo olhando para telas do que dormindo. Boa parte desse tempo é uma forma de buscar novos estímulos. Como tirar o celular da mão? 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 Celular utilizado à noite — Foto: Freepik Na semana passada, fui ao teatro. A peça, que era uma adaptação de um livro que adoro, durava duas horas. Sentei, a campainha soou e a cortina se abriu. Passado um certo tempo, fui surpreendido. E não por algo que estava no palco, mas pelo impulso quase automático de pôr a mão no bolso e desbloquear o celular. Eu não fiz isso, até porque estava em modo avião. Mas tive vontade. Mais de uma vez, para ser sincero. E o que mais me intriga é que já era noite e eu não estava esperando uma mensagem importante. Também não tenho filhos, o que até justificaria uma preocupação. Nada disso, mas ainda assim tive vontade. Um misto de curiosidade com o que poderia ter de notificação, urgência de estar perdendo algo importante e medo de que alguém precisasse de mim. Ou, talvez, só um hábito mesmo. Se eu pegasse o celular, essa seria apenas mais uma das centenas de vezes em que o desbloqueio durante o dia, checo as redes sociais e percorro vários aplicativos, quase em um looping. Tudo igual, daqui a pouco repito. Venho percebendo que o intervalo entre uma checagem e outra fica menor. Qualquer momento de pausa, celular na mão. Na verdade, não necessariamente pausa, porque às vezes, durante um filme ou uma conversa com alguém, a vontade aparece. E isso não é só comigo, basta ver que o hábito de usar um segundo dispositivo enquanto se consome outro conteúdo em tela tem até nome, second screening. Uma tela não basta mais. Os números também assustam. O brasileiro passa, em média, nove horas e 13 minutos por dia diante de telas, o segundo maior índice do mundo. Passamos mais tempo olhando para telas do que dormindo. É claro que hoje o celular ou o computador são ferramentas de trabalho e comunicação, mas não há dúvidas de que boa parte desse tempo é excesso de informação. Uma forma quase que inconsciente de passar o tempo e buscar novos estímulos. Já busquei aplicativos que bloqueiam redes sociais ao longo do dia. Alguns, inclusive, são pagos. Para piorar, há os que cobram multa em dinheiro de verdade se você furar o próprio bloqueio. Repare nessa engenharia: as plataformas criaram a demanda, e agora pagamos a terceiros para nos proteger delas. E os efeitos desse fenômeno são cada vez mais claros. Um estudo realizado pela Universidade da Califórnia mediu que, em 2004, conseguíamos manter o foco em uma única tela por dois minutos e meio. Em 2021, 47 segundos. A pesquisa ainda mostra que interrompemos a nós mesmos com mais frequência do que somos interrompidos. Ou seja, é automático. E esse pedido de ajuda é compartilhado. Em pesquisa feita pela Bain & Company, que perguntou a dois mil brasileiros qual hábito gostariam de mudar, o tempo de tela ficou em primeiro lugar (na frente da alimentação e do sedentarismo). No teatro, eu não peguei o celular até o fim da peça. Mas, no dia seguinte, a vontade ganhou, dezenas de vezes, quase sem que eu percebesse. A existência do problema, portanto, não é mais uma dúvida. E a sensação que fica é a de que estamos perdidos, sem conseguir entender qual o limite do uso e o que passa a ser desperdício. Como tirar o celular da mão, se quem o controla sou eu? Não tenho respostas, só um pedido de ajuda.
Um pedido de ajuda
Passamos mais tempo olhando para telas do que dormindo. Boa parte desse tempo é uma forma de buscar novos estímulos. Como tirar o celular da mão?







