Detran-SP apresenta Plano de Segurança Viária com o objetivo de reduzir em 50% os óbitos nas vias paulistanas até 2030 O documento busca redefinir a divisão de responsabilidades para construir um ambiente viário mais seguro — Foto: Getty Images Durante décadas, mortes durante deslocamentos foram tratadas como “acidentes" e, portanto, consequência inevitável da circulação de veículos e das dinâmicas próprias do tráfego. O Plano de Segurança Viária do Estado de São Paulo, contudo, parte da premissa oposta ao considerar que nenhuma perda de vida é aceitável. Conhecido como Visão Zero, esse princípio, criado na Suécia na década de 1990, rejeita a ideia de que esses óbitos sejam fatalidades imprevisíveis e sustenta que podem ser evitados. Apesar do crescimento da frota, o número de vítimas fatais nas estradas caiu de forma contínua desde a adoção da política, tornando o país escandinavo referência mundial em segurança viária. No Brasil, essa abordagem vem se refletindo também na linguagem, com uma alteração de nomenclatura incorporada ao Código de Trânsito, que o plano paulista adota. Ao substituir "acidente" pelo termo "sinistro de trânsito", evidencia-se que esses eventos podem ser prevenidos não apenas por meio de comportamentos mais responsáveis dos cidadãos, mas também com melhores escolhas de desenho, gestão e fiscalização da mobilidade. A mudança de paradigma parte do reconhecimento de que falhas humanas acontecem, seja por distração, fadiga, excesso de confiança ou erro de julgamento. Portanto, em vez de esperar um comportamento perfeito das pessoas, a infraestrutura viária deve ser planejada para minimizar riscos. Essa metodologia é conhecida como Sistema Seguro e exige que o ambiente urbano e rodoviário seja projetado para que esses erros não custem vidas. Na prática, isso significa ruas e rodovias desenhadas para reduzir conflitos entre os diferentes usuários, velocidades compatíveis com a capacidade de sobrevivência do corpo humano, veículos mais seguros, fiscalização orientada por tecnologia e atendimento rápido às vítimas. As ações previstas envolvem uma estrutura integrada que articula diferentes órgãos estaduais e especialistas. A combinação do Visão Zero e do Sistema Seguro no Plano de Segurança Viária do Estado de São Paulo promove a ideia de que a responsabilidade pela segurança no trânsito deve ser compartilhada entre todos os atores, a fim de reduzir a gravidade dos sinistros. Logo, o sistema deve ser concebido para que falhas humanas não se convertam em mortes ou lesões graves. O plano, assim, busca redefinir a divisão de responsabilidades para construir um ambiente viário mais seguro. Por um lado, reconhece a importância do comportamento individual, como respeitar os limites de velocidade, evitar o uso do celular ao volante, não dirigir após consumir álcool e utilizar equipamentos de segurança. Por outro, estabelece que o dever de garantir a segurança do sistema cabe ao poder público e aos agentes encarregados do planejamento, da operação e da fiscalização da mobilidade. A partir dessas diretrizes, o plano busca reduzir em 50% as mortes no trânsito até 2030 e consolidar, até 2035, uma política permanente de segurança viária no estado. A estratégia combina investimentos em infraestrutura, tecnologia, fiscalização, educação e atendimento às vítimas, alinhando-se às metas da Segunda Década de Ação pela Segurança no Trânsito da ONU e ao Plano Nacional de Redução de Mortes e Lesões no Trânsito, o Pnatrans. Gestão de dados A tecnologia ocupa papel central na estratégia. De forma estrutural, o Plano se baseia em uma análise criteriosa de dados, o que permite identificar áreas críticas, direcionar investimentos e monitorar continuamente os resultados das políticas públicas. Para compreender a dinâmica dos sinistros de trânsito no estado, por exemplo, foram utilizados os registros do Infosiga, sistema que reúne informações estatísticas de diversos órgãos públicos e integra o processo de transformação digital do Detran-SP. Segundo as projeções, caso a tendência atual seja mantida, a taxa de mortalidade poderá voltar a crescer nos próximos anos. Com a implementação das medidas previstas no documento, entretanto, a expectativa é reduzir o indicador de 13,41 para 5,68 óbitos por 100 mil habitantes até 2030, preservando aproximadamente 19 mil vidas ao longo do período. Além do impacto humano, a redução dos sinistros tende a aliviar a pressão sobre o sistema de saúde, diminuir custos previdenciários, reduzir perdas de produtividade e melhorar a qualidade de vida nas cidades. Mudança de cultura no trânsito O plano prevê uma série de iniciativas que busca transformar a relação da população com o trânsito e com o ecossistema viário como um todo. Organizado em 8 eixos estratégicos, destacam-se o de vias seguras, que prevê uma infraestrutura capaz de antecipar e mitigar erros humanos; o de educação, para a formação de uma nova cultura de trânsito; e o de atendimento às vítimas, com maior agilidade pós-sinistro para reduzir sequelas. A implementação foi dividida em três etapas. Até 2027, o foco será consolidar a governança, estruturar projetos-piloto e executar ações prioritárias. Em seguida, entre 2028 e 2030, pretende-se ampliar as iniciativas em larga escala para atingir a meta de redução de 50% das mortes. A fase de longo prazo, até 2035, busca tornar São Paulo referência nacional e internacional em segurança viária. A proposta do Plano de Segurança Viária é substituir o caráter reativo da cultura de trânsito tradicional por uma política permanente de prevenção dos sinistros, colocando a preservação da vida como prioridade das políticas públicas de mobilidade. A meta é transformar ruas e rodovias em espaços seguros, inclusivos e sustentáveis.
E se nenhuma morte no trânsito fosse aceitável?
Detran-SP apresenta Plano de Segurança Viária com o objetivo de reduzir em 50% os óbitos nas vias paulistanas até 2030






