Para Cuy Sheffield, vice-presidente de cripto da Visa, as stablecoins deixaram de ser um instrumento restrito ao mercado de criptomoedas e começam a se consolidar como uma nova infraestrutura para pagamentos Cuy Sheffield, vice-presidente de cripto da Visa — Foto: Divulgação As stablecoins deixaram de ser um instrumento restrito ao mercado de criptomoedas e começam a se consolidar como uma nova infraestrutura para pagamentos globais. Essa é a avaliação da Visa, que vê a tecnologia ganhando relevância especialmente em transações corporativas e liquidações internacionais. Para a bandeira, isso foi possível devido à combinação entre o amadurecimento regulatório, o surgimento de fintechs e a demanda por pagamentos globais instantâneos. Cuy Sheffield, vice-presidente de cripto da Visa, disse que a bandeira acompanha o setor desde 2018 e, já no início, enxergava mais potencial na tecnologia blockchain aplicada à representação digital de moedas fiduciárias do que no uso de criptomoedas para pagamentos. “Nós reconhecemos muito cedo que não haveria realmente demanda por criptomoedas para pagamentos. A volatilidade do bitcoin é um grande desafio. Então pensamos que, se algo saísse desse ecossistema cripto que pudesse ser útil para pagamentos, provavelmente seria a representação de moedas fiduciárias, como o dólar, em blockchain”, afirmou. Na visão do executivo, o primeiro grande ponto de inflexão ocorreu entre o fim de 2022 e o início de 2023. Enquanto o mercado de criptoativos enfrentava uma forte crise após o colapso da FTX, o interesse pelas stablecoins continuou crescendo. “Acho que aquele foi o primeiro momento em que vimos essa dissociação. As pessoas começaram a perceber que as stablecoins eram apenas dólares e que permitiam a pessoas e empresas de muitos países acessar e manter dólares.” Naquele momento, porém, a maior parte dos produtos ainda estava concentrada em corretoras de criptomoedas. O cenário começou a mudar com o surgimento de uma nova geração de fintechs que passaram a usar stablecoins como infraestrutura, sem foco em investimentos ou negociação de ativos digitais. “Começou a surgir uma nova classe de empresas, pense em algo como neobancos ou aplicativos de remessas internacionais, construídas sobre stablecoins e que não tinham nada a ver com cripto”, contou. Foi nesse contexto que a Visa começou a investir em “stablecoin-linked cards”, cartões vinculados a carteiras de stablecoins. A proposta é permitir que usuários gastem seus saldos em qualquer estabelecimento que aceite Visa, sem que o comerciante precise lidar diretamente com ativos digitais. “A Visa deveria ser apenas essa ponte, pela qual você pode conectar uma credencial Visa a uma carteira de stablecoins, gastar em qualquer estabelecimento que aceite Visa, e nós fazemos a conversão, de modo que o comerciante nem precise saber que existe uma stablecoin”, explicou Sheffield. A empresa viu um segundo impulsionador para as stablecoins no ano passado, com a aprovação da Genius Act, legislação americana para o setor. “Agora que os Estados Unidos deram o passo de tratar stablecoins como um meio de pagamento legal, com regras claras, não há mais volta. Isso consolidou as stablecoins como uma importante infraestrutura e tecnologia para pagamentos.” Embora o uso por consumidores continue crescendo em alguns mercados, a Visa avalia que a principal oportunidade está no segmento corporativo. A companhia tem utilizado stablecoins em liquidações entre participantes de sua rede. A tecnologia ajuda a bandeira a possibilitar a movimentação de recursos 24 horas por dia, sete dias por semana, entre diferentes países — o que ainda é uma dor no setor de pagamentos. “Estamos em 2026. As pessoas estão falando sobre IA, datacenters, espaço e superinteligência. E a gente não consegue movimentar dinheiro nos fins de semana”, pontuou Sheffield. O executivo da Visa reconhece que sistemas de pagamentos instantâneos nacionais, como o Pix, representam avanços importantes, mas não resolvem o desafio das transações internacionais. Ele definiu o meio de pagamento instantâneo brasileiro como um “sucesso fenomenal”. Recentemente, no evento anual Fórum de Pagamentos Visa, a companhia anunciou que o total anual de volumes processados por meio da VisaNet alcançou US$ 7 bilhões em liquidações em blockchain até março de 2026. “É pouco perto dos US$ 15 trilhões que a Visa movimenta, mas já prova que stablecoins podem ser uma ferramenta útil para pagamentos corporativos de alto valor”, avaliou Sheffield. O executivo afirma que a tecnologia vem sendo adotada inicialmente por empresas que já nasceram dentro do ecossistema de ativos digitais, mas a expectativa é que ela passe a coexistir com infraestruturas tradicionais como Swift e Fedwire. “Elas [stablecoins] são um complemento.” Segundo Sheffield, um dos papéis da Visa é justamente conectar empresas que operam em blockchain a instituições financeiras mais tradicionais. “Se olhar para a nossa rede global, temos algumas das instituições financeiras mais conservadoras do mundo, instituições financeiras lentas para se mover, e nós temos novas fintechs nativas de stablecoins que se movem mais rapidamente. Estamos em uma posição muito boa para apoiar os dois lados, receber recursos de uma fintech de stablecoins e transferi-los para um banco em moeda fiduciária tradicional, fazendo com que isso funcione em toda a nossa rede.” A companhia também aposta em um futuro com múltiplas blockchains e múltiplas stablecoins. Hoje, USDT e USDC concentram a maior parte do mercado, mas Sheffield acredita que essa configuração tende a mudar. “Se o mercado de stablecoins passar de US$ 300 bilhões para US$ 3 trilhões, é improvável que 99% dele continue concentrado nas mesmas duas empresas que já emitiam stablecoins em 2017.” Ele também vê espaço para o crescimento de stablecoins lastreadas em moedas locais. O Brasil aparece entre os mercados observados pela companhia. “Eu não tinha percebido que o mercado de stablecoins em reais havia dobrado desde o início de 2026. Adoramos isso. Queremos um mundo em que stablecoins representem todas as moedas, não apenas o dólar.” Na avaliação do executivo, a tendência não é que cada banco crie sua própria moeda digital, mas que surjam iniciativas compartilhadas por grupos de instituições financeiras. “É menos provável que vejamos cada banco individualmente tentando criar seu próprio produto. E acho que veremos mais experimentação com diferentes abordagens de consórcio para stablecoins em toda a indústria.” Para Sheffield, as moedas digitais emitidas por bancos centrais (CBDCs) perderam protagonismo nos últimos anos. Segundo ele, a ideia de uma moeda digital voltada diretamente ao consumidor enfrentou dificuldades operacionais e regulatórias. “Os bancos centrais perceberam que é muito difícil oferecer produtos diretamente ao consumidor.” Ele acredita, porém, que projetos voltados ao mercado interbancário, como o Drex no Brasil, continuam fazendo sentido. “Acho que o Drex é muito interessante e acredito que ainda existe interesse em CBDCs de atacado, no sentido de perguntar: como modernizar os sistemas de pagamento dos bancos centrais que funcionam entre os bancos?”, disse. “Acho que há valor nisso. Acho que levará tempo para que essas iniciativas se desenvolvam. De forma geral, acreditamos que todo sistema de pagamentos deve evoluir continuamente ao longo do tempo, como a Visa faz.” *A repórter viajou a convite da Visa
Visa aposta em stablecoins como infraestrutura e tecnologia de pagamentos
Para Cuy Sheffield, vice-presidente de cripto da Visa, as stablecoins deixaram de ser um instrumento restrito ao mercado de criptomoedas e começam a se consolidar como uma nova infraestrutura para pagamentos






