Parcela de brasileiros ocupados que também frequentam a escola passou de 13,1% em 2019 para 15,1% em 2025, mostra Pnad Joca Oliveira, da Unico Skill — Foto: Divulgação A parcela de trabalhadores brasileiros que estuda e trabalha avançou de 13,1% em 2019 para 15,1% em 2025. O número das pessoas ocupadas e que se qualificam ao mesmo tempo cresceu 27% entre 2019 e 2025, para 15,5 milhões, ritmo superior ao daqueles que só trabalham (8%). As informações são de estudo a partir de microdados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (Pnad) Educação, do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Os cálculos são da plataforma de educação corporativa Unico Skill e foram antecipados com exclusividade ao Valor. A rotina de estudos simultânea à jornada de trabalho aumentou inclusive entre aqueles com ensino superior completo. Neste grupo, a participação dos trabalhadores com algum tipo de formação em curso saltou de 13,3% em 2019 para 16,3% em 2025. São 4,1 milhões de trabalhadores, dos 25,2 milhões neste grau de instrução. Transformações tecnológicas mais aceleradas, especialmente a inteligência artificial, demanda ainda reprimida por educação, competição mais acirrada de trabalhadores diante da ampliação do contingente de pessoas com ensino superior, aquecimento do mercado de trabalho e desejo por mais renda são algumas das razões citadas por especialistas para explicar esse crescimento. “Com a expansão da inteligência artificial, ocorre uma mudança drástica das funções exercidas e das habilidades que um profissional precisa ter. Em dois anos, houve pressão muito grande para o desenvolvimento do trabalhador. E não é só na base de trabalhadores, com menor qualificação, mas mesmo entre os que já têm ensino superior. Todo mundo está voltando a estudar”, afirma o diretor-executivo da Unico Skill, Joca Oliveira. Na sua avaliação, o aquecimento do mercado de trabalho também contribui para o aumento da parcela de trabalhadores ocupados. Como aumenta a disputa por trabalhadores qualificados, uma alternativa encontrada por empresas tem sido apostar na qualificação dos profissionais, segundo ele. “Muita empresa hoje enfrenta dificuldades para conseguir mão de obra qualificada suficiente para as posições abertas. Temos conhecimento de clientes que precisam dispensar a exigência de ensino médio para poder completar vagas e aí investem nessa qualificação.” Pela classificação do IBGE, o conceito é mais restrito e são considerados estudantes as pessoas que frequentam escola ou creche, cursos regulares, cursos técnicos, educação de jovens e adultos, graduação ou especialização nível superior, mestrado ou doutorado. Nesse grupo, portanto, não está incluído quem faz cursos livres, como idiomas ou de tecnologia. Ensino a distância trouxe mais flexibilidade para o trabalhador seguir com estudos, além do custo mais baixo" A exigência das transformações rápidas em tecnologia e o desejo de conseguir rendimentos melhores estão por trás dessa maior parcela de pessoas ocupadas e em estudo, além do aquecimento do mercado de trabalho, segundo o pesquisador do Instituto Mobilidade e Desenvolvimento Social (Imds) Leandro da Rocha. “Quando entra no mercado de trabalho, o trabalhador vê pessoas com mais qualificação e ganhando mais. Com isso, querem continuar subindo a escada de rendimentos. Até pela facilidade de acesso ao ensino superior, especialmente com o EaD [ensino a distância], buscam qualificação”, diz. Para o pesquisador em educação Guilherme Hirata, esse fenômeno de mais trabalhadores-estudantes é menos explicado pelo bom momento do mercado de trabalho e mais pela continuidade da busca por educação na sociedade brasileira. “O movimento tem menos a ver com o aquecimento do mercado de trabalho e está mais ligado a uma demanda ainda reprimida por educação. Houve uma expansão muito grande do ensino superior nos últimos anos, com Fies, Prouni...”, afirma. “O prêmio salarial de quem concluiu o ensino superior ainda é muito alto, apesar de ter caído um pouco nos últimos anos. Então continuar a estudar é uma tentativa de a pessoa se diferenciar no mercado e alcançar uma renda maior”, completa. O estudo da Unico Skill mostra que a renda dos trabalhadores ocupados que estudam é maior que a daqueles que só trabalham em todas as faixas etárias, com exceção apenas no grupo de 18 a 24 anos. A maior diferença aparece entre as pessoas de 50 anos ou mais: quem continua estudando ganha R$ 5.193, em média, 40% acima daqueles que só trabalham. Na faixa de 18 a 24 anos, o ganho de quem só trabalha é de R$ 1.951, 3,1% acima do rendimento daqueles que trabalham e estudam (R$ 1.891). “Os dados mostram que há uma diferença importante de renda quando se compara os trabalhadores que estudam com aqueles que não estudam. O estudo significa mais renda para o colaborador e mais retorno para a empresa”, diz Oliveira. Se na população como um todo o aumento do ensino superior está claro nas estatísticas, e os dados também reforçam essa maior participação dos trabalhadores que seguem estudando, é preciso ter cautela para avaliar até que ponto isso vai se traduzir em mais produtividade para a economia. A análise é de Leandro da Rocha, diante das limitações da qualidade de ensino observadas em diferentes indicadores de proficiência para algumas instituições. Segundo ele, o ensino a distância trouxe mais flexibilidade para o trabalhador seguir com seus estudos, além do custo mais baixo, só que é necessário cuidado sobre os possíveis ganhos futuros. Rocha lembra que a média no Brasil é de 10,2 anos de estudo entre as pessoas de 25 anos ou mais, enquanto passa de 13 anos nos países desenvolvidos. “O aumento da educação no Brasil é sempre bem-vindo. Só que vimos uma explosão do ensino EaD, que hoje tem mais matrículas que a graduação de forma presencial. E os dados mostram, na média, uma qualidade mais baixa de formação e evasão grande. Então é preciso cautela para saber se de fato vai se transformar em melhora de produtividade.”