O antigo líder do PSD Rui Rio admitiu a possibilidade de entendimentos com o Chega e deixou críticas duras ao funcionamento da justiça, alertando para aquilo que descreve como uma degradação institucional e uma “normalização do abuso”, numa entrevista à RTP Notícias, esta manhã de terça-feira.Questionado sobre eventuais alianças políticas que teria feito se fosse, neste momento, líder do PSD, Rui Rio afirmou que a lógica de governação deve partir do respeito pelos resultados eleitorais e da negociação entre forças políticas.“O que teria feito depende de diversos factores. Em tese, é o que um primeiro-ministro deve fazer, respeitar os resultados eleitorais”, afirmou, acrescentando que a mesma lógica se aplica aos restantes partidos. “Se eu estou na oposição devo respeitar o que o povo quis e devo colaborar com ele em tudo aquilo que for bom para o país”.Sobre se negociaria com o Chega, foi directo: “Claro. Se todos estiverem imbuídos do interesse nacional, eu tenho de negociar na proporção que o povo quer com quem quer que seja para chegar ao interesse nacional”, criticando a lógica de exclusão partidária. “Se eu agora começo a dizer que com o A não, com o B não, ficamos nisto, como estamos há anos e anos e vai dar mau resultado”, defendeu.O antigo líder do PSD esteve na RTP enquanto subscritor do “Manifesto dos 50”, que defende prazos obrigatórios para magistrados e denuncia a lentidão processual. “Desde que nós fizemos um manifesto há dois anos, nem piorou nem melhorou, normalizou. O Ministério Público vai fazendo como quer e lhe apetece e quase não há reacção”, criticou Rio.Sobre as recentes alterações legislativas aprovadas ao Códigos Penal e de Processo Penal e ao Regulamento das Custas Processuais, Rio é contundente: “Mais valia terem ficado quietos. Porque às vezes é pior quando não se sabe ou quando não se está de boa-fé. Esta gente que não faz reformas, quando faz qualquer coisa, chama-lhe reforma”.Rui Rio apontou ainda o que considera ser uma degradação do sistema judicial na sua eficácia e celeridade: “O Ministério Público arrasta um ano, dois, dez, 15 anos. E os tribunais a mesma coisa”. E questionou: “Porque é que os processos prescrevem? Porque é que os processos não saem do sítio?”.No plano político mais amplo, afirmou que o país está a falhar nas prioridades estruturais: “A justiça está pior hoje do que estava no 25 de Abril”, disse, acrescentando que os cidadãos enfrentam hoje maiores dificuldades no acesso à justiça do que no período pré-revolução.O antigo autarca do Porto defendeu ainda que Portugal precisa de uma “transformação profunda” centrada em três áreas: justiça, sistema político e reforma do Estado. “Para mim são as três áreas fundamentais”, sublinhou. “Estamos a assistir ao fim do regime”, afirmou, defendendo que o problema não é de um governo específico, mas de um sistema político mais amplo e da falta de reformas estruturais consistentes.