No Jacarezinho, os muros vão falar. As mensagens virão em forma de grafite, dança, música, fotografia e poesia. No próximo sábado, a comunidade será tomada por cores, rimas e encontros durante a segunda edição do Ocuparte, mutirão artístico independente que transforma as ruas em espaços de criação e convivência. Mais do que uma ocupação cultural, a iniciativa busca fortalecer o sentimento de pertencimento e destacar a potência criativa de um território frequentemente lembrado apenas por seus desafios. Das 8h às 18h, artistas, moradores, coletivos e instituições parceiras ocupam a comunidade com uma programação que inclui mutirão de grafite, oficinas de escrita criativa e rima, formação de DJs, fotografia, breaking, passinho e batalhas de dança e de MCs, além de apresentações e pocket shows. Idealizadora do projeto, a grafiteira Mia Rodriguez afirma que a união dessas linguagens amplia o alcance da participação comunitária. — O grafite, o rap, o breaking e o DJ são pilares da cultura hip-hop. Eles não são expressões isoladas, mas uma tecnologia cultural potente para pensar saúde, pertencimento e cidadania nas periferias — explica. Segundo ela, cada linguagem abre uma forma diferente de expressão. — A rima organiza a experiência pela palavra; a dança transforma o corpo em comunicação; o grafite ocupa o espaço urbano com narrativas próprias. Quando essas linguagens se cruzam, mais pessoas conseguem encontrar um lugar de expressão e protagonismo — relata. Embora tenha surgido nos Estados Unidos, o hip-hop incorporou características próprias ao se desenvolver nas periferias cariocas. No Jacarezinho, o movimento dialoga com expressões como o funk, o charme e o passinho, que ajudaram a construir a identidade cultural da comunidade ao longo das últimas décadas. Dançarinos se apresentam durante o Ocuparte, evento que reúne diferentes expressões da cultura de periferia — Foto: Divulgação/Jota Lima Essa conexão se reflete na proposta do Ocuparte, que reúne tanto os elementos clássicos da cultura hip-hop quanto manifestações culturais que nasceram ou ganharam força nas favelas do Rio. Ao longo do dia, grafiteiros transformam os muros da comunidade em galerias a céu aberto, enquanto oficinas e atividades formativas ocupam escolas, equipamentos públicos e instituições parceiras, como o Espaço da Juventude e o CRJ do Jacarezinho. Além das atividades artísticas, o Ocuparte aposta na formação como ferramenta de transformação social. Os participantes das oficinas recebem certificação e são incentivados a enxergar o grafite, a fotografia, a música e a dança não apenas como formas de expressão, mas também como possibilidades de desenvolvimento profissional e geração de renda. Ao longo do dia, grafiteiros transformam os muros da comunidade em galerias a céu aberto, enquanto fotógrafos registram o processo criativo, DJs acompanham as atividades, MCs se apresentam e dançarinos ocupam as ruas. O encerramento reúne batalhas de rima, disputas de dança e apresentações que celebram a diversidade cultural presente no território. A iniciativa nasceu da percepção de que o Jacarezinho tem uma produção cultural rica, mas ainda carece de espaços capazes de conectar artistas, coletivos e moradores. A partir dessa constatação, o Ocuparte passou a investir no mapeamento de talentos locais e na criação de redes entre agentes culturais da própria comunidade. Na primeira edição, o projeto ajudou a dar visibilidade a nomes que já produziam arte no território, como a dupla Times e Fael Graf, pai e filho responsáveis por murais espalhados pela favela, além do morador Marcelo Nalf. O levantamento também identificou artistas ligados ao passinho e ao funk, como Severo Void e Destemida. — O objetivo não é apenas trazer artistas de fora, mas reconhecer e fortalecer quem já produz cultura dentro da favela — destaca Mia. A valorização desses talentos está diretamente ligada a uma das principais bandeiras do projeto: ampliar as narrativas sobre o Jacarezinho. Frequentemente associado à violência e à ausência de direitos, o território também abriga uma intensa produção artística e cultural que, segundo a organizadora, nem sempre recebe a mesma visibilidade. Para Mia, a transformação mais importante acontece quando crianças e jovens passam a enxergar artistas, fotógrafos, dançarinos, MCs e produtores culturais como referências possíveis para suas próprias trajetórias. Um ano após a primeira edição, os efeitos da iniciativa ainda podem ser vistos pelas ruas da comunidade. Os murais produzidos durante o evento permanecem espalhados pelo lugar e, em alguns casos, inspiraram novas intervenções artísticas. Mas, para Mia, o principal legado não está nas paredes. — Estamos ocupando o espaço público com outras imagens e outras narrativas sobre quem somos. Em vez de enxergar apenas as marcas da violência e da desigualdade, passamos a encontrar cores, memórias e símbolos que valorizam a nossa identidade — afirma. Ela conta que um dos momentos mais marcantes desde o início do projeto foi passar a ser reconhecida pelas crianças da comunidade como a “tia do grafite”. — Pode parecer algo simples, mas isso representa uma disputa importante por referências, afetos e possibilidades de futuro — diz. Mia ressalta que o projeto também ajuda a aproximar moradores, escolas, equipamentos públicos e organizações locais, como a Clínica da Família, o Espaço da Juventude e o CRJ do Jacarezinho. — Aos poucos, estamos construindo um ecossistema cultural no território, fortalecendo vínculos e criando condições para que a cultura dialogue cada vez mais com cidadania, cuidado e participação social — conclui Mia. Para o grafiteiro Times, o envolvimento dos moradores é uma das demonstrações mais claras do impacto do Ocuparte. — Os moradores ajudam de várias formas, oferecendo água, emprestando ferramentas, doando materiais ou simplesmente acompanhando o trabalho. É um evento construído coletivamente — afirma. Segundo ele, a presença do grafite no cotidiano da comunidade ajuda a aproximar a arte dos moradores e a ampliar oportunidades para quem vive dela. — O grafite deixa de ser algo distante e passa a fazer parte da paisagem e da rotina da favela. Isso gera reconhecimento e pode abrir portas para novos trabalhos — completa.
Os muros do Jacarezinho vão ganhar vida com grafite, dança e batalhas de MCs no Ocuparte
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