O calor extremo que atinge os Estados Unidos forçou o cancelamento de diversos eventos programados para celebrar os 250 anos da independência do país neste fim de semana, incluindo o tradicional desfile do Dia da Independência em Washington. A onda de calor, que afeta principalmente a Costa Leste e o Meio-Oeste, levou autoridades a emitirem alertas para milhões de pessoas e obrigou organizadores a reverem a programação das comemorações do 4 de Julho. O principal evento afetado foi o Desfile do Dia da Independência na capital americana, previsto para começar às 10h30 (no horário local) deste sábado. Na noite de sexta-feira, os organizadores anunciaram o cancelamento da cerimônia após o Serviço Nacional de Meteorologia dos EUA (NWS) emitir um alerta de calor extremo para Washington, onde a sensação térmica poderia atingir entre 43°C e 46°C. Calor recorde atinge os EUA em meio a Copa e celebração do 250º aniversário do país — Foto: Alex Wroblewski/AFP "Essa decisão foi tomada após uma análise ampla e cuidadosa, tendo como prioridade máxima a segurança dos participantes, espectadores e equipes", afirmou a organização em comunicado. Também em Washington, a Grande Feira Estadual Americana (Great American State Fair), montada na National Mall, a grande esplanada que concentra os principais monumentos de Washington, como parte das celebrações do aniversário do país, precisou interromper suas atividades durante várias horas na sexta-feira. Segundo a organização Freedom 250, o evento foi fechado até as 17h devido às altas temperaturas e reaberto mais tarde, após melhora das condições. — A segurança e o bem-estar dos visitantes, voluntários, artistas, vendedores e funcionários são nossa maior prioridade — declarou a organização. De acordo com o jornal americano Washington Post, o Corpo de Bombeiros e os serviços de emergência da capital informaram que 44 pessoas foram atendidas durante a feira nas horas que antecederam o fechamento temporário. Dessas, 11 precisaram ser levadas a hospitais por diferentes problemas de saúde ou ferimentos. As autoridades não detalharam quantos casos estavam diretamente relacionados ao calor. — Vai ser um fim de semana muito movimentado. Sabemos que haverá doenças relacionadas ao calor dentro e fora da Esplanada e incentivamos moradores e visitantes a tomar precauções caso precisem permanecer ao ar livre — afirmou um porta-voz da corporação. Relatos de participantes mostram os efeitos das temperaturas elevadas. Robin Ardito, que esteve na feira, contou à rede britânica BBC que viu uma mulher de meia-idade sendo atendida por funcionários do evento após apresentar sinais de mal-estar provocado pelo calor. Segundo ela, a visitante recebia atendimento com as mãos mergulhadas em baldes de gelo. — Estava quente demais para realizar um evento como esse — ressaltou. Os cancelamentos se espalharam por outras cidades americanas. Na Filadélfia, um dos principais eventos previstos para o aniversário de 250 anos da independência, o Desfile Semiquincentenário de Saudação à Independência, também foi suspenso. — Por mais dolorosa que seja essa decisão para todos dentro da nossa organização, simplesmente não podemos realizar um evento desse porte sob condições de calor tão perigosas — declarou Michael DelBene, diretor-executivo da organização Wawa Welcome America. Outros desfiles tradicionais do Dia da Independência foram cancelados em Leesburg, no estado da Virgínia, e nas cidades de Laurel e Takoma Park, em Maryland. "Nesse calor, desfilar é particularmente arriscado", escreveu Tara Egan, presidente do Comitê do Dia da Independência de Takoma Park, em mensagem enviada a participantes e voluntários. "Não acreditamos que seja seguro nem responsável pedir à nossa comunidade que desfile ou se reúna sob essas condições." Apesar das temperaturas extremas, algumas das principais celebrações foram mantidas. O tradicional concerto A Capitol Fourth, realizado no gramado oeste do Capitólio e transmitido nacionalmente pela emissora pública PBS, ocorreu na noite de sexta-feira com medidas especiais de segurança. Tradicionalmente realizado no Dia da Independência, o concerto foi antecipado para 3 de julho em razão da programação especial e dos fogos de artifício organizados pela Freedom 250 para o dia 4. A Polícia do Capitólio adiou a abertura dos portões ao público e orientou os participantes a levarem água para evitar casos de desidratação. Autoridades também autorizaram a entrada de recipientes de água e caixas térmicas. O ensaio geral do espetáculo, entretanto, havia sido fechado ao público, na quinta-feira, devido ao calor. O presidente americano, Donald Trump, também manteve sua participação nas celebrações dos 250 anos da independência e deve discursar ao ar livre no National Mall às 21h (22h em Brasília), neste sábado, apesar das condições climáticas. Ao comentar a previsão de temperaturas extremas, afirmou que pretende fazer "um discurso bem longo só para mostrar que pode fazer qualquer coisa". A participação do republicano será seguida por uma queima de 850 mil fogos de artifício, prevista para começar não antes das 22h30 (23h30 em Brasília), e com uma duração prevista de 40 minutos — que se bem-sucedida estabelecerá um recorde mundial. A onda de calor já é considerada a mais intensa do ano nos EUA e atinge uma extensa faixa do território americano. Na sexta-feira, mais de 165 milhões de pessoas estavam sob alertas de calor extremo ou avisos de altas temperaturas, segundo o NWS. Já o Centro de Previsão do Tempo dos EUA estimou que cerca de 197 milhões de americanos, em uma área que vai do Kansas ao Maine, estavam sob algum tipo de alerta relacionado ao calor. Washington e Filadélfia devem registrar temperaturas próximas de 40°C neste fim de semana, com sensação térmica chegando a cerca de 44°C. Em Nova York, os termômetros alcançaram 38°C na quinta-feira, o dia mais quente na cidade desde 2012. — Essas são condições extremamente perigosas — alertou o prefeito de Nova York, Zohran Mamdani. Meteorologistas preveem que o calor continuará afetando parte da Costa Leste durante o restante do feriado prolongado. Além das temperaturas elevadas, há risco de tempestades severas em áreas das Planícies do Norte, do Meio-Oeste e da região dos Grandes Lagos, com possibilidade de granizo, ventos destrutivos, enchentes repentinas e até tornados. Especialistas apontam que ondas de calor como a atual têm se tornado mais frequentes, intensas e duradouras em razão das mudanças climáticas. Segundo cientistas, a temperatura média global já aumentou cerca de 1,1°C desde o início da era industrial. (Com Bloomberg)