No fim de semana passado, quando os EUA festejaram os 250 anos da independência e quando o presidente Donald Trump tentou transformar os festejos em uma celebração a si mesmo, a presença de um grupo supremacista nas ruas de Washington causou repulsa em muitos de seus compatriotas. A organização, a Patriot Front ("Frente Patriota"), expressa abertamente um ideário fascista e defende a criação de um etnoestado branco nos Estados Unidos, mas não é vista de maneira negativa pela Casa Branca trumpista. A Patriot Front surgiu em 2017, na esteira da grande manifestação promovida por grupos de extrema direita, neonazistas, fascistas e supremacistas em Charlottesville, o “Unite the Right”, que se notabilizou por uma marcha na qual dezenas de pessoas carregavam tochas e por um ataque que deixou uma manifestante contrária morta. — Havia muitas pessoas naquele grupo além de neonazistas e nacionalistas brancos. A imprensa os tratou de forma absolutamente injusta — disse Trump na ocasião. — Havia também algumas pessoas muito boas de ambos os lados. Thomas Ryan Rousseau era um dos que marcharam com tochas e participaram de enfrentamentos com grupos antifascistas na cidade. Ele integrava uma organização neonazista na época, da qual saiu para criar a Patriot Front meses depois. Supremacistas brancos desfilam em Washington no 4 de Julho O ideário é similar ao de outros grupos extremistas: para eles, o homem branco americano, assim como sua cultura, estão ameaçados pela imigração e pelas ideias progressistas. Seus slogans mesclam termos associados à expansão ao oeste nas primeiras décadas dos EUA, quando houve um massacre das populações nativas, e palavras de ordem ligadas a Trump, como “América em Primeiro Lugar”. Ao contrário de organizações que buscam moldar os Estados Unidos à sua imagem, como a Heritage Foundation (que criou o Projeto 2025), a Patriot Front defende a derrubada do modelo político atual através da tomada violenta do poder e do estabelecimento de uma ditadura racial branca. Fundador do grupo supremacista branco Patriot Front, Thomas Rousseau, antes de marcha em Washington — Foto: Finn Gomez/Getty Images/AFP Um símbolo marcante, assim como seus membros com máscaras para não serem reconhecidos, é a bandeira americana invertida, usada historicamente por marinheiros para alertar que estavam em perigo e que passou a integrar o simbolismo trumpista: ela estava presente na invasão do Capitólio em janeiro de 2021, e protagonizou uma polêmica com um dos juízes da Suprema Corte, o conservador Samuel Alito, ao ser vista tremulando no jardim de uma de suas residências. Como destacou a Liga Antidifamação (ADL), organização americana destinada ao combate do antissemitismo e do extremismo político, Rousseau apresenta o grupo como “nacionalistas patrióticos”, em uma tentativa de fazer o ideário fascista mais palatável. Em entrevista ao site Capital News Service, em 2020, disse acreditar que Donald Trump seja um supremacista branco que apoia seu grupo apenas indiretamente. “A Patriot Front frequentemente evita a retórica supremacista branca em suas mensagens públicas”, acrescenta a ADL, em artigo publicado pela primeira vez em 2017. “No entanto, o grupo costuma visar seus supostos inimigos por meio de atividades presenciais.” Membros da Patriot Front, grupo supremacista americano, marcham em Washington — Foto: Finn Gomez/Getty Images/AFP Um modus operandi recorrente é realizar ataques contra eventos de seus “inimigos”, todos devidamente registrados em vídeo. Em 2017, o grupo jogou bombas de fumaça em feiras literárias no Texas, nos primeiros atos atribuídos a eles. Em 2018, dezenas de membros atacaram um protesto contra polícia migratória, o ICE, também no Texas, e no ano seguinte colaram cartazes e faixas de tom xenofóbico em uma área com grande presença de imigrantes em Boston. Três anos depois, um vídeo no qual queimaram bandeiras LGBT+ viralizou entre os extremistas. Em 2022, 30 membros foram presos no Idaho, acusados de planejar um ataque contra uma parada do Orgulho LGBT+, incluindo Rousseau. Praticamente todos foram liberados imediatamente pela polícia. Segundo a ADL, a Patriot Front é a maior distribuidora de propaganda supremacista branca nos Estados Unidos, e tem nos meios digitais um terreno fértil de atuação. — Nenhum outro grupo supremacista branco em atividade nos EUA hoje consegue se equiparar à capacidade do Patriot Front de produzir conteúdo midiático, mobilizar-se em todo o país e obter financiamento — afirmou Morgan Moon, pesquisadora investigativa do Centro sobre Extremismo da ADL, em entrevista ao jornal britânico Guardian. — É isso que faz deles uma preocupação específica. Além de expressar lealdade, os membros têm o dever de propagar a ideologia. “Em dezembro de 2021, durante uma reunião nacional da Patriot Front, Rousseau declarou: ‘Cada um de nós distribui material de divulgação... Se você não faz isso, por favor, me avise. Preciso conversar com você. Você pode fazer isso nos fins de semana, durante a semana ou em ambos, com ou sem membros locais, mas você faz’”, disse a ADL no artigo de 2017. Membros da organização extremista Patriot Front antes de marcha em Washington — Foto: Finn Gomez/Getty Images/AFP No último sábado, quando os EUA celebravam 250 anos da independência, a Patriot Front foi às ruas de Washington mais uma vez — eles marcharam ali em 2020 e 2021 —, com membros ostentando as máscaras brancas e roupas militares. A caminho da área central da cidade, homens encapuzados com bandeiras confederadas dividiam o metrô com cidadãos não brancos que não escondiam o espanto e o medo. Cenas que evocaram os piores períodos da segregação racial nos EUA, e que foram observadas à distância pelas autoridades locais. Sob o argumento da liberdade de expressão, a Casa Branca escolheu não condenar a marcha. — Não há nada que eles defendam com o qual eu pudesse concordar — disse no domingo o secretário do Interior dos EUA, Doug Burgum, em entrevista à rede CNN. — Mas um dos princípios fundamentais dos Estados Unidos, que torna a democracia algo tumultuado, é a liberdade de expressão. Em setembro do ano passado, a Casa Branca designou o Movimento Antifascista, chamado frequentemente de “Antifa” nos EUA, como uma organização terrorista doméstica, apesar da ausência de uma estrutura hierárquica definida. Na ordem executiva, alegou que se tratava de “um empreendimento anarquista e militarista que clama explicitamente pela derrubada do governo dos Estados Unidos, das autoridades policiais e do nosso sistema jurídico”. A Patriot Front, como a maioria dos grupos supremacistas e neonazistas no país, não está na lista de grupos extremistas.