Tradicionalmente, quando o assunto é pênalti, a pressão costuma recair muito mais sobre o cobrador do que sobre o goleiro, já que a vantagem estatística favorece quem bate. Mas isso não significa que os goleiros sejam impotentes, nem que suas defesas dependam apenas de sorte ao escolher o lado certo. Defender pênaltis é uma habilidade especializada, e alguns transformaram isso em uma verdadeira arte. Outros construíram toda uma reputação em torno dela. Uma maneira de analisar os maiores especialistas nessa área fazer isso é observar o percentual de defesas em pênaltis, critério que utilizei nesta análise. Os 145 goleiros inscritos na Copa (o Egito levou quatro) enfrentaram, somados, 4.976 cobranças de pênalti durante o tempo regulamentar e defenderam, em média, 17,2% delas. Vale lembrar que os números não foram o único critério. Também levei em conta o desempenho em situações de alta pressão, disputas por pênaltis e o nível das competições enfrentadas. Também considerei a técnica de defesa de cada goleiro e a maneira como interagem com o cobrador durante o duelo, para avaliar o quanto seus bons desempenhos são resultado de estratégia e podem ser reproduzidos. Esta lista não se limita aos prováveis titulares. Há alguns reservas, o que abre a possibilidade de um cenário semelhante ao protagonizado por Tim Krul em 2014, quando um treinador coloca um goleiro especificamente para uma disputa de pênaltis. Um detalhe importante sobre o termo "defesa" e o percentual de pênaltis defendidos: agrupei todos os casos em que a cobrança não terminou em gol, incluindo bolas para fora e chutes na trave. Isso ocorre, em parte, porque as estatísticas que separam precisamente erros do cobrador e defesas do goleiro são menos acessíveis e confiáveis. Além disso, embora não seja exatamente uma defesa, considero que o goleiro merece crédito por vencer o duelo quando consegue induzir o cobrador a errar o alvo. Com isso em mente, estes são os melhores goleiros em defender pênaltis na Copa do Mundo de 2026. 10. Joseph Anang (Gana) Este é o goleiro reserva de Gana. Atualmente joga pelo St Patrick's Athletic, da Irlanda. Sua presença na lista pode parecer surpreendente, mas há dois motivos para isso. O primeiro são os números: somando cobranças durante o jogo e disputas por pênaltis, Anang enfrentou 32 cobranças na carreira e evitou 12 gols, um aproveitamento de 37,5%, índice altíssimo — ainda que baseado em uma amostra pequena, na qual a sorte também pode ter desempenhado algum papel. Ele também participou de três disputas por pênaltis e venceu duas. Anang é um goleiro pouco convencional. Ele não passa a imagem típica de um "especialista em pênaltis". É discreto, fala pouco e faz pequenas ações para desestabilizar o cobrador. Também é inteligente na maneira como consegue atrasar o reinício da cobrança sem chamar atenção do árbitro. Já o vi, por exemplo, iniciar uma conversa com o árbitro assistente durante uma disputa por pênaltis. Também costuma criar pequenos incômodos para o cobrador, como permanecer encostado na trave quando o adversário inicia a corrida para a bola ou simplesmente deixar a bola no chão quando poderia entregá-la ao batedor. São comportamentos sutis, quase imperceptíveis em meio à tensão do momento, mas que parecem suficientes para gerar algum efeito. Ele é realmente o décimo melhor goleiro do mundo em defender pênaltis? Não tenho certeza. Mas, pelos excelentes números — mesmo reconhecendo que a amostra é pequena — e pelos detalhes inteligentes de seu comportamento, merece entrar na lista. Tenho muita curiosidade para ver do que seria capaz caso seja chamado para decidir uma disputa nesta Copa. 9. Senne Lammens (Bélgica) O goleiro reserva da Bélgica aparece nesta lista mais pelo potencial do que pelo histórico, já que enfrentou apenas 16 cobranças de pênalti e não encontrei registros de disputas por pênaltis em sua carreira. Ainda assim, defendeu seis dessas 16 cobranças (37,5%), e tanto sua técnica quanto sua postura são muito promissoras. Lammens tenta enganar o adversário e adapta sua estratégia de acordo com o estilo do cobrador. Um exemplo aconteceu diante de Raúl Jiménez. Noventa e cinco por cento dos goleiros seriam enganados pelo atacante mexicano, mas isso não aconteceu quando Manchester United e Fulham se enfrentaram na temporada passada. Lammens executou um inteligente "duplo blefe" durante a corrida de Jiménez, moveu-se para o lado correto e esteve muito perto de defender a cobrança. epois houve um momento interessante entre os dois, que claramente reconheceram a qualidade um do outro após o lance — como se um especialista reconhecesse outro. O titular da Bélgica, Thibaut Courtois, possui muito mais experiência, tendo enfrentado 91 pênaltis, mas seu índice de defesas (20,9%) é apenas um pouco superior à média. 8. Dominik Livakovic (Croácia) Livakovic comemora após a Croácia eliminar o Brasil nos pênaltis na Copa de 2022. Seus números, somando pênaltis no tempo regulamentar e disputas por pênaltis, são 28 defesas em 99 cobranças, um aproveitamento de 28,2%. O que mais impressiona, porém, é o desempenho em decisões: Livakovic participou de sete disputas por pênaltis e venceu quatro, incluindo duas na última Copa do Mundo. O recorde de quatro defesas em disputas de pênaltis de Copa do Mundo — com destaque para as três contra o Japão — garante sua presença nesta lista. Em entrevista ao The Athletic, Livakovic se mostrou um especialista calmo e meticuloso, que estuda os adversários antes do jogo e até enquanto eles caminham em sua direção para cobrar. Ele chegou a defender a primeira cobrança de Harry Kane na estreia da Croácia nesta Copa, mas o lance foi repetido por invasão de área. 7. Diogo Costa (Portugal) Outro goleiro com excelentes números: 17 defesas em 59 pênaltis, um índice de 28,8%. Diogo Costa é um exemplo de goleiro que adapta completamente sua abordagem ao estilo do cobrador. Ele age de forma muito diferente contra jogadores que dependem da reação do goleiro e contra aqueles que já escolhem o canto independentemente do movimento do adversário. Essa versatilidade apareceu em disputas de alto nível, como a final da Liga das Nações de 2025 e a Eurocopa de 2024, quando defendeu três cobranças da Eslovênia. Entra com folga no top 10. 6. Unai Simón (Espanha) A situação da Espanha é curiosa: talvez o melhor goleiro da temporada 2025-26 nem seja o titular da seleção. Ainda assim, Unai Simón tem histórico melhor em pênaltis do que David Raya. Ele enfrentou 71 cobranças e evitou 19 gols, um aproveitamento de 26,8%. Participou de sete disputas e venceu quatro. Há algo de muito sólido em Simón nesses momentos. Assim como Livakovic, ele transmite humildade e calma. Não faz muitos jogos mentais, não provoca os adversários e está no extremo oposto de Emiliano Martínez nesse aspecto. Mas faz o trabalho muito bem. Cobradores que dependem da reação do goleiro costumam sofrer contra ele, especialmente por causa de um pequeno movimento de engano que Simón executa antes do chute. 5. Dean Henderson (Inglaterra) Jordan Pickford tem enorme experiência em disputas importantes pela Inglaterra, mas seus números são apenas ligeiramente acima da média: 17,9% de pênaltis defendidos. Já Henderson apresenta estatísticas impressionantes: 15 cobranças defendidas em 46, um índice de 32,6%. Participou de três disputas e venceu duas. O goleiro do Crystal Palace mostrou na Premier League que consegue competir no mais alto nível. Uma defesa emblemática aconteceu contra Harry Kane, em 2022. Kane bateu forte e preciso no canto, mas Henderson começou o movimento muito cedo, quando o atacante ainda estava longe da bola. Isso lhe deu alcance suficiente para fazer uma defesa espetacular. 4. Mike Maignan (França) Maignan enfrentou 83 pênaltis e defendeu 23: 27,7% em uma amostra grande. Participou de três disputas por pênaltis e venceu todas. Além dos números, Maignan tem personalidade. Ele usa diferentes métodos de distração: começa fora do centro do gol, atrasa a cobrança deliberadamente e cria pequenas interações com o cobrador. Comparado à maioria dos goleiros desta lista, é um adversário menos previsível. Seus jogos mentais discretos podem ser uma arma poderosa em uma disputa de pênaltis de Copa do Mundo. 3. Nikola Vasilj (Bósnia e Herzegovina) O goleiro da Bósnia e do St. Pauli apresenta números excelentes: enfrentou 43 pênaltis e evitou 16 gols, um índice de 37,2%. Seu retrospecto na Bundesliga também chama atenção. Nas duas últimas temporadas, defendeu seis dos dez pênaltis cobrados contra ele. Além disso, participou de três disputas por pênaltis e venceu todas. Duas dessas classificações vieram justamente nos playoffs para esta Copa do Mundo, contra País de Gales e Itália, o que significa que chega ao Mundial embalado por experiências recentes e positivas em decisões. Será que ele poderá enfrentar os Estados Unidos em uma disputa por pênaltis nas oitavas de final? Vasilj é um verdadeiro especialista. Ele adapta sua técnica conforme o perfil do cobrador. Em alguns casos, se antecipa bastante, chegando a dar um passo inteiro para um dos lados antes mesmo do chute. Em outros, permanece parado no centro do gol para reagir a cobranças que dependem da movimentação do goleiro ou para defender cavadinhas, como a famosa Panenka. Mais do que os números, sua inteligência e agilidade garantem com folga um lugar nesta lista. 2. Yassine Bounou (Marrocos) Os números de Bounou são bem superiores à média, embora não sejam extraordinários: enfrentou 99 pênaltis e defendeu 26, um aproveitamento de 25,3%. O grande diferencial aparece nas disputas por pênaltis. Ele participou de 11 decisões e venceu sete, algumas delas no mais alto nível, incluindo a campanha histórica de Marrocos na Copa do Mundo de 2022. Sua especialidade é enfrentar cobradores que esperam o movimento do goleiro antes de definir a batida. Bounou executa um movimento prévio extremamente fluido e difícil de interpretar. Ele parece iniciar um deslocamento, mas interrompe esse movimento no último instante. É, na prática, um "blefe do blefe". Esse recurso confunde os cobradores repetidamente. Quando se sabe o que observar, é fascinante vê-lo em ação. Ele é um verdadeiro "neutralizador" de especialistas em pênaltis. Bounou é um dos poucos goleiros que conseguiram defender uma cobrança de Raúl Jiménez. Depois de enfrentá-lo, Erling Haaland e Ivan Toney chegaram a modificar a maneira como cobram pênaltis. Para fazer alguns dos melhores cobradores do mundo questionarem sua própria técnica, é preciso ter algo de especial. 1. Emiliano Martínez (Argentina) Por onde começar? Martínez parece pertencer a outra categoria quando o assunto é disputa por pênaltis. Ele venceu as últimas seis disputas por pênaltis de que participou. Evidentemente, não fez isso sozinho, mas teve papel decisivo em todas elas. Em toda a carreira, perdeu apenas uma. Seus números gerais são muito bons, embora não espetaculares: 21 defesas em 74 cobranças, um aproveitamento de 28,3%. Mas ele ocupa o primeiro lugar desta lista principalmente por causa de sua atuação nas disputas por pênaltis, especialmente na final da Copa do Mundo de 2022. Qual é o segredo? Martínez assume o controle absoluto da situação. Ele dita o ritmo de tudo e faz com que todos ao seu redor reajam ao que ele faz. Nada parece improvisado. Tudo é cuidadosamente planejado, deliberado e extremamente criativo. Ele inicia a disputa cumprimentando os adversários, sorrindo e conversando. Faz com que todos — principalmente o árbitro — relaxem e baixem a guarda. Quando percebe que o ambiente ficou mais descontraído, começa a aumentar gradualmente o nível de perturbação. São gestos, provocações verbais, confrontos e até manipulações físicas. Tudo é calculado para levar a arbitragem ao limite, sem receber um cartão amarelo cedo demais. Na final da Copa de 2022, quando Kylian Mbappé foi cobrar seu segundo pênalti (ainda na prorrogação), Martínez tentou tirar a bola da marca do pênalti. Conseguiu escapar da punição porque é extremamente atento ao que cada pessoa ao redor está observando. Na disputa por pênaltis, jogou a bola para longe antes da cobrança de Aurélien Tchouaméni e voltou a provocar Randal Kolo Muani antes da batida. Há desrespeito, volatilidade e manipulação. Mas seu sucesso não se resume aos jogos mentais. Martínez também é um excelente defensor de pênaltis. Ele parece ter sido feito para grandes disputas desse tipo.É provocador — e, muitas vezes, irritante. Mas é impossível não admirar sua capacidade de decidir partidas nesse contexto. *Geir Jordet é um dos maiores especialistas do mundo em cobranças de pênalti e autor do livro Pressure, sobre a psicologia das disputas por pênaltis. Professor e pesquisador da Escola Norueguesa de Ciências do Esporte, ele integra a cobertura da Copa do Mundo do The Athletic.
Ranking elenca os 10 melhores goleiros na defesa de pênaltis na Copa do Mundo; Alisson fica fora
Lista inclui nomes como Joseph Anang, de Gana, o inglês Dean Henderson e o argentino Emiliano Martínez









