Diretor da rádio RCV, Marcos Fonseca conversou com o GLOBO e avaliou que campanha histórica já gera impacto no turismo, na imagem internacional do país e pode impulsionar investimentos nas categorias de base 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 Cabo Verde antes de jogo contra Arábia Saudita — Foto: Francois Nel / GETTY IMAGES NORTH AMERICA / Getty Images via AFP RESUMO Sem tempo? Ferramenta de IA resume para você GERADO EM: 03/07/2026 - 10:20 Copa do Mundo 2026: Transformação e Unidade em Cabo Verde A Copa do Mundo de 2026 está transformando Cabo Verde, afirma Marcos Fonseca, diretor da rádio RTC. A campanha histórica da seleção impacta o turismo, a imagem internacional e os investimentos em categorias de base. Reconhecida pela FIFA, a seriedade da federação cabo-verdiana atrai novos investimentos. Fonseca destaca que o futebol está unindo o país, semelhante à independência de Portugal, celebrando a autoestima e coesão nacional. CLIQUE E LEIA AQUI O RESUMO Muito antes de a bola rolar contra a Argentina, Cabo Verde já sente que venceu uma Copa do Mundo. Não necessariamente dentro de campo. Mas na forma como o país passou a ser visto pelo restante do planeta. Para Marcos Fonseca, diretor da emissora pública RCV e um dos principais jornalistas esportivos do arquipélago, a campanha histórica da seleção no Mundial de 2026 representa um ponto de inflexão para um país que, até poucos anos atrás, ainda precisava explicar onde ficava no mapa. — Essa participação está mexendo com tudo. Não é apenas futebol. Vai abrir portas para o turismo, para a cultura, para os investimentos e até para a forma como o cabo-verdiano é visto no mundo. A Copa pode mudar a vida de um país inteiro — afirmou ao GLOBO. O reconhecimento, segundo ele, começou muito antes da bola rolar nos Estados Unidos, Canadá e México. Nesta semana, a própria Fifa classificou Cabo Verde como um modelo de desenvolvimento para o futebol africano, destacando os investimentos realizados pelo programa FIFA Forward desde 2016. Para Fonseca, esse reconhecimento não é apenas institucional. — A FIFA tem muita contribuição para estarmos aqui. Os investimentos foram fundamentais, mas houve um fator decisivo: a seriedade da nossa federação. Os projetos foram executados, o dinheiro foi aplicado onde deveria ser aplicado. Isso gerou confiança para novos investimentos. Impacto para as próximas gerações Apesar do avanço, ele acredita que o maior desafio começa justamente agora. Segundo o jornalista, o sucesso da seleção precisa chegar aos bairros onde surgem os jogadores. — Espero que esse dinheiro também chegue às escolinhas. Muitas sobrevivem apenas da boa vontade de pessoas que nem emprego fixo têm, mas dedicam a vida a tirar crianças das ruas através do futebol. São elas que descobrem os talentos quando ninguém ainda acredita neles. Fonseca cita como exemplo o atacante Kevin, autor do primeiro gol de Cabo Verde em uma Copa do Mundo. Antes de chegar à seleção, o jogador passou por pequenas escolas comunitárias, mantidas por voluntários. — Quando o jogador já virou estrela, muita gente aparece dizendo que trabalhou com ele. Mas quem estava lá quando ele tinha seis, sete anos eram os treinadores do bairro. São essas pessoas que precisam ser valorizadas. Na visão do diretor da RCV, fortalecer essas iniciativas significa também investir em segurança pública. — Muitos jovens que hoje entram para a delinquência têm talento para o futebol. Se houver projetos nos bairros, estamos investindo também na paz social. Mudança no cotidiano do país A campanha histórica também já produz reflexos econômicos. Com o turismo como um dos principais motores da economia cabo-verdiana, a exposição mundial tem potencial para atrair visitantes e investidores. Segundo Fonseca, a transformação vai além dos números. Ela também mexe com a autoestima nacional. — Há 15 ou 20 anos, havia países em que um cabo-verdiano apresentava o passaporte e ouvia que Cabo Verde nem existia. Hoje isso acabou. O futebol fez o mundo conhecer o nosso país. Onde houver um cabo-verdiano, ele será mais respeitado como profissional e como cidadão. Nem mesmo o duelo contra a Argentina altera essa percepção. Independentemente do resultado diante dos atuais campeões mundiais, ele considera que a seleção já alcançou seu principal objetivo. — Muita gente aqui diz que já somos campeões do mundo. Cada país luta pelo seu próprio troféu. O nosso era chegar até aqui e mostrar quem somos. O confronto desta sexta-feira ganhou ainda um significado simbólico para os cabo-verdianos. A partida antecede as comemorações dos 51 anos da independência de Portugal, celebrados no domingo, e uma eventual classificação diante da Argentina seria tratada como um presente histórico para o país. — Seria algo espetacular para o povo cabo-verdiano. O jogo acontece praticamente na virada para o dia da independência. Uma vitória daria ainda mais motivos para festejar. Desde a independência, há 51 anos, nunca o povo esteve tão unido quanto está agora por causa da seleção. Os dois maiores momentos de mobilização dos cabo-verdianos foram a independência e esta Copa do Mundo — afirma. Se conseguir eliminar a Argentina, Cabo Verde escreverá o maior capítulo de sua história esportiva. Mas, para Marcos Fonseca, o legado já começou. — Os dois maiores momentos de união nacional que vivemos foram a independência e esta Copa do Mundo. Em um país de pouco mais de meio milhão de habitantes, poucas frases conseguem traduzir tão bem o tamanho da transformação provocada pelo futebol.