País ocupa o 19º lugar no ranking mundial de pessoas com mais de US$ 1 milhão, mas é o quarto em desigualdade Chilov: “O número que precisa ser olhado é quantas pessoas estão saindo de uma faixa mais baixa para uma mais alta” — Foto: Gabriel Reis/Valor O Brasil ganhou 9.215 milionários em dólar no ano passado, elevando para 386 mil o número de pessoas com patrimônio superior a US$ 1 milhão no país, segundo o Global Wealth Report 2026, pesquisa anual do UBS, enviada com exclusividade ao Valor. Com isso, ocupa a 19ª posição no ranking mundial de milionários. No entanto, segue entre os mercados com maior concentração de riqueza e está na quarta posição do ranking global de desigualdade patrimonial. Na América Latina, o Brasil permanece na liderança em número de milionários, à frente do México, que está em segundo lugar na região com 333 mil milionários. O avanço ocorreu em um ano de forte aceleração do crescimento das fortunas. Em 2025, o avanço ocorreu pelo terceiro ano consecutivo, com expansão de 10,8% da riqueza pessoal medida em dólares - mais que o dobro do ritmo registrado em 2023 e 2024. Nesse período, quase 1 milhão de pessoas passaram a integrar o grupo de milionários no mundo. Segundo o chefe de Global Wealth Management para a América Latina do UBS, Marcello Chilov, o resultado reflete a valorização dos mercados financeiros e dos ativos reais, além de um dólar mais fraco no período. O executivo também destaca o papel da inovação e da tecnologia na geração de riqueza, sobretudo nos Estados Unidos. A riqueza financeira, a riqueza não financeira - sobretudo imóveis - e a dívida avançaram em relação ao ano anterior. Os ativos não financeiros cresceram pela primeira vez desde 2023. O levantamento mostra que o dólar mais fraco ajudou a ampliar os ganhos em todas as sub-regiões monitoradas pelo estudo. A riqueza média em dólares cresceu cerca de 1,6% no Sudeste Asiático, quase 4,6% na Grande China (China continental, Hong Kong e Taiwan), aproximadamente 8,8% na América do Norte e quase 17% na Europa Ocidental. Na Europa Oriental, o avanço chegou a 28%. Pela primeira vez, os 56 mercados analisados registraram aumento no número de milionários Para Chilov, parte desse desempenho reflete justamente o efeito cambial sobre a riqueza medida em dólares. Segundo ele, a valorização de moedas como o euro e o franco suíço frente ao dólar acabou ampliando o patrimônio quando convertido para a divisa americana. A expansão das fortunas foi disseminada. Pela primeira vez desde o início da série histórica do UBS, os 56 mercados analisados registraram aumento no número de milionários. No total, a população mundial de milionários cresceu 1,5%, o equivalente à criação de quase 1 milhão de novos milionários - cerca de 2.680 por dia. Esses mercados representam 92% da riqueza global. Os Estados Unidos lideraram o movimento, com 441.078 novos milionários em apenas um ano - mais de 1,2 mil por dia -, respondendo por cerca de 40% do crescimento global. Reino Unido, França, Espanha, Japão e Índia também registraram aumentos expressivos. Ao fim do ano passado, o mundo reunia cerca de 57,5 milhões de milionários, dos quais 23,6 milhões viviam nos Estados Unidos. A expansão das grandes fortunas no Brasil acompanha essa tendência. O país reúne cerca de 43 mil pessoas com patrimônio entre US$ 5 milhões e US$ 100 milhões. Por outro lado, o enriquecimento não alterou o quadro de elevada concentração patrimonial no país. Segundo o UBS, o Brasil permanece como o quarto mercado com maior desigualdade entre os 56 analisados, atrás apenas de Emirados Árabes Unidos, Rússia e África do Sul, indicando que a expansão da riqueza continua distribuída de forma desigual entre a população. Na avaliação de Chilov, o indicador mais relevante, no entanto, do estudo vai além da quantidade de milionários. “O número que precisa ser olhado é quantas pessoas estão saindo de uma faixa de patrimônio mais baixa para uma faixa de patrimônio mais alta”, afirma. Para o executivo, essa mobilidade reflete fatores como empreendedorismo, inovação, desenvolvimento tecnológico e crescimento econômico. Os dados do UBS mostram que, em 2025, apenas 1,5% dos adultos têm patrimônio superior a US$ 1 milhão, enquanto a participação daqueles com menos de US$ 10 mil continua diminuindo. Ao mesmo tempo, as faixas intermediárias de riqueza vêm se expandindo, refletindo uma migração gradual de pessoas para níveis mais elevados de patrimônio. Segundo o UBS, mantida a expansão das faixas intermediárias, a tradicional pirâmide global da riqueza poderá perder esse formato antes do fim da década. Para Chilov, apesar dos juros elevados, da inflação resistente e das incertezas fiscais, o Brasil continua demonstrando capacidade de gerar riqueza. Na avaliação do executivo, a América Latina atravessa um momento favorável, sustentado por vantagens competitivas em áreas como agronegócio, energia, minerais estratégicos para a transição energética, infraestrutura e pelo tamanho do mercado consumidor. Ele também destaca a resiliência das empresas brasileiras para operar em ambientes econômicos adversos. Na avaliação de Chilov, o Brasil e a América Latina reúnem características que podem ampliar o interesse de investidores estrangeiros nos próximos anos. O executivo cita a força do agronegócio, da produção de energia e dos minerais estratégicos para a transição energética, além da necessidade de investimentos em infraestrutura e do tamanho do mercado consumidor. Segundo ele, esses fatores, combinados à resiliência demonstrada pelas empresas brasileiras em cenários econômicos adversos, criam condições para atrair mais capital, impulsionar novos negócios e contribuir para a geração de riqueza no longo prazo.