País usa o dólar como moeda oficial desde os anos 2000 Jogadores do Equador, Moises Caicedo, Willian Pacho e Pedro Vite — Foto: Reuters A taxa de câmbio costuma ser uma preocupação para turistas que viajam durante a Copa do Mundo, mas para os equatorianos que foram aos Estados Unidos acompanhar a sua seleção, isso não foi um problema, já que o Equador utiliza o dólar americano como moeda oficial do país. O processo de dolarização da economia do Equador, cuja seleção joga nesta quinta (25) contra a Alemanha, começou nos anos 2000, sob o governo de Jamil Mahuad. Na época, o país passava por uma grave crise econômica, com hiperinflação, instabilidade bancária e desvalorização da moeda local, o sucre. “Os países sul-americanos, principalmente os que tinham dívida externa, tinham [na década de 1990 e 2000] uma inflação muito alta porque necessitavam ter dólar para poder pagar a dívida externa, o que fazia com que a gente desvalorizasse o câmbio e pressionasse a inflação”, explica a professora de economia da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), Cristina Helena Pinto de Mello. No caso do Equador, a especialista explica que o país tentou fazer uma estratégia de “ancoragem cambial” para melhorar a sua situação econômica. Uma “âncora fiscal” consiste em fixar ou limitar a variação da moeda local em relação a uma moeda forte, que pode ser o dólar. “Só que o que aconteceu foi uma hiperinflação muito rápida e a moeda deles foi perdendo valor, o que levou a uma dolarização plena muito rápida”. Na época da transição, o Banco Central do Equador disse que a dolarização tinha como objetivo “a estabilidade da taxa de câmbio, a diminuição das taxas de juros e a queda da inflação, que obviamente, promoverão o investimento real e o desenvolvimento produtivo.” A troca da moeda foi feita em etapas, com governo estabelecendo uma taxa de câmbio fixa e a população tendo um prazo para efetuar as trocas. Riscos e benefícios Em um primeiro momento, o Equador conseguiu controlar a sua inflação. De uma taxa de inflação de 91% em 2000, passou para 22,4% em 2001, 9,4% em 2002 e 6,1% em 2003. Além disso, com os anos, o país “se acomodou” com a dolarização, segundo Mello. “O impacto do turismo numa economia como a do Equador é significativo. Então para as pessoas terem segurança de que vão chegar lá com uma moeda que se conhece o valor é importante para manter a atividade turística.” Por outro lado, Mello comenta que a dolarização pode causar dois efeitos negativos. O primeiro é que o governo para de ter a “senhoriagem”, que é o lucro obtido quando se emite nota. “Em época de hiperinflação, que se emite muita moeda, essa receita é muito grande, então abrir mão dessa receita não é uma coisa simples, porque exige um ajuste fiscal, corte de gastos ou aumento de tributos muito alto”. Já o segundo problema está relacionado à perda de controle que o governo tem sobre a moeda. “Agora, toda vez que o governo americano faz o dólar desvalorizar, você tem perda do poder de aquisição, ao mesmo tempo, se o dólar valorizar, você aumenta o poder de compra do Equador, só que o governo deles não tem controle sobre a gestão desse processo”. Esses dois problemas tendem a ter um custo político elevado, de acordo com Mello. Mas, no caso do Equador, o presidente que propôs a dolarização, Jamil Mahuad, saiu do cargo logo após sugerir a medida. “Assim, eles não tiveram o custo político alto para manter a decisão”. Caso do Panamá A dolarização da economia equatoriana é um processo diferente da experimentada pelo Panamá, onde o uso do dólar é generalizado, mas o governo ainda mantém formalmente a sua moeda oficial, o balboa panamenho. A moeda americana é amplamente aceita no Panamá por conta da forte relação do país com os Estados Unidos, causada em grande parte pela construção do Canal de Panamá, que foi administrada pelos americanos até 1999. Atualmente, o dólar possui uma paridade fixa com o balboa de 1 para 1, ou seja, 1 balboa equivale a US$ 1. Assim, é possível fazer pagamentos diretamente em dólar no país. O Panamá ainda emite moedas metálicas para os valores de 1, 5, 10, 25, 50 centésimos e a moeda de 1 balboa, porém, a impressão de papel-moeda para valores maiores não é feita pelo governo.