Na temporada de alta-costura em Paris, a Sotheby's leiloa os desenhos de moda do estilista 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 RESUMO Sem tempo? Ferramenta de IA resume para você GERADO EM: 03/07/2026 - 19:58 Leilão de Croquis Inéditos de Karl Lagerfeld Surpreende em Paris O icônico estilista Karl Lagerfeld, que desejava desaparecer sem deixar rastros, tem mais de mil croquis leiloados pela Sotheby's em Paris. Conhecido por descartar seus desenhos, Lagerfeld surpreende com um leilão de obras inéditas que refletem sua genialidade. Apesar de sua aversão a legados, seus esboços pessoais, que nunca foram enviados às maisons, agora são disputados avidamente, revelando o lado íntimo de um mestre da moda. CLIQUE E LEIA AQUI O RESUMO Eu trabalho para a lata de lixo”, disparou Karl Lagerfeld sobre sua compulsão de desenhar e descartar tudo que não lhe agradava. Era uma coisa louca: papéis amassados aos montes, jogados fora para que ninguém jamais os recuperasse e os usasse em algo que ele não tivesse aprovado. O estilista dizia ainda que, quando morresse, gostaria de desaparecer na floresta como os animais selvagens, sem se preocupar em deixar legado nenhum, porque isso não teria a menor importância — afinal, ele não estaria aqui para aproveitar, apenas os outros. Detestava nostalgia, retrospectivas, homenagens à própria carreira. Repetia que não guardava nada, que rasgava tudo, que não mantinha arquivo pessoal algum. Por isso surpreende o leilão que acontece nesta semana na Sotheby’s de Paris. Até o dia 8, na temporada de alta-costura, a casa promove a sexta e última venda dedicada à sua sucessão, batizada “KARL, Karl Lagerfeld’s, Estate VI, Inspirations”. No coração do evento, mais de mil desenhos inéditos, jamais mostrados ao público, guardados pelo estilista alemão, morto há sete anos. O homem que jurava não conservar nada conservava, afinal, o que tinha de mais íntimo: o próprio pensamento traduzido em traço. E que traço. Lagerfeld foi o estilista mais prolífico de sua geração, e tenho certeza de que das próximas também. Foram mais de 50 anos à frente da Fendi, quase duas décadas na Chloé e 36 anos comandando a Chanel, de 1983 ao último suspiro, em 2019. Produzia dezenas de croquis num único dia, o lápis correndo direto atrás do fio do raciocínio, sem hesitação. A tinta era sua matéria predileta, mas vinham também aquarela, canetas coloridas, lápis de cera, Tipp-Ex e, mais surpreendente, maquiagem: sombra, batom, o que estivesse à mão para resolver uma silhueta. Karl narrava e desenhava ao mesmo tempo, como quem faz uma transmissão ao vivo com a caneta. Você assistia a uma história nascer no instante em que a mão se movia: a manga, a gola, o drapeado, a mulher inteira surgindo de um rabisco. E aqui mora o detalhe mais especial deste leilão: nenhum desses desenhos foi entregue às maisons para as quais ele trabalhava. Eram papéis seus, particulares, que guardou como artista até a morte. “A moda começa no papel e permanece no papel”, dizia. Mas há um outro lado nessa profusão de folhas: a solidão. Karl passava o dia inteiro desenhando, porque o trabalho exige disciplina, e a disciplina exige uma certa clausura. O público só via o glamour, os óculos escuros, as luvas, o leque, as frases lapidares, os desfiles, a corte ao redor. Por trás do personagem, porém, havia um operário da moda. É fruto da geração estoica que saiu da Segunda Guerra: não explique, não reclame. Dizia que nenhuma cliente quer saber quantas horas você dedicou à labuta: “Ela não compra por piedade, mas porque a roupa é bonita.” O que torna este leilão tão excitante é justamente essa ironia. O homem que queria sumir sem rastro vê agora seu rastro mais secreto exposto e disputado lance a lance, todos os lotes partindo de um euro, sem preço de reserva. Os papéis que ele mandaria para o lixo tornaram-se relíquias. E o mercado já provou ter fome dessa intimidade: em 2021, o desenho “Les trois muses”, de 1986, foi arrematado por mais de 200 mil euros; um conjunto de quatro cadernos de croquis dos anos 2000 saiu por 315 mil. Há ainda os lotes inesperados, os cerca de duzentos iPods. Karl comprava um aparelho para cada gênero — techno, barroco, clássico — porque se recusava a misturar estilos no mesmo dispositivo. Funcionam todos, embora a Apple os tenha aposentado. A trilha sonora que embalou uma época em que o trabalho duro ainda era requisito para chamar alguém de gênio.
Karl Lagerfeld, o homem que queria desaparecer sem deixar rastros, tem mais de mil croquis leiloados em Paris
Na temporada de alta-costura em Paris, a Sotheby's leiloa os desenhos de moda do estilista











