A Argentina chegou ao Mundial e de imediato se afirmou como uma selecção que pode, com toda a naturalidade, ser bicampeã. Um 3-0 à Argélia, com três golos de Lionel Messi, e a sensação de que os anos passam e a “Pulga” continua a ser, de longe, o melhor da sua equipa – tal como fora há quatro anos, no Qatar. Mesmo com o pai Jorge debilitado por problemas de saúde, Messi consegue ter a clarividência para continuar a liderar a Argentina neste Mundial 2026. A Áustria é o adversário que se segue no Grupo J (18h, SPTV1), num jogo que está marcado para o AT&T Stadium, em Dallas – tanto cidade, como adversário têm significado histórico para os argentinos e com um ponto em comum, Diego Armando Maradona.Há 32 anos, a 30 de Junho de 1994, a Argentina tinha o seu terceiro e último jogo da fase de grupos em Dallas, frente à Bulgária. No relvado, estava tudo a correr bem – 4-0 à Grécia, com três de Gabriel Batistuta e um de Maradona, 2-1 à Nigéria, com dois de Claudio Caniggia. Fora de campo, não foi tanto assim. Antes de defrontar os búlgaros, a selecção argentina já tinha sofrido um terremoto de consequências gigantescas – Maradona estava fora do Mundial, por um controlo antidoping positivo. Após o jogo com a Nigéria, Maradona foi o escolhido para o controlo e, aparentemente, não estava preocupado com isso, pela forma como abandonou o relvado do Boston Stadium, acompanhado por uma enfermeira, para o controlo.A amostra recolhida de urina revelou a presença de efedrina, o que tirava Maradona do Mundial. Mas ainda havia a contra-análise e, já no hotel em Dallas onde a selecção estava concentrada, Maradona recebeu a notícia durante a noite de que o resultado não se havia alterado. A Argentina seguiu para o estádio, onde iria perder por 2-0, enquanto Maradona ficou no hotel e deu uma entrevista a dizer que lhe “cortaram as pernas”. “El Pibe” sempre disse que a culpa era de um suplemento que, no EUA, tinha efedrina, ao contrário da versão argentina.“Jogou, venceu, mijou, perdeu”, resumiu Eduardo Galeano sobre Maradona no Mundial 1994 que seria de má memória para a Argentina. Depois da derrota com os búlgaros, essa selecção de Alfio Basile não sobreviveu à Roménia nos oitavos-de-final – 3-2 para os romenos. E Maradona não voltaria a usar o 10 da Argentina.Não é só a cidade que evoca memórias de Diego Maradona a propósito do Argentina-Áustria de hoje. Em 1980, Maradona tinha apenas 19 anos quando as duas selecções se defrontaram em Viena num particular. Nas bancadas do Ernst Happel, milhares de refugiados argentinos exibiam tarjas a perguntar à ditadura do General Videla “Onde estão os 20 mil desaparecidos?” – e como o jogo foi transmitido em directo na Argentina, a censura não conseguiu cortar estas imagens. Quanto a Maradona, marcou três no triunfo argentino por 5-1, o único “hat trick” de Diego pela selecção – Messi, com os três que marcou à Argélia, já o fez por dez vezes.Vitória a abrirNinguém tem ligado muito aos austríacos neste Mundial 2026, mas a verdade é que eles fizeram o seu trabalho e ganharam na primeira jornada neste seu regresso ao torneio 28 anos depois. A selecção orientada por Ralf Rangnick teve algumas dificuldades, mas conseguiu bater a estreante Jordânia por 3-1 e ter estes três pontos no bolso já é meio caminho andado para chegar aos 16 avos-de-final e para não entrar em pânico caso perca com a Argentina. Mas perder com Messi e companhia não está nos planos dos austríacos, mesmo que sejam os campeões do mundo.“Se são os actuais campeões do mundo, são os melhores, e Messi é o melhor do mundo. É sempre bom jogar contra jogadores deste calibre e perceber como é que nos comportamos contra eles, se somos realmente bons. Claro que queremos mostrar o que queremos fazer”, diz o médio Konrad Laimer, um dos muitos jogadores (17) do Bayern Munique neste Mundial.Se agora a Áustria está numa espécie de “segunda linha” nas selecções europeias, já houve um tempo em que era das melhores da Europa. A primeira vez que participou num Mundial, em 1934, chegou às meias-finais, depois de abater a França e a Hungria, mas a equipa que ficou conhecida como a “Wunderteam” acabaria por perder a sua meia-final com a Itália – e também perdeu o jogo do terceiro lugar com a Alemanha.Já depois da II Guerra Mundial, no Mundial de 1954, ganhou à Escócia e à Checoslováquia na fase de grupos e ainda eliminou a Suíça nos quartos-de-final por 7-5, até hoje o jogo com mais golos de um Mundial. Voltou a perder com a Alemanha nas “meias”, mas venceu o Uruguai no jogo do terceiro lugar, naquela que foi a sua melhor classificação em sete presenças.
Argentina-Áustria: os fantasmas de Dallas e o “hat trick” único
Há 32 anos, a “albiceleste” jogou na cidade texana durante o Mundial 1994 e perdeu com a Bulgária, depois de já ter perdido Diego Maradona por doping.











