Ataques de Teerã a navios comerciais que passavam pelo Estreito de Ormuz foram respondidos por Washington com revogação da licença que autorizava a venda de petróleo iraniano Impressão de notas de dólar no US Bureau of Engraving and Printing, em Washington — Foto: Al Drago/Bloomberg O dólar encerrou o pregão desta terça-feira em alta ante o real, em um dia em que a moeda americana se fortaleceu devido à aversão a risco dos investidores globais diante do aumento das tensões entre Estados Unidos e Irã. Os ataques conduzidos pelo exército iraniano na noite de ontem a navios comerciais que passavam pelo Estreito de Ormuz foram respondidos por Washington com a revogação da licença que autorizava a venda de petróleo iraniano, o que desencadeou uma busca pela segurança do dólar e penalizou a maioria das moedas de economias emergentes. Ao fim dos negócios no mercado à vista, o dólar comercial anotou alta de 0,39%, a R$ 5,1522, após ter tocado a máxima intradiária de R$ 5,1627 e a mínima de R$ 5,1291. Já o euro comercial teve avanço modesto de 0,17%, a R$ 5,8815. Perto do horário de fechamento do mercado local de câmbio, o índice DXY, que mede a força do dólar contra seis moedas fortes, avançava 0,21%, a 101,07 pontos. Entre pares do real, a divisa americana anotava alta de 0,76% contra o peso mexicano; subia 0,55% em relação ao rand sul-africano; e depreciava 0,50% ante o peso colombiano. O avanço da moeda americana em relação a quase todas as moedas emergentes no pregão de hoje foi a tendência durante todo o dia, à exceção de um pequeno período em que o dólar perdeu fôlego durante a manhã. Com o movimento desta terça-feira, o real devolve parte dos ganhos da véspera, quando anotou o melhor desempenho dentre as 33 moedas mais líquidas acompanhadas pelo Valor. A princípio, a aversão a risco dos investidores veio com a notícia, inicialmente publicada pelo Axios, de que a Guarda Revolucionária do Irã disparou mísseis contra três navios petroleiros que atravessavam o Estreito de Ormuz na noite de ontem. O sentimento piorou ainda mais à tarde diante da revogação da licença americana que permitia a venda de petróleo iraniano, e o dólar chegou a saltar à casa de R$ 5,16. Ainda que tenha se afastado das máximas intradiárias antes do pregão no mercado à vista terminar, a divisa americana sustentou a alta contra o real. Além da aversão a risco no mercado de câmbio, houve uma reprecificação dos juros nos Estados Unidos, com a taxa da T-note de dois anos avançando de 4,116% a 4,193% no fim da tarde, à medida que um petróleo mais caro tende a pressionar a inflação americana e, por consequência, exigir uma política monetária mais apertada do Federal Reserve (Fed), que já vem flertando com a possibilidade de voltar a subir os juros básicos este ano. “Não estamos convencidos de que o Fed vá reagir a qualquer alta significativa no preço do petróleo, considerando o quanto ele já recuou, mas o mercado continua precificando um aumento [de juros] de cerca de 7 pontos-base para a reunião do Fomc (Comitê Federal de Mercado Aberto) deste mês”, afirmam Ian Lyngen e Vail Hartman, estrategistas de renda fixa do BMO Capital Markets. Vale lembrar que a expectativa por uma taxa de juros mais alta nos EUA tende a pesar contra o real, uma vez que diminui o diferencial de juros entre as economias brasileira e americana, justamente em um momento em que o Copom flexibiliza a taxa Selic. Apesar do quadro externo mais adverso neste momento, o Deutsche Bank mantém um viés positivo para o real no curto prazo. Segundo ele, o carrego de juros em relação ao dólar deve seguir como suporte à moeda local, que também se beneficia de uma melhor balança comercial em um contexto de crescimento econômico global resiliente e menor volatilidade nos mercados de câmbio. No entanto, com a proximidade das eleições presidenciais de outubro, os riscos de médio prazo aumentam. “Além do curto prazo, no entanto, as perspectivas tornam-se menos claras. O aumento das chances de reeleição de Lula poderia elevar tanto o prêmio de risco fiscal quanto o político, enquanto os fatores sazonais devem se tornar menos favoráveis, já que o comércio e os fluxos financeiros costumam enfraquecer no segundo semestre do ano”, ponderam os profissionais do banco alemão em relatório.