Artificial, filme de Luca Guadagnino sobre Sam Altman, CEO da OpenAI, já não será distribuído pela Amazon, que estava no projecto desde o início. Ora agora nem pela Netflix, nem pela Warner Bros. nem pela Focus Features ou A24, segundo noticiaram domingo as revistas The Hollywood Reporter e Variety. O filme está a atrair atenções, não pelos melhores motivos, e parece ser um forte repelente para as grandes empresas tecnológicas. Na corrida para o filme protagonizado por Andrew Garfield, e que está quase terminado, estarão ainda a Neon e a Mubi – baluartes do actual cinema independente americano.As revistas não apuraram os motivos pelos quais a Netflix e a Focus vieram também agora recusar distribuir um filme do cineasta italiano a quem pertencem sucessos como Challengers ou Chama-me pelo Teu Nome. Artificial é sobre um testa-de-ferro das big tech que tem o nome inscrito na história da preocupante revolução da inteligência artificial (IA) – o envolvimento com as grandes tecnológicas, cuja liquidez mudou o rosto de Hollywood, é tentacular.O filme conta ainda com Ike Barinholtz como Elon Musk e não é difícil estabelecer dois paralelos sobre ele. Sobretudo sabendo que Artificial já foi mostrado em alguns visionamentos privados a estes distribuidores depois da mudança de planos da Amazon e terá sido bem recebido.O primeiro, puramente cinematográfico, é ser o olhar de um cineasta marcante sobre um fundador das empresas que dominam a vida mundial desde o final do século XX. A Rede Social, de David Fincher, continua a ser o filme de referência nesta espécie de categoria, e o retrato que fez de Mark Zuckerberg, (um dos) fundador(es) do Facebook, hoje Meta, impede que o 5.º homem mais rico do mundo, por mais remakes que faça da sua aparência e narrativa, deixe de ser o miúdo desajeitado e despeitado na cultura popular. A Amazon MGM Studios tinha já distribuído dois filmes de Guadagnino, Challengers (2024) e Depois da Caçada (2025).O segundo é político e financeiro. Em Fevereiro, a Amazon e a OpenAI uniram-se numa “parceria estratégica”, no âmbito da qual a Amazon investirá 50 mil milhões de dólares na empresa que criou o ChatGPT. A Amazon MGM Studios financiar e exibir este filme, que seguramente terá críticas ou pelo menos lados “não-oficiais” a expor sobre Altman ou sobre o primeiro trilionário do mundo, Elon Musk, tornou-se um anátema. E, por isso, a Amazon diz estar a “trabalhar de forma próxima com a produção para encontrar uma nova casa”, como citava o site Puck na sexta-feira.Ainda neste campo, Altman e Jeff Bezos, o 4.º homem mais rico do mundo, são próximos (Altman foi ao casamento de Bezos em 2025) e a ideia de o filme recuar a 2023, quando Altman saiu e reentrou na sua própria empresa após um golpe para o afastar, poderia não dar muita saúde às parcerias entre as duas empresas e os dois multimilionários. Quanto a Bezos e ao Presidente Donald Trump, foi a Amazon que deu carta-branca à reentrada do realizador Brett Ratner, acusado de vários crimes de agressão sexual no pico do movimento #MeToo, para que este realizasse o título Melania, sobre a primeira-dama e alvo de chacota mundial pela sua natureza hagiográfica e fútil.Este filme não sofrerá do mesmo mal, sendo avançado pela Variety, citando fontes presentes nos visionamentos dos últimos dias, por retratar Altman como “mentiroso patológico” e Musk como “muito antipático”.Há ainda o caso da Warner, que se ainda não está formalmente dentro da Paramount Skydance de David Ellison, verá a sua aquisição concretizar-se em breve. Ellison, filho de Larry Ellison (o 6.º homem mais rico do mundo, já que estamos a fazer a contagem), tem feito, com o pai, parte da corte não oficial de Trump e foi neste mandato do Presidente que a Skydance adquiriu a Paramount de uma penada. As mudanças de índole ideológica na Paramount e canais que detém, bem como de futuro na Warner, têm já precedentes em algumas mexidas chave nos activos do estúdio de Missão: Impossível, de viés conservador.No fim de contas, é tudo uma questão de risco. A A24, um dos pequenos grandes estúdios de cinema e televisão dos últimos anos, também tem. A Thrive Capital do genro de Trump, Jared Kushner, é uma das investidoras da A24, e também da OpenAI, onde Kushner tem assento no conselho de administração.