Um ano e meio depois de classificada como organização terrorista pelos EUA, facção venezuelana está presente em sete estados do país e se consolida como provedor de armamento para organização criminosa fluminense 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 Antonio Cabrera, líder do Tren de Aragua no Brasil, durante prisão em 2024. Atualmente, ele se encontra foragido — Foto: Reprodução RESUMO Sem tempo? Ferramenta de IA resume para você GERADO EM: 04/07/2026 - 14:29 Facção venezuelana Tren de Aragua expande operação no Brasil Tren de Aragua, facção venezuelana classificada como terrorista pelos EUA, amplia sua presença no Brasil, atuando em sete estados como fornecedor de armas para o Comando Vermelho. Com raízes em Roraima e expansão nas regiões Sul e Sudeste, o grupo recruta imigrantes e domina rotas de tráfico. A morte do líder Héctor Guerrero por ação conjunta EUA-Venezuela pode aumentar a migração ilegal para o Brasil. CLIQUE E LEIA AQUI O RESUMO Um diálogo extraído do celular do líder da facção venezuelana Tren de Aragua mostra que, até no mundo do crime, impera a boa e velha pechincha. Na troca de mensagens sobre a venda de armamento, um integrante do Comando Vermelho reclama do valor de R$ 3 mil de frete cobrado para transportar cada arma da região Norte até o Rio de Janeiro. Do outro lado da tela, Antônio Cabrera Soterano, o Tio Antônio, chefe do grupo venezuelano no Brasil, não dá margem para negociação: “C., meu irmão, você é o que está saindo com o frete mais barato. Porque está pagando só uma porcentagem para os caras que dirigem. Imagina quando antes pagava o frete completo, mano”. A conversa, de novembro de 2024, foi interceptada durante uma investigação, e ilustra como a maior facção criminosa da Venezuela vem operando em solo brasileiro. Um ano e meio depois de classificado pelos Estados Unidos como uma organização terrorista transnacional, o Tren de Aragua não apenas fincou raízes em Roraima, mas também se espalhou pelo Brasil. A estimativa das forças de segurança é que o grupo tem entre 150 e 250 integrantes nos estados do Sul do Brasil, além do Amazonas e Roraima. Também conta com associados em São Paulo e no Rio de Janeiro. — A região Sul tem forte demanda de trabalho em plantas de frigorífico, e os venezuelanos acabam sendo atraídos para esses locais. Os integrantes do Tren de Aragua se aproveitam da onda migratória para se integrarem a essas comunidades e passar despercebidos. Há um interesse particular do grupo pela tríplice fronteira com o Paraguai e a Argentina, um local propício para muitas transações irregulares — explica o delegado Wesley Costa de Oliveira, da Delegacia de Repressão às Organizações Criminosas (Draco) da Polícia Civil de Roraima, responsável pela investigação. — Foto: Criação O Globo — Foto: Criação O Globo Criada por um sindicato de trabalhadores ferroviários, o Tren de Aragua se expandiu por detentos do presídio de Tocorón, a 140 quilômetros de Caracas. Depois da desarticulação da prisão, o grupo passou a operar de uma base em Las Claritas, a quarta maior jazida de ouro do mundo, localizada no Arco Mineiro do Orinoco, no estado de Bolívar. A região é palco de disputas constantes por grupos criminosos, e sofre com degradação ambiental, devastação de florestas e tensões envolvendo os direitos das comunidades indígenas locais. No Brasil, a estratégia do grupo para se expandir inclui o recrutamento de imigrantes venezuelanos e brasileiros, o domínio de rotas de tráfico de drogas, pontos de prostituição, garimpos de ouro e uma aliança recente com o Comando Vermelho. Com fornecedores de armas na Colômbia e Venezuela, o Tren de Aragua se tornou um dos principais provedores bélicos para a facção fluminense. Em apenas um dos aparelhos celulares apreendidos na investigação, foram identificadas negociações de fuzis 7.62, metralhadoras calibre .50 e lança-granadas destinados a postos de atuação do Comando Vermelho no Rio de Janeiro e no Amazonas. — A investigação mostrou que o grupo mantém um fluxo de armamento passando por aqui, e isso acaba empoderando as facções brasileiras — avalia Oliveira. — Nós já temos duas facções muito fortes em Roraima. Com a terceira se avolumando e adentrando em território nacional, acabamos por potencializar a dificuldade do combate. — Foto: Criação O Globo — Foto: Criação O Globo Os métodos de lavagem de dinheiro da facção venezuelana surpreenderam os investigadores. Associado a operadores brasileiros, o grupo usa técnicas como o “smurfing”, ou o fracionamento de depósitos em espécie em caixas eletrônicos, para burlar alertas do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf). E já se vale de criptomoedas para lavar cifras milionárias — por meio de empresas de fachada, como a G.A. Transitions, a organização movimentou volumes financeiros incompatíveis com o perfil de seus operadores. Só nesta investigação, o grupo movimentou mais R$ 6 bilhões. Desse total, R$ 428 milhões foram em transações Ilícitas. Morte do líder Em junho, uma operação conjunta entre os Estados Unidos e a Venezuela resultou na morte de Héctor Rusthenford Guerrero Flores, o Niño Guerrero, apontado como o principal chefe do Tren de Aragua. Guerrero estava escondido em Las Claritas, de onde comandava a extração ilegal de ouro e o tráfico de armas. Segundo o presidente americano, Donald Trump, o Comando Sul dos EUA organizou um ataque “rápido e letal”. O pano de fundo da operação é a retomada da mina pelos EUA, que agora passará a ser explorada por empresas privadas com investimentos estrangeiros. Autoridades ouvidas pelo GLOBO temem que as incertezas diante da morte de Guerrero provoquem uma debandada de garimpeiros e integrantes do Tren de Aragua para Boa Vista, capital de Roraima. No ano passado, o Conselho Nacional de Imigração, vinculado ao vinculado ao Ministério da Justiça e Segurança Pública, foi alertado sobre o aliciamento de imigrantes venezuelanos pela facção. A intenção era tornar mais rigoroso o processo de entrada dos refugiados, uma vez que o grupo se aproveita da crise humanitária do país vizinho para conseguir mão de obra fácil para a criminalidade no Brasil. O processo de entrada de imigrantes venezuelanos no Brasil está bastante automatizado. Sem quase nenhuma cooperação entre países, a confirmação dos antecedentes criminais dos refugiados que pedem abrigo é complexa. Não é difícil passar pela fronteira sem autorização. O GLOBO encontrou páginas no Facebook que vendem documentação falsificada para entrar 'legalmente' no país. Além da facilidade de burlar a imigração, venezuelanos adentram o país pelas chamadas “trochas”, caminhos clandestinos usados para a travessia informal de pessoas e mercadorias ilícitas na fronteira. — Vamos ter de repensar nossos protocolos para entender uma facção que tem outros valores e que está num contexto de atuação num país que exporta refugiados para o mundo todo — conclui Wesley.