Torcedores precisam decidir se vão manter o boicote aos EUA, iniciado há mais de um ano, quando o Trump afirmou que usaria 'força econômica' para pressionar o paísa se tornar o 51º estado americano 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 Torcedores do Canadá durante a partida do Grupo B da Copa do Mundo da FIFA 2026 entre Suíça e Canadá, no BC Place, em Vancouver — Foto: Emilee Chinn/Getty Images RESUMO Sem tempo? Ferramenta de IA resume para você GERADO EM: 27/06/2026 - 14:53 Dilema na Copa: Torcedores Canadenses Divididos entre Apoio e Boicote aos EUA Torcedores canadenses vivem um dilema na Copa do Mundo: viajar a Los Angeles para apoiar a seleção masculina, que enfrentará a África do Sul, ou manter o boicote aos EUA, iniciado após declarações de Trump sobre o Canadá. Apesar da queda de 30% nas visitas aos EUA, a disputa esportiva atrai muitos fãs, destacando laços e tensões entre os países. O técnico americano Jesse Marsch conquista a torcida, enquanto o futuro do Vancouver Whitecaps na MLS é incerto. CLIQUE E LEIA AQUI O RESUMO Os torcedores canadenses enfrentam um dilema patriótico. Depois de conquistar o primeiro ponto de sua história em uma Copa do Mundo da FIFA e, em seguida, a primeira vitória, a seleção masculina do Canadá perdeu a chance de permanecer em Vancouver para a fase eliminatória ao ser derrotada pela Suíça. Em vez disso, enfrentará a África do Sul em Los Angeles, no domingo. Assim, os torcedores precisam decidir se acompanharão os Les Rouges ("Os Vermelhos", apelido da seleção canadense) aconteça o que acontecer, ou se manterão o boicote aos Estados Unidos iniciado há mais de um ano, quando o presidente americano Donald Trump afirmou que usaria "força econômica" para pressionar o Canadá a se tornar o 51º estado americano. Promise David, que veste a camisa número 24 pela seleção canadense, comemora com os companheiros de equipe após marcar um gol na partida da Copa do Mundo contra a Suíça, em Vancouver — Foto: Bloomberg O maior torneio esportivo do mundo tem revelado diversas situações que expõem a relação complexa do Canadá com seu vizinho, aliado de longa data, principal parceiro comercial e coanfitrião da Copa do Mundo. Arylnn Poczynek, de 54 anos, costumava visitar os Estados Unidos com frequência, mas passou a boicotá-los desde o retorno de Trump à presidência, tendo cruzado a fronteira apenas uma vez para participar de um funeral. Agora, porém, fará uma exceção à sua política de não viajar para voar de Edmonton, na província de Alberta, até Los Angeles para assistir ao jogo de domingo. —Isso deve dar uma ideia da importância dessa partida para mim— disse ele por telefone. — É realmente uma exceção. Ele não é o único. A procura por ingressos para a partida em Los Angeles foi intensa, segundo Matt Serson, diretor do The Voyageurs, grupo de torcedores da seleção canadense. Um lote de ingressos disponibilizado pela federação canadense de futebol "esgotou em poucos minutos" na manhã de quinta-feira, afirmou Serson, estimando que eram cerca de 5.600 entradas. A Canada Soccer não respondeu a um pedido de comentário. As viagens de residentes canadenses aos Estados Unidos caíram cerca de 30% em relação ao período anterior ao retorno de Trump ao poder, segundo dados da agência oficial de estatísticas do Canadá. Ainda assim, Serson contou que passou a quinta-feira ajudando freneticamente torcedores com ingressos e planos de viagem. —Já recebemos inúmeras mensagens pelas redes sociais de canadenses que estão em Los Angeles perguntando sobre ingressos. Portanto, será um público amplamente favorável ao Canadá. Torcedores canadenses em Vancouver a caminho do jogo em que sua seleção enfrentou a Suíça — Foto: Bloomberg O esporte de alto rendimento ajuda a ilustrar o quanto as relações entre Estados Unidos e Canadá são interligadas. As principais ligas profissionais americanas de hóquei, basquete, beisebol e futebol são dominadas por equipes americanas, mas também contam com clubes canadenses. No ano passado, quando Trump começou a ridicularizar o Canadá e ameaçar impor tarifas, os canadenses manifestaram sua indignação dentro das arenas. Eles vaiaram em alto volume o hino americano, The Star-Spangled Banner, antes de uma partida de hóquei entre Estados Unidos e Canadá no torneio 4 Nations Face-Off. Quando a bandeira americana foi exibida durante a cerimônia de abertura da Copa do Mundo em Toronto, parte do público voltou a vaiá-la, provocando críticas contundentes do embaixador de Trump no Canadá, Pete Hoekstra. (Alguns torcedores também vaiaram a bandeira dos Estados Unidos durante a cerimônia da seleção mexicana.) Um técnico inspirador O técnico da seleção canadense, Jesse Marsch, é americano. Isso, porém, pouco importa. Os torcedores canadenses passaram a admirá-lo por seus gestos enérgicos à beira do campo, sua paixão e a forma como canta com entusiasmo o hino nacional canadense antes das partidas. Marsch, ex-auxiliar técnico da seleção dos Estados Unidos, costuma demonstrar tanto orgulho pela equipe canadense que acabou despertando críticas em seu país de origem. Pouco antes da estreia do Canadá contra a Bósnia e Herzegovina, afirmou que, "nos Estados Unidos, às vezes era preciso implorar para que os jogadores cantassem o hino nacional", enquanto os atletas canadenses o entoam com patriotismo. A declaração provocou uma resposta irritada de Clint Dempsey, um dos maiores artilheiros da história da seleção americana. "Não vou aceitar conselhos de alguém que mudou de lado e agora canta o hino de outro país", afirmou. O primeiro-ministro canadense, Mark Carney, também mergulhou no clima da Copa. Ele cruzou o país duas vezes para assistir aos jogos da seleção em Vancouver e chegou a fazer um discurso surpresa no vestiário após a goleada de 6 a 0 sobre o Catar. Mas, enquanto o estádio BC Place, em Vancouver, transborda de patriotismo e entusiasmo com a Copa do Mundo, há também uma ironia desconfortável. O Vancouver Whitecaps, clube da Major League Soccer da cidade e mandante no mesmo estádio, enfrenta um futuro incerto — e pode acabar se mudando para os Estados Unidos. Embora o Whitecaps tenha disputado a final da MLS Cup no ano passado e atualmente divida a liderança da Conferência Oeste da liga, esse sucesso talvez não seja suficiente para garantir sua permanência. Os proprietários da equipe tentam, há 19 meses, encontrar investidores para manter o clube na cidade. O BC Place, local onde se realiza a Copa do Mundo em Vancouver, é também a sede do Vancouver Whitecaps, da MLS — Foto: Bloomberg Hoje, a operação parece financeiramente deficitária. O clube não controla o BC Place, o que dificulta tanto o calendário de jogos quanto a geração de receitas. Além disso, há mais oportunidades de patrocínio nos Estados Unidos, desde empresas privadas de saúde até casas de apostas esportivas. Um consórcio apresentou uma proposta para comprar o Whitecaps e transferi-lo para Las Vegas. Isso levanta a possibilidade de Vancouver perder mais uma franquia esportiva para uma cidade americana, repetindo o que aconteceu em 2001, quando sua equipe da NBA foi transferida para Memphis, no Tennessee. Os torcedores locais de futebol estão se mobilizando e esperam que a Copa do Mundo possa mudar a situação do clube. Mike Reynolds, de 43 anos, torcedor do Whitecaps, tirou o dia de folga do trabalho e pagou 1.600 dólares canadenses (US$ 1.127) por um lugar nas arquibancadas mais altas do BC Place para assistir ao jogo entre Canadá e Suíça na quarta-feira. Ele falou sobre uma nova era para o futebol em um país que, antes de 2022, havia se classificado para a Copa do Mundo apenas uma vez. —Só nos últimos anos — digamos, desde Alphonso Davies e algumas das estrelas que formamos, como Jonathan David, Cyle Larin e outros jogadores — é que tivemos motivos para ficar realmente empolgados—, disse ele enquanto caminhava para o jogo ao lado de milhares de torcedores eufóricos vestindo camisetas vermelhas do Canadá. —Espero que este evento consiga mostrar que há um coração que bate pelo futebol nesta cidade, que há amor e paixão pelo esporte— disse Reynolds. —E que talvez isso possa motivar alguém a se apresentar e tentar manter o futebol por aqui.