Redução no exame do ano passado ocorreu tanto entre alunos da rede pública quanto da privada 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 Estudantes chegam para fazer a prova no primeiro dia de Enem, em Brasília, no início de novembro: a partir de agora, por decisão do MEC, as notas dos candidatos valerão para o Sisu por até três anos — Foto: Rodrigues Pozzebom/Agência Brasil RESUMO Sem tempo? Ferramenta de IA resume para você GERADO EM: 23/06/2026 - 22:22 Média de Redação do Enem 2025 Cai com Foco em Repertório Sociocultural A média das notas de Redação do Enem 2025 caiu, com destaque para a competência exigindo repertório sociocultural dos alunos, afetando tanto escolas públicas quanto privadas. A redução foi mais acentuada na competência 2 da Redação. A prova se mostrou mais rigorosa, resultando em apenas dez notas máximas. Houve avanços em Linguagens e Ciências da Natureza, mas queda em Matemática. A partir de 2026, o Enem será usado para avaliar a qualidade do ensino no Brasil. CLIQUE E LEIA AQUI O RESUMO Os microdados do Exame Nacional de Ensino Médio (Enem) de 2025, divulgados na segunda-feira, mostram que a nota média de Redação caiu tanto para alunos da rede pública quanto da privada, puxada principalmente pela competência da prova que exige repertório sociocultural dos alunos. No primeiro grupo, a pontuação passou de 618, em 2024, para 576 no ano passado. Já entre os estudantes das instituições particulares de ensino, foi de 762 para 729, o menor nível desde 2021. Os dados foram compilados pela Arco Educação e obtidos com exclusividade pelo GLOBO. Eles mostram ainda que a rede pública teve uma nova piora na média de Matemática — a terceira seguida — e chegou ao pior patamar desde 2018, o início da série histórica analisada. Com isso, a diferença entre o desempenho da rede pública e privada voltou a aumentar, ainda que as duas tenham tido quedas na média geral das cinco provas (Redação, Matemática, Linguagens, Ciências da Natureza e Ciências Humanas). — O Enem 2025 não mostra um resultado homogêneo em todas as áreas. Há uma queda importante em Redação e em Matemática, mas, ao mesmo tempo, aparecem sinais de recuperação ou melhora em áreas como Linguagens e Ciências da Natureza. Isso é importante porque impede uma leitura simplista do tipo “os estudantes foram pior em tudo”. O quadro é mais complexo — avalia Ademar Celedônio, diretor de ensino e inovações educacionais da Arco Educação. Em janeiro, quando as notas individuais foram reveladas aos participantes, uma série de jovens acostumados com a prova reclamou de notas mais baixas na Redação. Naquele momento, não era possível ainda saber se a impressão dos candidatos se refletia nos números — o que pôde ser confirmado agora. Mudanças de regras Os microdados do Enem revelam ainda que as médias de 2025 foram as menores em todas as cinco competências — cada uma delas vale 200 pontos — analisadas pelos avaliadores da prova: 1) demonstrar domínio da modalidade escrita formal da Língua Portuguesa; 2) compreender a proposta de redação e aplicar conceitos das várias áreas de conhecimento para desenvolver o tema; 3) selecionar, relacionar, organizar e interpretar informações, fatos, opiniões e argumentos em defesa de um ponto de vista; 4) demonstrar conhecimento dos mecanismos linguísticos necessários para a construção da argumentação; 5) elaborar proposta de intervenção para o problema abordado. Em fevereiro, o g1 teve acesso a documentos que apontavam pelo menos três mudanças: regra mais aberta e menos detalhada na competência 4, sobre o uso de elementos coesivos; punição maior na competência 5, no caso de candidatos que escrevessem a proposta de intervenção sem o elemento “ação”; e ampliação do peso dado ao repertório sociocultural. De acordo com os microdados, a maior queda foi justamente na competência 2, na qual é cobrada o repertório sociocultural dos alunos. Neste ponto, a média caiu de 152, em 2024, para 136, em 2025. Antes da prova, a Cartilha do Participante para a Redação do Enem 2025, um guia oficial publicado pelo MEC, já havia alertado que era preciso cautela quanto ao uso de citações coringa — também chamado de “repertório de bolso”. Essa é uma estratégia que se popularizou nos últimos anos e consiste em memorizar uma referência genérica para utilizar em qualquer tema proposto. — Quando a redução aparece tanto na escola pública quanto na privada, isso sugere um fenômeno mais sistêmico, relacionado à prova, ao tema, à distribuição das notas e, possivelmente, à forma como a régua de correção foi aplicada naquele ano — diz Celedônio. De acordo com ele, o que causou o maior impacto foi, de fato, a prova ter sido menos tolerante com textos muito padronizados. E isso, diz o especialista, gera impactos em outros aspectos da correção. — Se o repertório não sustenta bem a tese, a argumentação fica mais frágil, o que afeta a Competência 3. Se o texto usa conectivos de forma mecânica, mas sem progressão lógica, pode afetar a Competência 4. E, se a proposta de intervenção não dialoga com o problema efetivamente desenvolvido, a Competência 5 também perde força — aponta. O Inep, responsável pela prova, diz que a Redação se tornou, ao longo do tempo, “um gênero específico” e, por ter “critérios muito bem definidos”, foram criados para a preparação dos alunos modelos pré-programados. Segundo o órgão, os avaliadores “estão mais preparados para identificar esse tipo de modelo”, o que “não significa mudanças de critérios de avaliação”. Só dez notas máximas Além de uma média menor de notas, a elite dos alunos também encolheu. Em 2025, só dez alunos conseguiram mil na redação, o máximo possível. Esse é o menor patamar da história. Em 2024, 12 pessoas conseguiram e, em 2023, foram 60. Os dados mostram ainda que as escolas públicas aumentaram o desempenho em Linguagens (de 507 para 514), Ciências da Natureza (468 para 475) e Ciências Humanas (486 para 489). A rede privada também teve avanços nas duas primeiras (560 para 573 e 541 para 543, respectivamente), mas teve leve queda na última (de 562 para 560). Já em Matemática, as escolas privadas conseguiram aumentar sua nota (de 602 para 605), enquanto as públicas tiveram a terceira queda seguida, passando de 507 para 485, entre 2022 e 2025. — Essa queda mostra duas coisas ao mesmo tempo. De um lado, uma prova possivelmente mais exigente em leitura matemática, resolução de problemas e interpretação de situações contextualizadas. De outro, um problema estrutural: muitos estudantes chegam ao ensino médio com lacunas acumuladas em fundamentos como proporcionalidade, álgebra, geometria, estatística e leitura de gráficos. A partir de 2026, a prova do Enem será usada como instrumento oficial para medir a qualidade do ensino no país. Seu resultado será usado no Sistema de Avaliação da Educação Básica (Saeb) para os indicadores do ensino médio e também como componente do Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb), que será divulgado somente em 2027. Os microdados ainda revelam as escolas com as maiores notas do país. A lista das 50 primeiras é dominada por instituições do Sudeste (23) e do Nordeste (21). Majoritariamente privadas, elas conseguiram as maiores médias considerando o mesmo peso para todas as cinco provas (Redação, Matemática, Linguagens, Ciências Humanas e Ciências da Natureza). O grupo é formado por oito escolas de Ceará, Minas Gerais e São Paulo; sete de Rio e Piauí; quatro de Pernambuco; três do Pará; e duas do Distrito Federal. Bahia, Rio Grande do Norte e Rio Grande do Sul possuem uma unidade cada. Dessas 50, apenas duas instituições são públicas, ambas ligadas a universidades federais: o Colégio de Aplicação da UFV e o Colégio Politécnico da UFSM. Algumas das escolas privadas, no entanto, apresentaram, em 2024, um número de matrículas no 2º ano do ensino médio muito maior do que no 3º ano, em 2025. Isso aponta que esses colégios podem ter selecionado um grupo de jovens com alto desempenho para conseguir destaque na lista de maiores notas do país — enquanto o restante dos alunos acaba sendo registrado em outro CNPJ. Das 50 escolas da lista, metade manteve pelo menos 90% dos alunos de um ano para o outro ou até ampliou o grupo de estudantes. Por outro lado, oito colégios têm menos de 50% do que o registrado no ano anterior. Além disso, um não tinha turmas de 2º ano em 2024 e outros dois foram abertos em 2025 apenas com turmas de 3º ano. Veja a íntegra da nota do Inep: "O Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep) consolidou, ao longo de diversas edições do Enem, um modelo de correção das provas de redação do exame que é reconhecido como um dos mais robustos do mundo. O processo de avaliação da redação do Enem utiliza um sistema de duplo-cego: dois corretores avaliam a redação sem que um conheça a nota atribuída pelo outro. Caso haja discrepância superior a 100 pontos no total ou 80 pontos em qualquer competência, a redação é automaticamente encaminhada a um terceiro avaliador independente. Se a discrepância persistir, o texto é avaliado por uma banca composta por doutores e especialistas, eliminando qualquer viés de "arbítrio pessoal". Esse procedimento garante que a nota final não seja fruto de subjetividade, mas de uma convergência técnica consistente e consolidada. Ademais, os avaliadores, selecionados em chamada pública, são professores especialistas na área e recebem, antes da aplicação da prova, curso de capacitação específica, inclusive para as áreas de atendimento especializado (dislexia, surdez, transtorno do espectro autista). Os critérios e as regras adotados na correção da prova de redação do Enem 2025 são os mesmos empregados ao longo dos anos e permanecem estruturados com base na matriz de referência e nas cinco competências amplamente divulgadas, observando-se rigorosamente os parâmetros pedagógicos, metodológicos e operacionais previstos nos instrumentos oficiais do exame. Esta isonomia da correção ao longo dos anos é que garante a comparabilidade das notas. Vale indicar, ainda, que a redação do Enem acabou se tornando, ao longo do tempo, um gênero específico. O fato de haver critérios muito bem definidos para sua avaliação acaba tornando-a suscetível de ser abordada, na preparação dos estudantes para a realização do exame, a partir do uso de modelos pré-programados. Os avaliadores, ao longo do tempo, também estão mais preparados para identificar esse tipo de modelo e a lidar com ele na avaliação dos diferentes critérios de correção, o que não significa mudanças de critérios de avaliação. É algo importante e desejável para a valorização da autoria dos examinandos em relação aos seus textos."
Média de notas na Redação do Enem cai em 2025 após maior rigor com repertório cultural
Redução no exame do ano passado ocorreu tanto entre alunos da rede pública quanto da privada









