Estratégia mira estradas, ferrovias e comboios militares a mais de 160 quilômetros da linha de frente e já afeta o fornecimento de combustível e suprimentos às forças russas 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 Soldados se preparam para lançar drones contra alvos na Rússia a partir de um local não revelado na Ucrânia, no mês passado — Foto: Brendan Hoffman / The New York Times RESUMO Sem tempo? Ferramenta de IA resume para você GERADO EM: 23/06/2026 - 16:52 Ucrânia intensifica ataques logísticos contra Rússia usando drones aprimorados A Ucrânia intensifica ataques a estradas e ferrovias estratégicas, visando um "bloqueio logístico" à Rússia. Utilizando drones aprimorados, Kiev afeta o fornecimento de combustível e suprimentos às forças russas, dificultando sua atividade militar. A estratégia marca uma nova fase no conflito, com ofensivas coordenadas que atingem tanto a linha de frente quanto o interior russo. Apesar dos avanços, desafios persistem, com preocupações sobre o impacto humanitário e a necessidade de expandir a produção de armamentos. A campanha tem mostrado eficácia na região sul, especialmente na Crimeia, onde a geografia favorece a Ucrânia. CLIQUE E LEIA AQUI O RESUMO Primeiro, a Ucrânia montou um arsenal de milhões de drones que, somado ao aumento da produção russa, transformou uma faixa de cerca de 40 quilômetros ao longo da linha de frente em uma zona de morte. Depois, ampliou seu alcance para o interior da Rússia, atingindo infraestrutura petrolífera e fábricas militares, tornando a guerra de longo alcance uma via de mão dupla. Agora, o país concentra seus esforços em uma área intermediária: as estradas e ferrovias estratégicas que abastecem as tropas russas e transportam equipamentos para o campo de batalha, em alguns casos a mais de 160 quilômetros da linha de frente. Kiev chama a iniciativa de "bloqueio logístico". Segundo autoridades e analistas, a estratégia vem remodelando sistematicamente o campo de batalha — pelo menos até que as forças russas encontrem uma forma de se adaptar. A Ucrânia tem causado estragos em caminhões sem blindagem e trens que operam na retaguarda do front, utilizando drones equipados com motores e baterias aprimorados, sistemas de comunicação integrados da Starlink e novos recursos de inteligência artificial. O aumento dos ataques tem provocado escassez de combustível, dificultado a rotação de tropas e reduzido a atividade militar russa na linha de frente. Maio foi o primeiro mês desde 2023 em que a Rússia registrou perda líquida de território, segundo o grupo de pesquisa ucraniano DeepState. Recentemente, o principal comandante militar da Ucrânia, o general Oleksandr Syrsky, afirmou que as forças ucranianas recuperaram em maio quase 100 quilômetros quadrados a mais do que perderam. Os ataques à logística russa fazem parte de uma campanha coordenada e multifacetada que abrange tanto a "zona de morte" próxima à linha de frente quanto a área intermediária de reabastecimento em territórios ocupados pela Rússia e locais situados profundamente dentro do território russo, onde a Ucrânia atingiu instalações responsáveis pela produção de tecnologias militares essenciais. — É isso que há de novo, e é isso que realmente está prejudicando os russos — afirma Mick Ryan, pesquisador do Lowy Institute. A estratégia tem dificultado que Moscou ganhe impulso no campo de batalha. Até o momento, as ofensivas de primavera e verão da Rússia não produziram resultados significativos. Guerra dos drones Soldados do 1º Centro Separado de Sistemas Aéreos Não Tripulados se preparam para lançar drones Dragon contra um alvo na Rússia, no mês passado — Foto: Brendan Hoffman / The New York Times Segundo autoridades ucranianas, o país produz tantos drones em suas próprias fábricas que agora é capaz de realizar mais de 5 mil ataques de médio e longo alcance por mês. Na primeira semana de junho, o ministro da Transformação Digital da Ucrânia, Mykhailo Fedorov, afirmou que as forças ucranianas realizaram no mês passado o dobro de ataques a mais de 50 quilômetros da linha de frente em comparação com abril. O Instituto para o Estudo da Guerra (ISW, na sigla em inglês), sediado em Washington, avaliou recentemente que esses ataques estão ajudando a levar o conflito a uma nova fase. Segundo pesquisadores do centro de estudos, à medida que a Ucrânia emprega sistemas capazes de interromper operações russas em profundidade, surge uma "oportunidade única e limitada no tempo" para lançar ofensivas mecanizadas, algo que se tornou extremamente difícil devido à ameaça dos drones. Jack Watling, pesquisador do Royal United Services Institute, escreveu na revista Foreign Affairs que a guerra atingiu um ponto de inflexão, argumentando que a piora do desempenho russo no campo de batalha pode abrir espaço para pressionar Moscou a aceitar um cessar-fogo. Em um campo na Ucrânia, no fim do mês passado, o comandante do 2º Batalhão do 1º Centro Separado de Sistemas Aéreos Não Tripulados afirmou que era fundamental aproveitar o momento, já que a vantagem tecnológica da Ucrânia pode não durar para sempre. — Enquanto durar, a principal ideia é fazer a Rússia realmente sentir a guerra, mostrar que a distância não garante segurança — destacou o comandante, identificado apenas pelo codinome Whale, conforme protocolo militar ucraniano. Enquanto falava, soldados escreviam mensagens de vingança nas asas de uma dúzia de drones carregados com explosivos termobáricos. No dia seguinte, o Estado-Maior da Ucrânia anunciou ataques bem-sucedidos contra refinarias de petróleo, depósitos e sistemas de defesa aérea russos, tanto em território da Rússia quanto em áreas ocupadas da Ucrânia. Desafios persistem Apesar do momento considerado promissor por Kiev, os desafios permanecem significativos. A Rússia continua devastando cidades no leste da Ucrânia que formam a espinha dorsal da defesa da região do Donbass, a mais cobiçada pelo Kremlin. Após uma intensa campanha de ataques contra a infraestrutura energética ucraniana durante o inverno, cresce a preocupação com uma possível catástrofe humanitária caso a guerra avance para mais um inverno rigoroso. Recentemente, o presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky, alertou que os estoques de interceptadores do sistema de defesa aérea Patriot estão em níveis críticos e que Moscou tem explorado essa vulnerabilidade para bombardear Kiev e outras cidades. Soldados do 1º Centro Separado de Sistemas Aéreos Não Tripulados se preparam para lançar drones Dragon contra um alvo na Rússia, no mês passado — Foto: Brendan Hoffman / The New York Times Militares ucranianos afirmam que a capacidade do país de manter o atual ritmo de operações depende da continuidade da expansão da produção de armamentos. Fedorov anunciou em maio um investimento superior a US$ 113 milhões (aproximadamente R$ 583 milhões) para desenvolver armas destinadas à campanha de "bloqueio logístico". De forma mais ampla, países europeus destinaram neste ano US$ 1,63 bilhão (cerca de R$ 8,41 bilhões) à produção de drones na Ucrânia, valor superior ao destinado durante todo o ano de 2025, segundo o Instituto Kiel, centro de pesquisa alemão. Foco na Crimeia A campanha contra a logística russa tem apresentado seus resultados mais visíveis na frente sul, onde a geografia favorece a Ucrânia. A região inclui a chamada ponte terrestre que liga a Rússia à Crimeia ocupada, e Moscou depende de aproximadamente 300 quilômetros de rodovias expostas para abastecer suas tropas. No início deste mês, os militares ucranianos afirmaram ter estabelecido controle aéreo sobre um trecho dessa rota, dificultando significativamente o fornecimento de combustível e suprimentos para as forças russas na Crimeia. A única outra ligação entre a Rússia e a Crimeia é a Ponte de Kerch, alvo recorrente de ataques ucranianos. No início deste ano, a Ucrânia elaborou um plano para isolar as forças russas, segundo o comandante das forças de sistemas não tripulados do 1º Corpo de Exército Azov. Na primavera do Hemisfério Norte, ele afirmou ter conseguido observar a cidade ocupada de Mariupol, a mais de 100 quilômetros da linha de frente, por meio das câmeras de um drone pilotado. Os ucranianos adaptaram um drone conhecido como Hornet para atingir a logística russa. Como esses aparelhos transportam cargas explosivas relativamente pequenas, não conseguem destruir depósitos fortificados ou subterrâneos de munição. Diferentemente de mísseis e bombas, porém, eles são controlados por pilotos, permitindo que operadores da brigada Azov atinjam caminhões e trens sem blindagem.