Os executivos da Netflix sabem que as pessoas que assistem aos seus programas e filmes não estão prestando atenção total a eles. E que muitas delas também estão usando seus celulares. — É algo que estamos analisando com muita seriedade — disse Alain Tascan, presidente de jogos da Netflix. — Estou em frente à TV; estou usando meu celular. Esta é uma realidade, boa ou ruim. Nós sabemos. Não estamos aqui para julgar, mas sim para dizer: 'OK, podemos fazer algo especial a respeito? A mais recente tentativa da Netflix de resolver esse dilema é o "Unhinged", um novo jogo interativo desenvolvido pelo estúdio interno Night School Studio, com as vozes de Zoë Kravitz, Sadie Sink e Troy Baker. Embora a Night School já tenha trabalhado em um videogame baseado na 7ª temporada de “Black Mirror”, "Unhinged" é uma experiência original e independente. O jogo será lançado em 30 de junho e utiliza o celular do jogador como controle, assim como muitos outros títulos da Netflix. Mas ele também funciona como o celular da protagonista, recebendo chamadas, mensagens de texto e servindo como lanterna, exatamente como um aparelho real. — Se você alguma vez olhar para o seu celular, é porque queremos que você faça isso — disse Sean Krankel, chefe de jogos narrativos da Netflix e cofundador do Night School Studio. O cerne existencial do entretenimento hoje é a batalha pela atenção. Potenciais espectadores podem se perder em meros segundos na rolagem infinita de aplicativos como o TikTok. Matt Damon, cujo empreendimento Artists Equity com Ben Affleck recentemente firmou parceria com a Netflix, falou sobre como as expectativas em relação à capacidade de atenção dos espectadores em casa são menores. Damon afirma que há discussões na Netflix sobre reiterar pontos da trama "três ou quatro vezes no diálogo" para levar em conta os usuários distraídos de celulares. O roteirista Will Tavlin relatou que roteiristas que trabalham para a gigante do streaming disseram que uma observação comum dos executivos da empresa é "o personagem precisar anunciar o que está fazendo para que os espectadores vendo como segunda tela possam acompanhar". Questionado sobre esses comentários, um porta-voz da Netflix afirmou que eles não eram precisos e citou um artigo do Hollywood Reporter no qual o presidente da divisão de filmes da Netflix, Dan Lin, disse que a empresa está apenas focada em fazer "ótimos filmes" e que não existe “nenhuma fórmula ou procedimento” como aquele mencionado por Damon. Os videogames, apesar de serem uma mídia interativa, também não estão imunes à falta de atenção. O analista e diretor de estratégia do Xbox, Matt Ball, publicou um relatório em fevereiro no qual observou que os videogames estão “perdendo a guerra pela atenção” para concorrentes como o TikTok, apostas esportivas online e até mesmo o OnlyFans. A Night School criou o "Unhinged", que pode ser finalizado como um episódio de série em menos de uma hora, para ser imediatamente acessível a qualquer pessoa que não jogue videogames ou que se sinta intimidada pelas 20 horas ou mais que muitos jogos exigem de seus jogadores. Ava (Kravitz) e sua amiga Claire (Sink) decidem não abandonar seus prédios durante uma tempestade, e logo ficam sem energia. A dupla então planeja sair da cidade, até que Ava descobre um visitante indesejado em seu apartamento. É uma história de invasão domiciliar que se intensifica de maneiras perturbadoras quase que imediatamente. Os jogadores guiam Ava por um prédio escuro usando a tela sensível ao toque do telefone, mas ela também pode fazer e receber chamadas para sua lista de contatos. O telefone tem bateria e sinal, e é preciso ficar atento a eles. Após uma queda brusca, a tela de Ava trinca, o que se reflete na tela do jogador na vida real. — O celular é sua única salvação — disse o diretor do jogo, Sam Warner. — Acho que essa dependência do celular fica bem evidente. O celular do jogador funciona tanto como uma lanterna no prédio escuro quanto como a única conexão com Claire, que atua como confidente, informante e incentivadora de Ava enquanto ela tenta escapar. — Acho que essa é uma relação diferente da que muitos jogos tentam criar com um controle — afirmou Warner. Esses desenvolvedores de jogos estão intimamente cientes da natureza codependente do uso de celulares atualmente. Krankel admite que sua relação com o próprio celular não é muito boa, acrescentando que o consulta “de forma reflexiva e regular” ao longo do dia. — São muitas horas por dia, e eu gostaria de conseguir me concentrar. Ainda queremos criar coisas que amamos e que achamos que as pessoas vão amar, e provavelmente temos períodos de atenção mais curtos agora — acrescentou. Tascan afirmou que a Netflix está apenas começando a testar como incorporar o uso do celular ao tempo gasto assistindo à TV. A empresa também está buscando um caminho para o sucesso no mercado de videogames. Um relatório de 2022 constatou que aproximadamente 1% dos assinantes da Netflix jogavam seus jogos, e a empresa fechou um de seus estúdios de jogos três anos após a aquisição. — No momento, os nossos jogos na TV usam o celular como controle. Mas, no futuro, e se começarmos a usar o celular para outras atividades sociais também, para pessoas que não estão no mesmo ambiente? O quanto os jogadores querem usar o celular no jogo, ou lidar com distrações do mundo real, é uma decisão deles. — Eu realmente penso no meu celular como um portal para um mundo infernal — disse Warner. — Mas ele funciona muito bem como controle.
Netflix prepara lançamento de videogame que usa celular como controle
Com o intuito de ganhar a atenção do telespectador, o aparelho receberá chamadas, mensagens de textos e até servir como lanterna para ajudar personagem do jogo













