Em meio a uma contenda pública com a ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro, o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) publicou na sexta-feira, em suas redes sociais, um vídeo com uma entrevista de Daniella Marques, ex-presidente da Caixa Econômica Federal, que, há duas semanas, aderiu à sua pré-campanha à Presidência. Braço-direito de Paulo Guedes quando ele comandava a economia no governo de Jair Bolsonaro, Daniella é uma aposta de parte do mercado e dos aliados de Flávio para assumir o Ministério da Fazenda (ou uma superpasta da Economia, como a do ex-ministro) em caso de vitória do senador sobre Lula, embora alguns integrantes da pré-campanha rechacem a ideia de que ela possa ser um novo “Posto Ipiranga”. O apelido foi dado em 2018 a Guedes por Bolsonaro para transferir a ele temas econômicos e angariar apoio de financistas e empresários. Agentes do poder e do mercado ouvidos pelo GLOBO reconhecem a capacidade executiva e de articulação de Daniella, mas levantam dúvidas sobre sua autoridade para formular políticas macroeconômicas. Formada em Administração pela PUC-Rio, com MBA em Finanças do Ibmec, ela tem duas décadas de carreira no setor financeiro. Na Faria Lima, é vista como competente e preparada. Quem a viu atuar em Brasília destaca a capacidade de coordenação. O presidente Jair Bolsonaro e o ministro da Economia, Paulo Guedes — Foto: Cristiano Mariz/Agência O Globo Recém-filiada ao Republicanos, Daniella passou a ter seu nome especulado entre caciques do Centrão até como possível vice na chapa de Flávio, que já disse querer uma mulher na posição, mas também indicou que poderia ter uma liderança feminina na equipe econômica. Flávio repete a fragilidade do pai junto às eleitoras nas pesquisas, e o vídeo de Michelle na semana passada, acusando-o de tê-la humilhado, aumentou a necessidade de se cercar de mulheres. Do mercado para o comitê eleitoral Dias antes desse episódio, Daniella deixou a gestora de investimentos Legend, em São Paulo, para mergulhar no projeto de Flávio, que começa a ser cobrado sobre sua proposta para a economia. Aos 46 anos, ela deve auxiliar o coordenador da campanha, o senador Rogério Marinho (PL-RN), a sistematizar as linhas do plano de governo, para o qual levará ideias relacionadas à autonomia financeira de mulheres e à mobilidade social, aproveitando sua experiência na Caixa. Daniella Marques na sala que ocupou na sede da Caixa, em Brasília, em 2022 — Foto: Cristiano Mariz Também reforçará pontes com o mercado financeiro. Daniella conversa com pessoas para se juntar ao projeto, especialmente as que eram do “time” de Guedes, e naturalmente passou a ser vista como uma “ministeriável”. — Meio que me voluntariei, falei que estou disposta a ajudar. Não me importa o cargo ao final. Se não tiver nenhum, estou feliz também, porque o Brasil mudou e, obviamente, tenho o respeito técnico e a confiança pessoal dele (Flávio) — disse ela ao GLOBO. Promessa de ajuste fiscal A primeira contribuição efetiva de Daniella deve ser conhecida na quarta-feira, quando a campanha realizará um evento com mulheres para debater o plano que está sendo elaborado para o público feminino. A estratégia é combinar propostas de enfrentamento à violência contra a mulher com estímulos à autonomia financeira e reconhecimento da economia do cuidado. Daniella Marques, nova integrante da campanha de Flávio Bolsonaro 1 de 8 A presidente da Caixa, Daniella Marques, dá entrevista ao GLOBO em sua sala na seda da Caixa, em Brasília — Foto: Cristiano Mariz 2 de 8 Experiente em Brasília e na Faria Lima, Daniella Marques tenta abrir espaço para Flávio no mercado e no eleitorado feminino/ Reprodução Instagram X de 8 Publicidade 8 fotos 3 de 8 ´Daniella Marques era a única mulher na equipe do ex-ministro da Economia Paulo Guedes — Foto: Ruy Baron/Valor 4 de 8 Daniella Marques em uma corretora do Rio no início das duas décadas de carreira no mercado financeiro — Foto: Marco Antônio Teixeira/Arquivo X de 8 Publicidade 5 de 8 Daniella Marques ao tomar posse como presidente da Caixa — Foto: Cristiano Mariz/Agência O Globo 6 de 8 Adriano Fontes, Daniella Marques, Jacob Weintraub, socios da Oren Investimentos — Foto: Léo Pinheiro/Valor X de 8 Publicidade 7 de 8 Em 2007, Daniella Marques era analista de mercado na Mercatto Investimentos — Foto: Ana Branco/Agência O Globo 8 de 8 Bolsonaro discursa na posse da nova presidente da Caixa, Daniella Marques, observado por ela, o ministro Paulo Guedes, a primeira-dama, Michelle Bolsonaro, e o presidente da Câmara, Arthur Lira (PP-AL) — Foto: Reprodução X de 8 Publicidade Ex-presidente da Caixa, Daniella aderiu à campanha Além do peso econômico, Daniella na equipe de Flávio também o ajuda a aliviar a imagem junto ao público feminino, missão similar à que recebeu em junho de 2022, a menos de três meses da disputa eleitoral em que o pai dele buscaria, sem sucesso, a reeleição. A administradora teve de assumir a Caixa às pressas para apagar o incêndio provocado pelas denúncias de assédio moral e sexual do antecessor, Pedro Guimarães, um dos integrantes do governo mais próximos de Bolsonaro. O ex-chefe do banco sempre negou as acusações, mas teve de sair de cena. Michelle Bolsonaro e Flávio Bolsonaro em manifestação na Esplanada dos Ministérios em 2025: desentendimento com madrasta aumenta necessidade do senador de se cercar de mulheres — Foto: Brenno Carvalho / Agência O Globo Na ribalta, Daniella agiu rapidamente. Abraçou a pauta do empreendedorismo feminino e viajou pelo país para promover o Caixa pra Elas, programa com atendimento, crédito e serviços customizados para mulheres. Única mulher na equipe de auxiliares diretos de Guedes que assumiu o Ministério da Economia em 2019, a executiva abriu espaço na cúpula do banco estatal para outras lideranças femininas e teve a gestão elogiada. Ali, também tocou o consignado do Auxílio Brasil, aposta eleitoral de Bolsonaro criticada na época por oferecer empréstimo a um público vulnerável. Bolsonaro discursa na posse de Daniella Marques na Caixa, observado por ela, o então ministro Paulo Guedes, a então primeira-dama, Michelle Bolsonaro, e o então presidente da Câmara, Arthur Lira (PP-AL) — Foto: Reprodução Faria Lima esperava outro Flávio Bolsonaro ainda não divulgou suas diretrizes econômicas, mas tem defendido um ajuste fiscal forte, caso seja eleito, e criticado a “gastança do governo”, embora com ressalvas como a de que o Bolsa Família é “direito adquirido”. O controle das contas públicas também é um tema recorrente de Daniella, assim como a escalada da dívida pública. Apesar disso, no mundo financeiro, a administradora não era vista como “primeira opção” para “Posto Ipiranga” de Flávio. O currículo dela é sempre elogiado, mas analistas de mercado veem com desconfiança sua capacidade de formular estratégias macroeconômicas. A expectativa era por um “economista de peso”, com experiência de maior protagonismo no setor público e credenciais para apresentar um programa robusto de viés liberal, incluindo um choque fiscal gradual. O mais citado como “guru econômico dos sonhos” para o candidato é Mansueto Almeida, economista-chefe do BTG Pactual, que foi secretário do Tesouro Nacional nos governos Temer e Bolsonaro e é especialista em contas públicas, principal alvo das críticas do mercado ao governo Lula. Um gestor diz que, com Mansueto como assessor econômico, “a campanha de Flávio ganharia outro patamar na Faria Lima”, superando desconfianças persistentes. Sondado, Mansueto descarta voltar à vida pública. Mansueto Almeida, ex-secretário do Tesouro Nacional, era o preferido do mercado para assessorar candidato de oposição — Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil/27-02-2020 No mercado, é sabido que a pré-campanha de Flávio aventou outros nomes com perfil liberal para traçar os pilares econômicos de sua campanha, como Roberto Campos Neto (ex-BC) e Gustavo Montezano (ex-BNDES). Campos Neto está no Nubank como vice-chairman (vice-presidente do conselho) e chefe global de Políticas Públicas e, por enquanto, não mostrou disposição para deixar o banco. Ele deixou o BC no fim de 2024 dizendo que não pretendia voltar ao setor público, mas isso não impede que, no futuro, ele possa integrar o núcleo econômico de Flávio, num eventual governo. Montezano, segundo se comenta no mercado, estaria “reservado” para uma indicação à presidência do BC em 2028, caso o senador suba a rampa do Planalto no ano que vem, o que as pesquisas no momento dizem ter menos chance de acontecer que a reeleição de Lula. Há quem veja na apresentação de Daniella um sinal de dificuldade de Flávio de atrair nomes mais robustos. Outros avaliam que o perfil dela e a proximidade com Guedes atraem o senador, bem como o bônus eleitoral de ter uma mulher cotada para um posto-chave durante sua campanha. 'Líbero pragmática' Pessoas que trabalharam com Daniella no governo passado a definem como versátil, com boa leitura de cenário e histórico de entrega, mas sem experiência na formulação estratégica. Ela sempre foi considerada a principal auxiliar de Guedes, com um entendimento ímpar do pensamento do chefe. ´Daniella Marques era a única mulher na equipe direta do ex-ministro da Economia Paulo Guedes que tomou posse em 2019 — Foto: Ruy Baron/Valor Essa habilidade de articular e desatar nós é justamente o que alguns desses ex-colegas dizem diferenciá-la positivamente de Guedes, cuja relação com o Congresso marcada por atritos frustrou parte de sua agenda liberal. — O trabalho do ministro vai além de formular políticas econômicas. É um vendedor dos planos do governo e precisa ter uma capacidade de articulação muito grande para trabalhar com o Congresso — define Luiz Fernando Figueiredo, presidente do Conselho de Administração da JiveMauá e ex-diretor do BC. Na maior parte do governo Bolsonaro, Daniella foi assessora especial de Guedes. Sua principal tarefa era organizar as ideias do ministro de forma mais pragmática, para serem defendidas politicamente. Era muitas vezes procurada pelos secretários para discutir medidas antes de serem levadas ao chefe. Isso rendeu a Daniella o apelido de “líbero” — o jogador que fica atrás da defesa no futebol identificando brechas. Daniella Marques mostra seus planos em quadro de anotações em 2022, quando presidia a Caixa — Foto: Cristiano Mariz Um ex-integrante da equipe contou ao GLOBO que isso ficava visualmente claro nas reuniões dos secretários especiais. Ela só se sentava ao lado de Guedes. Seus posicionamentos também seguem a visão econômica dele, fundamentada em conceitos do liberalismo econômico, como redução do Estado e fortalecimento do livre mercado. Em entrevistas, Daniella já defendeu, por exemplo, a privatização da Petrobras e o corte de impostos para alguns setores empresariais. Nessa linha, quando assumiu a Secretaria de Produtividade, Emprego e Competitividade, em fevereiro de 2022, assinou um corte do Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI), sob a orientação de Guedes, que despertou a ira da Zona Franca de Manaus, viabilizada pelo diferencial tributário. Parte dos efeitos foi suspensa pelo Supremo Tribunal Federal (STF), o que forçou a exclusão dos itens fabricados na região do alcance da desoneração. Com a confiança de Guedes, Daniella atuou na articulação com o Congresso e construiu boas relações com líderes partidários e os dirigentes da Câmara e do Senado. É lembrada por parlamentares por ajudar a passar a Reforma da Previdência, em 2019, as medidas emergenciais relacionadas à pandemia, em 2020, e a Proposta de Emenda à Constituição (PEC) dos Precatórios, em 2021, que adiou o pagamento de dívidas judiciais e abriu espaço no Orçamento para políticas sociais de Bolsonaro no ano seguinte, de eleição. Isso tudo pode ter ajudado a administradora a compreender a máquina pública, avaliam analistas de mercado, que mesmo assim levantam dúvidas sobre se essa experiência é suficiente para ela liderar uma equipe econômica como ministra. Mas pessoas que conviveram com a executiva em Brasília dizem que, já naquela época, ela dava sinais de querer sair dos bastidores e alçar voos mais altos e autorais. Do interior do Rio ao mundo das finanças Daniella imprimiu mais sua personalidade no mercado financeiro, onde não atuava como “trader”, profissional que compra e vende ativos. Seu perfil é o de estrategista dos negócios de longo prazo, além de uma espécie de “xerife” de boas práticas operacionais. Filha de uma professora e de um gerente de uma agência do Banco do Brasil em Barra Mansa, no Sul Fluminense, Daniella já contou que gostava de números desde a adolescência. Aos 12 anos, vendia mangas na vizinhança e registrava seu fluxo de caixa numa planilha. Aos 15, pediu ao pai a assinatura de uma revista de negócios. Formada, passou por várias empresas financeiras até atuar com Guedes na Bozano Investimentos (atual Crescera Capital), no Rio. Ele era o CEO e ela, a diretora financeira, de Compliance e de Operações, dobradinha que replicariam em Brasília. De volta à planície Com a derrota de Bolsonaro para Lula, Daniella deixou a Caixa no fim de 2022 e voltou ao mercado financeiro, dessa vez em São Paulo. Desde 2024, era sócia da gestora Legend e CEO da Legend Special Assets, das quais se licenciou para atuar na campanha de Flávio Bolsonaro. Também deu continuidade a projetos para o público feminino ao fundar, em 2025, o Grupo pra Elas, focado em autonomia financeira para mulheres. No mesmo ano, ela foi convidada para o Conselho de Administração do Banco Digimais — que entrou na mira da Polícia Federal na semana passada. Coincidiu com a sua segunda gravidez e ela só ficou seis meses. O empresário e ex-apresentador de TV Roberto Justus, um dos sócios da Legend, diz que Daniella é “fora da curva”, conhece o mercado e discute com facilidade outros temas: — Está preparada para qualquer cargo, seja como ministra da Economia ou do Planejamento. Seria bom para o Brasil. É uma pessoa muito séria e decente, cheia de bons valores. Num eventual Ministério da Fazenda, caso Flávio supere as dificuldades eleitorais que as pesquisas mostram neste momento, Daniella seria a a primeira mulher nesta posição desde Zélia Cardoso de Mello, no governo de Fernando Collor, no início dos anos 1990. E não seria a primeira no cargo sem ser economista. Apesar do mestrado em Economia, o ex-ministro Fernando Haddad é formado em Direito. Antonio Pallocci é médico, e Fernando Henrique Cardoso, que liderou o Plano Real na Fazenda antes de se eleger presidente, é sociólogo. (Colaborou Luíza Marzullo)
Quem é Daniella Marques, a 'facilitadora' de Paulo Guedes que surge como 'Posto Ipiranga' de Flávio Bolsonaro
Experiente em Brasília e na Faria Lima, administradora quer ajudar senador junto às mulheres e ao mercado, onde é reconhecida, mas é vista com reservas para 'ministeriável'
Daniella Marques, ex-Caixa e ex-auxiliar de Guedes, aderiu à campanha de Flávio com 20 anos de experiência financeira. Mercado questiona autoridade em macroeconomia e sinaliza possível gap estratégico na formulação de políticas econômicas.














