Criminosos usam IA e engenharia social para sofisticar golpes que exploram desde a Copa do Mundo até grandes marcas do comércio eletrônico Em plena Copa do Mundo de 2026, criminosos digitais exploram o entusiasmo dos torcedores para ampliar fraudes on-line. Levantamento da Kaspersky identificou 164 domínios fraudulentos entre abril e maio - 139 deles apenas em maio com uso da palavra “Panini” - em páginas que imitam marcas conhecidas e oferecem ingressos, figurinhas e hospedagens a preços abaixo do mercado. O movimento evidencia um padrão que assombra o varejo brasileiro: o uso de inteligência artificial e engenharia social para tornar as fraudes digitais mais convincentes. Para Rafael Costa Abreu, diretor de fraude e identidade para a América Latina da LexisNexis Risk Solutions, o varejo não é necessariamente o elo mais vulnerável da cadeia digital, mas o destino final da maior parte das fraudes financeiras. “O fraudador quer monetizar o resultado da fraude. Ele rouba um cartão de crédito ou uma conta para comprar uma televisão, um celular, uma passagem aérea”, diz. Segundo Abreu, a disseminação da IA reduziu as barreiras aos crimes digitais. Ferramentas capazes de produzir sites falsos, campanhas de phishing e vídeos manipulados tornam os ataques mais baratos, rápidos e persuasivos. Um dos casos mais emblemáticos ocorreu com a Havan. No fim de 2023, a imagem e a voz do empresário Luciano Hang foram reproduzidas por IA em anúncios falsos com promoções irreais e campanhas inexistentes. “Os golpistas usam inteligência artificial para clonar minha voz e criar vídeos falsos anunciando promoções absurdas e falsas campanhas de doação. O pior foi usar vídeos meus para dizer que a Havan estava vendendo produtos a 10% do valor e que o dinheiro iria para vítimas das enchentes no Rio Grande do Sul. Isso foi cruel, porque além de lesar clientes, explorou uma tragédia real”, afirma Hang. A varejista reforçou o alerta aos clientes e acionou a Justiça contra plataformas digitais que hospedavam os anúncios. Segundo Hang, decisões determinaram que Meta e Google removam conteúdos que usam indevidamente a marca e sua imagem. Ainda assim, ele afirma que os golpes continuam circulando. “Às vezes parece que estamos enxugando gelo. Ainda recebemos denúncias de anúncios falsos com minha imagem. Mas essas decisões criam precedentes importantes para todo o varejo”, diz. Em sua avaliação, a sofisticação dos golpes exige maior responsabilização das plataformas. “Não é possível que empresas continuem lucrando com anúncios sem verificar quem está anunciando.” Golpes de engenharia social exigem respostas além da tecnologia” Maurício Salvador, presidente do conselho da Associação Brasileira de Inteligência Artificial e E-commerce (Abiacom), considera que as fraudes sempre foram um grande desafio para o e-commerce. “É uma corrida de gato e rato: fraudadores tentam se antecipar enquanto empresas de segurança, varejistas e instituições financeiras correm para acompanhar”, diz. O avanço da IA ampliou essa disputa. Se por um lado, a tecnologia ajuda a identificar padrões suspeitos, por outro, facilita a clonagem de vozes e imagens e torna os golpes mais convincentes. Salvador avalia que o desafio será reforçar a proteção sem comprometer a experiência de compra. “As lojas precisam criar barreiras, mas o consumidor não pode desistir de uma compra por excesso de etapas.” Na linha de frente do combate às fraudes digitais, Fabiana Saenz, diretora de inteligência antifraude do Mercado Pago e do Mercado Livre, afirma que os ataques hoje exploram principalmente o comportamento humano. Por isso, defende que o usuário bem informado é uma das principais camadas de proteção. “Golpes de engenharia social e uso indevido de identidade exigem respostas além da tecnologia, combinando monitoramento em tempo real, educação do usuário e cooperação com autoridades”, afirma. A empresa usa modelos de IA e machine learning capazes de analisar mais de 5 mil variáveis por transação em menos de um segundo, identificando padrões anômalos e bloqueando ameaças em tempo real. Entre 2024 e 2025, 46 milhões de usuários passaram pela validação de identidade do Mercado Livre, e 5,4 milhões foram barrados por suspeita de fraude. “A principal mudança não é o tipo de ameaça, mas sua organização. Antes eram ações isoladas. Hoje, são operações estruturadas, com divisão de papéis e atuação simultânea em múltiplos canais”, explica. A empresa também mantém cooperação com autoridades. No segundo semestre de 2025, respondeu a 412.620 solicitações na América Latina, alta de 7,4%.
Varejo trava corrida de ‘gato e rato’ contra fraudes digitais
Criminosos usam IA e engenharia social para sofisticar golpes que exploram desde a Copa do Mundo até grandes marcas do comércio eletrônico







