O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, enfrentou duras críticas sobre a guerra contra o Irã durante uma reunião a portas fechadas com colegas do Partido Republicano na quarta-feira, pouco antes de seu governo pedir ao Congresso dezenas de bilhões de dólares para custear o conflito. Diversos republicanos presentes disseram que Trump protagonizou uma discussão aos gritos com o senador Bill Cassidy, que afirmou que o governo precisava explicar melhor o acordo preliminar assinado na semana passada, que concede incentivos financeiros ao Irã, mas fica aquém dos objetivos apresentados pelo presidente no início da guerra. “O povo americano precisa saber mais do que está sendo informado”, disse Cassidy a jornalistas. “Parece, embora eu não tenha certeza, que o rumo dos acontecimentos não está seguindo o que nos foi dito.” Mais tarde, em um aparente esforço para agradar ao presidente, a liderança republicana no Senado marcou uma votação no fim da noite para barrar uma resolução que pedia o fim das hostilidades contra o Irã. O Senado votou por 50 votos a 47, em grande parte seguindo as linhas partidárias, para bloquear uma resolução sobre poderes de guerra que havia avançado em uma votação processual realizada em maio. “Essa votação serve de aviso ao Irã”, escreveu Trump nas redes sociais após a votação da noite de quarta-feira, embora ela não altere a decisão anterior. O presidente dos EUA, Donald Trump, participa de um comício para dar início à Grande Feira Estadual Americana, em comemoração ao 250º aniversário da independência dos EUA, no National Mall, em Washington, DC, EUA, em 24 de junho de 2026 — Foto: REUTERS/Evan Vucci/Foto de Arquivo Guerra contra o Irã pesa sobre republicanos de Trump A acalorada discussão durante o almoço de quarta-feira com um integrante do próprio partido mostra como a guerra tem pesado politicamente sobre Trump às vésperas das eleições de novembro, que definirão o controle do Congresso. Com a taxa de aprovação de Trump no menor nível desde seu retorno à Casa Branca no ano passado, apenas um em cada quatro americanos acredita que a guerra compensou seus custos, mostrou uma pesquisa Reuters/Ipsos. A troca de acusações ocorreu um dia depois de o Senado aprovar uma resolução determinando que Trump encerrasse a guerra, em votação separada sobre um texto aprovado pela Câmara dos Representantes neste mês. Cassidy foi um dos quatro republicanos que apoiaram a medida, ao lado dos democratas da oposição. Trump não mencionou diretamente o confronto com Cassidy, que neste ano foi derrotado nas primárias republicanas por um candidato apoiado pelo presidente. Posteriormente, porém, criticou o Senado. “O Irã vê isso e pensa: 'O que é isso?'. Mas vocês sabem que isso não significa nada, certo?”, disse Trump a jornalistas na Casa Branca. Algumas horas depois, o governo solicitou ao Congresso US$ 70 bilhões para cobrir os custos da guerra, montante que será somado ao orçamento militar americano de US$ 867 bilhões. Na votação da noite de quarta-feira, Cassidy, que havia apoiado recentes resoluções sobre poderes de guerra relacionados ao Irã, votou contra a nova medida, enquanto o senador Rand Paul, do Kentucky, outro republicano que também apoiara resoluções anteriores, optou por se abster. Duas republicanas, Susan Collins, do Maine, e Lisa Murkowski, do Alasca, votaram com os democratas a favor da resolução. O senador John Fetterman, da Pensilvânia, foi o único democrata a votar contra. O senador republicano Mitch McConnell, do Kentucky, e o democrata Michael Bennet, do Colorado, não participaram da votação. Cassidy recebeu briefing Em uma publicação feita na noite de quarta-feira na rede social X, Cassidy agradeceu ao vice-presidente J.D. Vance e ao enviado especial Steve Witkoff um “amplo briefing sobre o Irã realizado nesta tarde”. “Agradeço o rápido convite à Casa Branca para abordar muitas das minhas preocupações”, escreveu Cassidy. Os preços de referência do petróleo caíram nesta quinta-feira ao menor nível desde antes do início da guerra, à medida que o acordo inicial entre Estados Unidos e Irã encerrou o bloqueio imposto por Teerã ao Estreito de Ormuz, permitindo a retomada do tráfego marítimo. A Guarda Revolucionária do Irã advertiu as embarcações para que utilizem apenas as rotas estabelecidas por Teerã em Ormuz, classificando como inaceitáveis e perigosas as novas rotas de navegação anunciadas sem coordenação com o país. A declaração foi divulgada um dia depois de Omã anunciar corredores temporários de navegação pelo estreito em coordenação com a Organização Marítima Internacional. Em comunicado, a Guarda Revolucionária pediu que as embarcações mantenham contato com sua força naval por meio do Canal Marítimo 16 e ameaçou adotar medidas contra quem descumprir suas determinações. Antes de o estreito ser bloqueado durante a guerra, a hidrovia respondia pelo transporte de cerca de um quinto das exportações mundiais de petróleo e gás natural liquefeito. Versões conflitantes sobre diversos pontos do acordo-quadro têm alimentado críticas a Trump tanto dentro quanto fora dos Estados Unidos. Incentivos financeiros ao Irã, inspeções em instalações nucleares, o controle do Estreito de Ormuz e a guerra paralela de Israel no Líbano são alguns dos temas em disputa. O acordo prevê 60 dias de negociações para resolver questões mais complexas, como o programa nuclear iraniano. O senador americano Bill Cassidy (republicano da Louisiana) fala com repórteres após um almoço do Comitê Diretivo Republicano do Senado com o presidente dos EUA, Donald Trump, no Capitólio dos EUA, em Washington, D.C., EUA, em 24 de junho de 2026 — Foto: REUTERS/Elizabeth Frantz Ceticismo regional A proposta de acordo de paz provocou ceticismo no Oriente Médio, onde diversos países foram atacados pelo Irã durante a guerra e consideram o entendimento excessivamente generoso com Teerã, sobretudo por prever um fundo de reconstrução de US$ 300 bilhões e a suspensão de algumas sanções. Os aliados de Washington no Golfo temem que o fundo de reconstrução ajude o Irã a reconstituir sua capacidade militar. O acordo também não aborda a capacidade balística de Teerã. O entendimento exige que o Irã permita a livre navegação pelo Estreito de Ormuz durante 60 dias, mas Teerã já sugeriu que poderá cobrar taxas de trânsito após esse período. Segundo um diplomata informado sobre as negociações, o Irã poderá propor a cobrança de tarifas ambientais, de navegação e de segurança nas próximas conversas com os países do Golfo. Washington e seus aliados na região se opõem a qualquer tipo de cobrança. “Não faremos nada que comprometa a segurança dos nossos aliados, nossos aliados de longa data na região”, afirmou o secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio, na Cidade do Kuwait, onde a embaixada americana retomou as atividades após a interrupção provocada pela guerra. Israel e Líbano se reúnem em Washington Em Washington, Líbano e Israel discutiram uma proposta apoiada pelos Estados Unidos para que as forças israelenses se retirem de parte do território ocupado, devolvendo o controle dessas áreas ao Exército libanês. O primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, porém, afirmou que Israel não retirará suas tropas. Israel combate o Hezbollah no Líbano desde que o grupo extremista atacou o país em 2 de março em apoio ao Irã. Teerã transformou o fim das hostilidades nessa frente em uma de suas principais exigências para qualquer acordo de paz com os Estados Unidos. Um ataque de drone israelense contra um carro no sul do Líbano matou duas pessoas nesta quarta-feira, segundo fontes libanesas ouvidas pela Reuters, enquanto Israel afirmou ter atingido dois combatentes armados do Hezbollah. Não ficou imediatamente claro se os dois relatos se referiam ao mesmo incidente. Um homem com uma bandeira do Hezbollah passa de carro por um prédio danificado após o cessar-fogo entre Israel e o Hezbollah na cidade de Nabatiyeh, no sul do Líbano, na segunda-feira, 22 de junho de 2026 — Foto: AP/Mohammed Zaatari