Berço dos milicianos, segunda maior favela do país está na mira do Comando Vermelho, que busca dominar a região 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 Guerra entre tráfico e milicia em Rio das Pedras apavoram moradores — Foto: Custódio Coimbra RESUMO Sem tempo? Ferramenta de IA resume para você GERADO EM: 28/06/2026 - 22:25 Confronto entre Milícia e CV Escala com Drones em Rio das Pedras Rio das Pedras, segunda maior favela do Brasil, tornou-se palco de confronto entre a milícia e o Comando Vermelho (CV), com uso de drones armados. Desde junho, o CV intensifica ataques, após deserção de paramilitares para a facção. A milícia, ameaçada, busca apoio do Terceiro Comando Puro (TCP). A violência afeta moradores, que vivem sob tiroteios e extorsões. A região é alvo de planos de reocupação do governo. CLIQUE E LEIA AQUI O RESUMO Segunda maior favela do país em número de domicílios, com 23.846 residências, de acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), Rio das Pedras, no Itanhangá, na Zona Sudoeste do Rio, tornou-se conhecida como o berço da milícia no Rio. Naquela região, na década de 1980, a atuação organizada de grupos de extermínio começou a chamar a atenção. Nos anos 2000, o movimento, criado sob a justificativa de dar segurança ao comércio e aos moradores, ganhou a forma de grupos militares que, hoje, agem como as quadrilhas criminosas que alegavam combater. Introduziram a cultura da cobrança de taxas de segurança e a exploração de negócios irregulares, como a venda de sinal de internet, ideias que inspiraram outras milícias no estado e, hoje, são adotadas até pelas facções criminosas rivais. Há quase duas semanas, o grupo miliciano luta para evitar que o território onde nasceu caia nas mãos de inimigos. Bomba com drone Desde 18 de junho, bandidos do Comando Vermelho (CV) vêm intensificando tentativas de invasão aos territórios dominados pela milícia em Rio das Pedras. Naquele dia, Kauan de Oliveira Teles e outros oito paramilitares deixaram a milícia e passaram para o lado da facção. O efeito foi imediato. A violência aumentou e forçou os moradores a conviverem com uma rotina de tiroteios. Uma semana depois, no último dia 24, um drone foi usado no lançamento de um artefato explosivo sobre a comunidade. Uma casa foi atingida. “Às 3h13 da madrugada jogaram uma granada sobre a minha casa, no Areal, em Rio das Pedras. Graças a Deus ninguém se feriu. Até quando moradores inocentes vão sofrer com essa violência?”, indagou uma moradora nas redes sociais. Segundo investigações, traficantes do CV escondidos na localidade conhecida como Caranguejo, já dentro de Rio das Pedras, estariam recebendo apoio de outros bandidos vindos da Gardênia Azul e da Cidade de Deus, ambas em Jacarepaguá, e do Morro do Banco e da Muzema, no Itanhangá. A tomada dos territórios da milícia teria sido ordenada por integrantes da cúpula da facção, entre eles Edgar Alves de Andrade, o Doca. Dois motivos explicam o interesse do CV pela favela. O primeiro é o desejo de formar uma espécie de cinturão de domínio na região, onde hoje apenas Rio das Pedras continua nas mãos de milicianos. A comunidade fica entre a Barra da Tijuca e a Cidade de Deus, em Jacarepaguá. O segundo é relacionado ao dinheiro obtido com as extorsões. Estimativas da polícia apontam que, no berço da milícia, os paramilitares arrecadem cerca de R$ 2 milhões por mês com negócios como venda clandestina de sinais de TV a cabo e internet, além de taxas de segurança. O território em disputa — Foto: Editoria Arte No mesmo dia 24, uma operação da Delegacia de Repressão às Ações Criminosas Organizadas e de Inquéritos Especiais (Draco-IE) revelou que milicianos de Rio das Pedras, do Catonho, e da Taquara, em Jacarepaguá, além do Catiri, em Bangu, buscaram apoio de bandidos do Terceiro Comando Puro (TCP) para aumentar o poder bélico e evitar as invasões do CV. — Em algumas dessas localidades, o TCP recebeu o aval para vender drogas. E, em outras, para explorar a cobrança de taxas em conjunto com a milícia— explica o delegado Jefferson Ferreira, da Draco. Durante a operação, os policiais encontraram uma tabela de valores cobrados semanalmente por milicianos em Jacarepaguá. Uma casa de material de construção, por exemplo, pagava R$ 100. A polícia também encontrou provas da união entre milícia e o TCP. Uma delas é um fuzil apreendido no Catiri. A arma encontrada com um miliciano, em fevereiro, tinha na coronha a inscrição “Tropa do Montanha 5.3”. Montanha é o apelido de um paramilitar oriundo de Rio das Pedras. Já os dois números seriam, segundo a polícia, símbolo da aliança entre os dois grupos criminosos. O primeiro identifica a milícia (5.5), enquanto o “3” faz referência ao TCP. Rotina de guerra Instalada há mais de 20 anos em Rio das Pedras, uma testemunha conta que, por causa dos tiroteios, moradores do Areal, da Areinha e do Caranguejo estão voltando mais cedo para casa. Segundo ele, bares que ficavam abertos até a madrugada passaram a fechar por volta das 21h. — Essa área é brava. É onde acontecem os tiroteios. É uma área que quase não tem asfalto. E, agora, ainda tem essa violência toda. Se as pessoas tivessem condições de morar em outro lugar, sairiam de lá — diz ele. Ainda de acordo com o morador, devido à guerra, milicianos interromperam temporariamente a cobrança das taxas e pararam de circular ostentando fuzis. — Mas não tenho dúvida que, se a guerra acabar e a milícia vencer, vão voltar a fazer o que faziam antes. E cobrar os atrasados — desabafa. O professor e pesquisador José Cláudio Souza Alves, do Departamento de Ciências Sociais da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro, confirma que o enfraquecimento das milícias na região, como no resto do Rio, tem relação com o avanço do CV. — Primeiro, o CV acumulou dinheiro, com o objetivo de retomar territórios. A facção foi percebendo que, a partir principalmente da política das Unidades de Polícia Pacificadoras (UPPs), as milícias estavam num processo de tomada de territórios muito avançado e muito rápido, sempre com base na estrutura de segurança pública estatal — afirma ele. Segundo Alves, o CV se valeu ainda de disputas internas: — Após a expansão, as milícias entraram numa fase de fragmentação. Mesmo as com estruturas enormes, baseadas em acordos. Esses acordos não se sustentaram a partir do assassinato de chefes — explica o pesquisador. Rio das Pedras era o nome de um córrego que cortava a região de Jacarepaguá, vizinha à Lagoa da Tijuca. A ocupação desordenada começou no final da década de 1960, com a chegada de migrantes nordestinos em busca de trabalho na Barra da Tijuca, em fase de expansão. Os próprios moradores fizeram aterros e construíram moradias. Nos anos 1980, um grupo paramilitar, conhecido como polícia mineira, passou a controlar o local, sustentado inicialmente por comerciantes, com o objetivo de impedir a ação de ladrões e o tráfico de drogas. Poder político O grupo ganhou poder territorial, bélico, financeiro e até político. Em 2007, Josinaldo Francisco da Cruz, o Nadinho, que era presidente da Associação de Moradores de Rio das Pedras, conseguiu se eleger vereador. Ligado à milícia, então chefiada pelo policial civil Félix Tostes, morto a tiros em julho de 2007, Nadinho também acabou sendo assassinado. O crime aconteceu quase dois anos depois da morte de Tostes, em junho de 2009, na Barra da Tijuca. Segundo a polícia, os dois crimes já estavam relacionados à disputa pela milícia local. Rio das Pedras é uma das três primeiras comunidades — as outras são Gardênia Azul e Muzema — incluídas no plano de reocupação territorial elaborado pelo Governo do Estado do Rio de Janeiro, em atendimento à determinação do Supremo Tribunal Federal (STF) no âmbito da ADPF 635 (ADPF das Favelas). O plano foi entregue ao STF em dezembro e aguarda homologação. A região foi escolhida por reunir os três principais grupos criminosos do Rio — CV, milícia e TCP —, por sua localização estratégica e por concentrar áreas de expansão urbana e econômica com alta densidade populacional.