Quatro policiais venezuelanos do Corpo de Investigações Científicas, Penais e Criminalísticas (Cicpc) da Venezuela foram presos por roubar na área afetada pelo duplo terremoto que devastou o país há uma semana, anunciou o Ministério da Justiça nas redes sociais, após viralizarem imagens dos agentes sendo flagrados com sacolas por moradores revoltados. O caso aumentou a pressão sobre o governo em meio a críticas da oposição à condução da emergência, discussões sobre o possível retorno da líder opositora María Corina Machado ao país e relatos de insegurança em abrigos improvisados para sobreviventes. "Ladrões", "Não têm sentimentos" e "São uma vergonha", gritavam os moradores aos policiais no conjunto residencial Residencias Vallarta, em La Guaira, segundo vídeos que circulam nas redes sociais. La Guaira, no norte da Venezuela, é a região mais devastada após os terremotos de magnitude 7,2 e 7,5 que atingiram o país em 24 de junho e deixaram ao menos 2.295 mortos, de acordo com o balanço oficial mais recente. Em um dos vídeos, um agente segura uma pequena caixa deformada e amassada, provavelmente recuperada dos escombros, com dólares dentro. As pessoas o cercam e exigem que ele a entregue. Em outro vídeo, uma mulher parece rasgar o que seriam cédulas que teria tomado dos policiais. O episódio ocorreu em meio às operações de busca por sobreviventes em La Guaira. Nos últimos dias, voluntários que atuam nos resgates passaram a denunciar supostos saques e irregularidades cometidos por integrantes das forças de segurança em áreas destruídas pelos tremores. Um funcionário em um posto de controle afirmou ter presenciado policiais e militares se apropriando de suprimentos transportados em caminhões de ajuda humanitária. Um homem mostra fotos de pessoas desaparecidas em meio aos escombros na praia de Los Cocos, em Caraballeda, estado de La Guaira, Venezuela, em 1º de julho de 2026, após os dois terremotos ocorridos em 24 de junho — Foto: JUAN BARRETO / AFP Nesta quarta-feira, o Ministério da Justiça divulgou um vídeo de um dos agentes entregando sua arma e retirando o uniforme, além das fotos dos quatro policiais envolvidos. “Um grupo de agentes, desviando-se de seus deveres e aproveitando-se das operações de resgate e assistência humanitária, agiu de maneira indecorosa ao se apropriar de valores encontrados entre os escombros”, afirmou o Ministério da Justiça em comunicado, no qual destaca que os policiais foram detidos, demitidos e colocados à disposição da Justiça. Segundo as autoridades, os quatro agentes foram identificados como Aguilar Reyes, Fredy Lugo, Roger Andrés Omaña e Josué Burgos. Em resposta ao episódio, o ministro do Interior da Venezuela, Diosdado Cabello, classificou os fatos como "indecentes e vergonhosos" e prometeu punições exemplares aos envolvidos. — Houve uma denúncia de que alguns agentes do Cicpc estavam praticando atos obscenos e indecentes na área da tragédia. Eles foram identificados e expulsos da instituição por desonrarem o uniforme — afirmou Cabello. — Seremos muito mais severos com aqueles que, usando uniforme, quiserem se aproveitar da dor e dos bens alheios em um momento de grande comoção. A resposta das autoridades ao desastre já vinha sendo alvo de críticas. De acordo com o jornal argentino La Nacion, voluntários envolvidos nas buscas afirmam que as equipes oficiais avançam lentamente nas áreas mais devastadas e denunciam falta de maquinário pesado, além de restrições ao acesso de civis que tentam colaborar nas operações de resgate. Diversos saques e roubos foram registrados após os tremores. As forças de segurança foram mobilizadas para tentar contê-los, mas os episódios continuam ocorrendo, segundo relatos de moradores à AFP. Forte terremoto atinge a Venezuela 1 de 20 Fotografias aéreas mostra comparação do antes e depois do terremoto em La Guaira — Foto: Vantor / AFP 2 de 20 Equipes de resgate seguem em uma corrida contra o tempo para encontrar sobreviventes soterrados em Caracas — Foto: Federico PARRA / AFP X de 20 Publicidade 20 fotos 3 de 20 Um homem inspeciona um prédio de apartamentos que desabou após um terremoto em Catia La Mar, no estado de La Guaira, a cerca de 30 km a noroeste de Caracas, em 25 de junho de 2026 — Foto: FEDERICO PARRA / AFP 4 de 20 Registro mostra o interior de uma casa após terremoto na cidade de Catia La Mar — Foto: Federico PARRA / AFP X de 20 Publicidade 5 de 20 Pessoas dormem na rua após o terremoto em Caracas — Foto: Manaure QUINTERO / AFP 6 de 20 Equipes de socorro, incluindo integrantes da Cruz Vermelha Venezuelana, procuram pessoas que possam estar presas sob os escombros — Foto: Federico PARRA / AFP X de 20 Publicidade 7 de 20 Busca por pessoas que possam estar soterradas em Caracas — Foto: Federico PARRA / AFP 8 de 20 Nos próximos dias, o esforço humanitário deverá se concentrar no resgate de sobreviventes — Foto: Federico PARRA / AFP X de 20 Publicidade 9 de 20 As pessoas retiradas dos escombros estão recebendo atendimento médico em clínicas locais — Foto: Federico PARRA / AFP 10 de 20 Grupos de resgate fazem buscas com pessoas nos escombros em Catia La Mar — Foto: Juan BARRETO / AFP X de 20 Publicidade 11 de 20 Prédios destruídos, feridos e pânico: imagens mostram destruição causada por terremoto na Venezuela — Foto: Juan Barreto/AFP 12 de 20 O governo venezuelano declarou estado de emergência após dois fortes terremotos atingirem o país quase consecutivamente — Foto: Juan Barreto/AFP X de 20 Publicidade 13 de 20 Os tremores foram sentidos até na Colômbia e no Brasil — Foto: Federico Parra/AFP 14 de 20 As cenas em Caracas eram de destruição e pânico — Foto: Federico Parra/AFP X de 20 Publicidade 15 de 20 Pessoas do lado de fora gritavam os nomes de seus parentes, e alguns voluntários escalavam os escombros — Foto: Federico Parra/AFP 16 de 20 Diversas áreas ficaram sem energia elétrica. Muitas ruas estavam cobertas de cacos de vidro — Foto: Manaure Quintero/AFP X de 20 Publicidade 17 de 20 Pessoas que evacuaram prédios em Caracas esperaram mais de uma hora antes de retornar — Foto: Manaure Quintero/AFP 18 de 20 Prédios desabaram em diferentes partes de Caracas — Foto: Manaure Quintero/AFP X de 20 Publicidade 19 de 20 Terremotos causaram destruição na Venezuela — Foto: AFP 20 de 20 Terremotos na Venezuela: país registra 10 réplicas após abalos que deixaram ao menos 32 mortos — Foto: AFP X de 20 Publicidade Prédios desabaram em diferentes partes de Caracas Oposição denuncia "graves fragilidades" do Estado A principal coalizão de oposição do país, a Plataforma Unitária Democrática (PUD), afirmou, nesta quarta-feira, que os terremotos expuseram as "graves fragilidades" do governo venezuelano para responder a uma tragédia dessa proporção. “Esta tragédia também deixou em evidência as graves fragilidades do Estado para responder a uma emergência dessa magnitude, consequência de anos de deterioração institucional que hoje são pagos pelos venezuelanos”, afirmou a PUD em sua conta na rede X. O grupo também se colocou à disposição para colaborar nos esforços de assistência às vítimas. “Aos que hoje sofrem a perda de um ente querido, de sua casa ou de sua tranquilidade, reiteramos que não estão sozinhos. A Venezuela voltará a se reerguer com a solidariedade de seu povo e com instituições capazes de proteger a vida de todos”, declarou a coalizão. As críticas da oposição acontecem em um momento de incerteza sobre o retorno à Venezuela da líder opositora María Corina Machado. Ela trabalha para voltar ao país após deixar o território venezuelano no fim do ano passado, mas enfrenta obstáculos logísticos e preocupações de aliados internacionais com o risco de aumento da tensão política durante a crise provocada pelos terremotos. De acordo com a Bloomberg, aliados da opositora foram informados por integrantes do governo americano de que uma eventual viagem ocorreria sem apoio dos Estados Unidos. Opositores venezuelanos exilados nos EUA também reforçaram as críticas ao governo. Em coletiva de imprensa realizada em Doral, na Flórida, o presidente da organização Veppex, José Antonio Colina, pediu que a eventual reconstrução do país após os terremotos não fique sob responsabilidade da presidente interina Delcy Rodríguez, do presidente da Assembleia Nacional, Jorge Rodríguez, e do ministro do Interior, Diosdado Cabello. Colina acusou o governo de conduzir de forma "ineficiente" a resposta à tragédia e afirmou que as Forças Armadas estiveram ausentes nas primeiras 48 horas após os tremores. — Não se pode premiar a corrupção, não se pode premiar a brutalidade, não se pode premiar a ineficiência — declarou. A presidente da ONG de apoio a migrantes Amavex, Helene Villalonga, afirmou ter recebido “denúncias preocupantes” sobre irregularidades na distribuição de ajuda humanitária e sobre “supostas falhas graves, ineficiências e negligências” do Estado nos trabalhos de recuperação e identificação das vítimas fatais. Insegurança em abrigos improvisados Enquanto forças de segurança tentam conter os saques nas áreas atingidas pelos terremotos, milhares de sobreviventes enfrentam dificuldades nos abrigos improvisados montados em La Guaira. Segundo o governo venezuelano, quase 16 mil pessoas ficaram desabrigadas após os tremores. As autoridades também afirmam que 80.870 famílias já receberam algum tipo de assistência e que mais de 15 mil voluntários se cadastraram para atuar nas operações de resgate. Moradores procuram roupas em um centro de coleta em Caraballeda, no estado de La Guaira, Venezuela, em 1º de julho de 2026, após os dois terremotos ocorridos em 24 de junho — Foto: JUAN BARRETO / AFP No ginásio José María Vargas, em Catia La Mar, que abriga cerca de 1.700 pessoas, moradores relatam falta de organização na distribuição de alimentos e insegurança durante a noite. A vendedora Daniela Armas, de 18 anos, afirmou que ela e o namorado se revezam para dormir e proteger os poucos pertences que conseguiram resgatar dos escombros. — Ontem saíram no tapa, tudo aqui é uma loucura, por isso é melhor evitar problemas — relata. Outros desabrigados também reclamam das condições do local. Yohana Álvarez, de 45 anos, afirmou que a situação se deteriorou após os primeiros dias da emergência. — No começo estava tudo muito bem, mas depois começou uma desorganização. Primeiro os próprios militares pegavam as coisas e depois sobrava o resto para nós — conta. A chefe da missão da Organização Internacional para as Migrações (OIM) na Venezuela, Lia Poggio, classificou a situação em La Guaira como "bastante crítica" e afirmou que a prioridade é garantir assistência digna à população afetada. Segundo o governo venezuelano, 6.461 pessoas foram resgatadas desde os terremotos de 24 de junho, que deixaram ao menos 2.295 mortos e mais de 11 mil feridos. O balanço oficial aponta ainda que 855 edifícios sofreram danos, dos quais 189 desabaram completamente. Uma avaliação preliminar do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD) estima os prejuízos em cerca de US$ 6,7 bilhões (R$ 34,75 bilhões no câmbio atual). (Com AFP)
Prisão de policiais por roubo em área devastada por terremoto amplia pressão sobre governo da Venezuela
Agentes do Cicpc foram flagrados com dinheiro retirado dos escombros em La Guaira; oposição denuncia falhas na resposta à tragédia, enquanto desabrigados relatam insegurança em abrigos improvisados










