Em Laranjeiras, um jornalzinho conta as pequenas histórias do cotidiano do bairro 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 capa do jornal república — Foto: Reprodução Dia desses um jacu desceu do morro em Laranjeiras. Ao seu jeito filosófico de ciscar tranquilo as migalhas da vida, a galinha selvagem atravessou a Rua Couto Fernandes em meio à algaravia das crianças e, com a mesma elegância discreta, voltou para o oculto profundo da mata de onde tinha surgido. A cena, de tão extravagante inesperado, garantiu ao jacu a capa do jornalzinho República, uma espécie de pasquim do que vai pelo bairro. A Copa do Mundo estava para começar, mesmo assim – justo! justíssimo! – nada pareceu mais importante ao editor. Se fosse ombudsman de jornal, em aplauso à capa do jacu eu botaria para tocar a música do Gil, aquela que critica a monotonia do mundo e diz “as notícias que leio conheço/ já sabia antes mesmo de ler”. Terminaria o texto com versos de um samba antigo, aqueles que dizem “compro o jornal da manhã/ é pra saber das novidades”. As novidades andam muito repetitivas. Falam línguas longínquas, reverberam sem-gracices que não nos dizem respeito. O político isso, o banqueiro aquilo, o influencer aquilo outro. Foi aí que eu, ombudsman amador, me encantei com a poesia do jacu atravessando a rua do alto de Laranjeiras, sempre com as asas no bolso, assim como quem não quer nada – e em troca do desfile recebendo o reconhecimento jornalístico. Havia na cena um tal alumbramento que ela não merecia outro status senão a consagração de ir para a capa da publicação. Numa cidade tão diariamente violenta, de administradores ruins, o jacu desfilava esperança, a pacificação de costumes, a vida sem sobressaltos. Isso é notícia. “Fale de sua aldeia e será universal”, disse o velho Tolstói. O Golfo de Ormuz fica longe, pra lá de Marrakesh, mas a pracinha da General Glicério é logo ali – e todos no bairro se solidarizaram quando em outra capa recente o jornalzinho denunciou o descalabro da retirada, na calada da noite, do delicado banquinho de madeira que ficava na calçada do edifício Triunfo. Quantos primeiros beijos aconteceram ali? Quantas famílias fundadas? “Era o trampolim das crianças vestidas de Homem Aranha, voando como se prédios ali estivessem”, escreveu Ângela Carneiro, avó do Gael e moradora do bairro. “O banquinho era a lembrança de uma cidade de pessoas. De uma rua amigável, compartilhada.” O cotidiano, com seus detalhes tão afetivamente enormes de nós todos, vem sendo rebaixado a uma desimportância que não lhe faz justiça. O mundo tem informação demais. Fala-se de muita coisa maçante, despreza-se a beleza fundamental das banalidades da vida. Millôr Fernandes, ex-morador de Laranjeiras, dizia que todo o necessário à existência deve estar no máximo a 15 minutos de caminhada – “A felicidade é perto”. O jornalzinho de Laranjeiras acha que notícia mora mais perto ainda – e, a propósito, ficou ótimo o artigo de um zoólogo-vizinho explicando por que as cigarras zinem cada vez menos nas árvores da São Judas Tadeu. A edição de número 32 chega hoje em alguns cafés e mercadinhos do bairro. Tem 20 páginas, mil exemplares. Grátis. Com o máximo respeito aos 80 anos de Maria Bethânia, comemorado merecidamente nos jornais, a capa do novo República também é um músico com ares de oitentão – mas ele mora aqui, toca sax todo sábado na Praça do Choro da Glicério.
A felicidade mora perto - a notícia também
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