Lamine Yamal chegou, viu e marcou na Copa do Mundo 2026 — apenas 10 minutos depois de fazer sua primeira partida como titular. O gol contra a Arábia Saudita neste domingo fez dele o oitavo jogador mais jovem a marcar na história da competição, superando Lionel Messi por 14 dias. “É o gol mais importante que marquei até agora”, disse aos canais oficiais da seleção espanhola nas redes sociais no intervalo da partida, que terminou com uma tranquila vitória por 4 a 0 sobre os rivais sauditas. O estádio Mercedes-Benz ainda não havia rugido daquela forma neste Mundial. Depois de comemorar com os companheiros, Yamal se ajoelhou e beijou o gramado. Reservou um momento para si, rezou por alguns segundos e depois apontou para o céu de Atlanta. Havia felicidade, mas também um enorme sentimento de alívio e realização naquele ritual. Quem acompanhou Yamal de perto nos últimos meses voltou imediatamente ao fim de abril, quando temeu que esse sonho pudesse ter acabado antes mesmo de começar. Participar da Copa do Mundo era o maior objetivo do encerramento da temporada do jogador de 18 anos — mas esse sonho ficou seriamente ameaçado quando ele sofreu uma ruptura no tendão da coxa no dia 22 de abril. A lesão ocorreu na partida da La Liga entre o Barcelona e o Celta de Vigo. Recuperação após lesão Yamal sentiu um desconforto na coxa esquerda logo no início do jogo, mas continuou em campo sem saber a gravidade do problema. Então, ao converter um pênalti, sofreu um espasmo muscular. Caiu no chão em grande sofrimento. Deixou o estádio de Camp Nou com a perna envolta em gelo e, no dia seguinte, o clube marcou um exame de ultrassom para determinar a extensão da lesão. Ele foi acompanhado por amigos próximos e alguns de seus representantes. O pior cenário possível era uma ruptura da musculatura posterior da coxa com comprometimento do tendão — uma lesão que exigiria cirurgia e o tiraria da Copa do Mundo. Enquanto os exames eram realizados, o médico foi explicando a situação a Yamal e sua equipe. Havia, de fato, uma ruptura, mas localizada sete centímetros abaixo do tendão superior do músculo. Fontes presentes na sala — que falaram sob anonimato por não terem autorização para comentar publicamente, assim como outras consultadas para esta reportagem — lembram do alívio imediato ao ouvir aquele diagnóstico. A participação de Yamal na Copa não estava ameaçada. Mesmo assim, ele precisaria seguir um plano de recuperação extremamente rigoroso, não apenas para voltar a jogar, mas também para chegar ao torneio em boas condições físicas. Corrida contra o tempo Menos de uma semana após a lesão, um executivo do Barcelona encontrou Yamal no centro de treinamento. O jovem nem deveria estar ali, já que ainda não podia apoiar peso sobre a perna lesionada. O dirigente perguntou o motivo da visita. Yamal respondeu que havia ido iniciar os trabalhos na academia, embora naquele momento pudesse treinar apenas a parte superior do corpo. Naquela altura, pessoas próximas ao Barcelona e ao estafe do jogador eram pessimistas sobre suas chances de atuar na estreia da Espanha contra Cabo Verde, em 15 de junho. A expectativa mais otimista era que ele jogasse apenas alguns minutos, saindo do banco, na segunda partida, diante da Arábia Saudita. Yamal, porém, tinha outros planos. Pessoas próximas admitem que foi difícil conter sua vontade de voltar rapidamente. Uma figura essencial nesse processo foi o fisioterapeuta Fernando Galán, que trabalha tanto com o Barcelona quanto com a seleção espanhola e atualmente está nos Estados Unidos com a equipe nacional. Galán mora em Madri, mas atua como consultor do Barcelona. Quando Yamal se lesionou, mudou-se temporariamente para Barcelona para acompanhar de perto cada etapa da recuperação. Ele esteve ao lado do atacante diariamente no centro de treinamento. Galán incentivava o otimismo de Yamal e o estimulava a cumprir rigorosamente todo o trabalho necessário na sala de fisioterapia. O acompanhamento foi complementado por visitas frequentes da equipe médica da Federação Espanhola. No dia 18 de maio, médicos da seleção foram vistos pela imprensa local entrando no centro de treinamento do Barcelona para avaliar Yamal. Fontes da federação disseram que aquela não havia sido a primeira visita e que os médicos compareciam mais de uma vez por mês para acompanhar sua evolução. Yamal iniciou trabalhos leves no gramado cerca de 15 dias após a lesão e, conforme os dias passavam, percebia que sua recuperação avançava rapidamente. Essas mesmas fontes evitavam estabelecer um prazo específico para o retorno, preferindo aguardar novas avaliações presenciais. Barça x seleção A preparação da Espanha para a Copa começou em 30 de maio, no centro de treinamentos da seleção, nos arredores de Madri. Barcelona e seleção espanhola já haviam entrado em conflito por causa de Yamal nesta temporada. Em setembro, o técnico do Barcelona, Hansi Flick, culpou a seleção pela lesão na virilha sofrida pelo atacante durante partidas das eliminatórias da Copa. Segundo Flick, o jogador chegou à concentração já com um problema físico, não completou um treino inteiro e tomou analgésicos para atuar contra Bulgária e Turquia. A Espanha venceu ambos os jogos com tranquilidade. Fontes da Federação Espanhola disseram ter ficado surpresas com as declarações do treinador e afirmaram que o Barcelona jamais comunicou qualquer problema físico do atleta. Desta vez, assim que Yamal completou seu primeiro treino nos Estados Unidos, todos no Barcelona já sabiam que ele atuaria diante de Cabo Verde. Essa partida aconteceu apenas 54 dias após a lesão na coxa, e Yamal entrou aos 25 minutos do segundo tempo. Pessoas familiarizadas com a situação, tanto no Barcelona quanto na seleção espanhola, acreditam que, além do intenso trabalho realizado e do acompanhamento médico constante, a genética de um atleta tão jovem também contribuiu para acelerar sua recuperação. Os companheiros de equipe destacam sua maturidade. O capitão da Espanha, Rodri, revelou antes da estreia que Yamal pediu para ser dispensado de um jantar da equipe para permanecer no hotel dando continuidade ao tratamento. Nico Williams também elogiou o companheiro. “Vejo nele uma maturidade enorme. A evolução e a mudança que teve em dois anos desde a Euro são impressionantes”, disse à rádio Cadena SER. Antes do jogo contra a Arábia Saudita, Yamal foi o primeiro a reconhecer que ainda não estava pronto para atuar durante os 90 minutos. “O plano era jogar apenas metade da partida e depois descansar”, afirmou à DAZN após o jogo. “Mas, acima de tudo, ajudar a equipe. A partida aconteceu exatamente como queríamos. Diferente da primeira". "É algo muito especial. Sempre sonhei em disputar uma Copa do Mundo. Marcar no meu primeiro jogo como titular é um sonho. A última Copa eu assisti na escola. Então estar aqui agora é algo gigantesco. Estou orgulhoso, assim como minha mãe e toda a minha família.” Lamine Yamal finalmente chegou ao maior palco do futebol mundial — e sua missão na Copa está longe de terminar.