As regras mais rígidas já adotadas pela China para investimentos no exterior começam a provocar efeitos nos setores financeiro e imobiliário de Hong Kong, colocando em xeque a posição da cidade como o maior centro mundial de gestão de riqueza transfronteiriça. A mais recente ofensiva das autoridades chinesas tem como foco operações irregulares de negociação de ações por meio de corretoras estrangeiras e levanta dúvidas sobre a continuidade do fluxo de recursos da China continental para Hong Kong. Ao longo dos últimos anos, a movimentação de capital de investidores chineses para Hong Kong e outros mercados internacionais tornou-se uma importante fonte de receita para bancos, seguradoras, gestoras de patrimônio e também para o setor imobiliário local. Segundo a consultoria Boston Consulting Group (BCG), o volume de riqueza transfronteiriça administrada em Hong Kong cresceu 10,7% em 2025, alcançando US$ 2,9 trilhões e superando a Suíça. O avanço foi impulsionado principalmente pelos recursos vindos da China continental e pela atividade de ofertas públicas iniciais (IPOs). Embora a nova repressão não tenha como alvo direto bancos e seguradoras, muitas dessas instituições passaram a adotar medidas preventivas. Algumas endureceram os critérios para abertura de contas e passaram a exigir declarações de clientes afirmando que os recursos não têm origem na China continental. Em resposta ao aumento da fiscalização por parte de Pequim, os reguladores financeiros de Hong Kong alertaram para “deficiências significativas nos procedimentos de diligência” adotados por bancos e corretoras durante a abertura de contas. Em relatório publicado em 11 de junho, a consultoria Gavekal Dragonomics afirmou que a ofensiva contra as corretoras provavelmente representa apenas o começo e também serve como alerta para bancos, seguradoras e para o amplo mercado informal que atende famílias chinesas em busca de investimentos no exterior. As preocupações já afetam os mercados. As ações da seguradora AIA Group acumulam queda superior a 7,8% desde o início de junho, diante do receio de que os novos negócios gerados por visitantes chineses em Hong Kong — responsáveis por cerca de metade das vendas locais da empresa — sejam prejudicados. Os papéis do HSBC e do Standard Chartered também recuaram no começo do mês, embora tenham recuperado parte das perdas posteriormente. Gestão de patrimônio A demanda de chineses por seguros vendidos em Hong Kong cresceu nos últimos anos em razão dos juros extremamente baixos na China e das opções limitadas de investimento disponíveis no mercado doméstico. Dados da Autoridade de Seguros mostram que o setor segurador de Hong Kong expandiu-se 29,7% em 2025, atingindo o recorde de HK$ 827 bilhões (US$ 105,6 bilhões). Os prêmios de seguros individuais de vida e saúde avançaram 50%, para HK$ 312,1 bilhões (US$ 40 bilhões). Atualmente, não há restrições para que cidadãos chineses comprem seguros em Hong Kong, desde que estejam fisicamente na cidade ao assinar os contratos. No início deste mês, a seguradora francesa AXA anunciou o lançamento de uma nova plataforma de atendimento a clientes de alta renda na Ásia, tendo Hong Kong como base estratégica. A empresa afirmou não esperar impactos imediatos das novas restrições, argumentando que os patrimônios de seus clientes mais ricos já são amplamente diversificados internacionalmente. Harry Yu, consultor de famílias de altíssimo patrimônio e sócio sênior da Fung, Yu & Co., afirmou que a nova ofensiva regulatória gerou incerteza entre seus clientes. Segundo ele, muitos tentam entender se as medidas sinalizam um endurecimento mais amplo no acesso de indivíduos chineses a investimentos internacionais. Assim como as seguradoras, os bancos de Hong Kong apostaram durante anos no crescimento da riqueza da classe alta chinesa e na demanda por serviços de gestão patrimonial. Durante muito tempo, cidadãos da China continental puderam abrir contas bancárias em Hong Kong de forma legal, presencialmente ou até remotamente. Embora as transferências ao exterior sejam limitadas a US$ 50 mil por pessoa, tornou-se comum o uso de cotas de familiares e amigos para enviar volumes significativamente maiores de recursos. A Gavekal destaca que o sistema bancário de Hong Kong funciona como ponto de partida para a maior parte das operações financeiras offshore. Na prática, possuir uma conta bancária na cidade é requisito para abrir conta em muitas corretoras internacionais. Em 2021, os reguladores aprovaram um programa de integração para gestão de patrimônio que permite a cada investidor aplicar até 3 milhões de yuans (US$ 444 mil) em produtos transfronteiriços. O sistema foi desenhado para evitar saídas permanentes de capital e opera em circuito fechado. Mesmo assim, existem diversas limitações. O programa é restrito aos moradores da chamada Grande Baía, região que reúne cerca de 6% da população chinesa. Além disso, o limite agregado para investimentos em direção a Hong Kong é de 150 bilhões de yuans. Uma vez atingido esse teto, novas aplicações só podem ocorrer após resgates ou vendas de ativos existentes. Imóveis As preocupações também chegaram ao mercado imobiliário. Após anos de fraqueza, o setor vinha mostrando recuperação graças à demanda de compradores da China continental. Dados do registro de imóveis analisados pela Midland Realty mostram que investidores chineses adquiriram imóveis novos e usados no valor recorde de HK$ 42,7 bilhões (US$ 5,5 bilhões) durante o primeiro trimestre de 2026, alta de 52,6% em relação ao mesmo período do ano anterior. Segundo Carlos Casanova, economista-chefe para Ásia da Union Bancaire Privée, a compra de imóveis sempre foi uma das formas mais simples de transferir patrimônio para fora da China. Além disso, muitas famílias são atraídas pela ausência de controles de capital em Hong Kong e pela possibilidade de acesso facilitado a universidades chinesas sem a necessidade de prestar o altamente competitivo exame nacional Gaokao. Casanova acrescenta que a recuperação recente dos preços também atrai investidores em busca de ganhos de capital após anos de queda no mercado. Para incentivar profissionais chineses a se estabelecerem na cidade e adquirirem imóveis, o governo eliminou o imposto de selo para participantes do programa Top Talent Pass que realizarem sua primeira compra imobiliária. Desde o lançamento da iniciativa, no fim de 2022, mais de 120 mil candidatos — em sua maioria oriundos da China continental — receberam vistos até o fim de 2025. No ano passado, o governo também reduziu de HK$ 50 milhões (US$ 6,4 milhões) para HK$ 30 milhões (US$ 3,8 milhões) o valor mínimo exigido pelo programa de visto para investidores. Compras de imóveis de até HK$ 10 milhões (US$ 1,3 milhão) passaram a contar para esse total. Hong Kong vem ampliando seu papel como ponte entre a China e os mercados internacionais, beneficiada pela livre circulação de capitais e pela paridade cambial de sua moeda com o dólar americano. No entanto, esse crescimento sempre dependeu do grau de tolerância de Pequim em relação ao volume de recursos que ingressa no território. Recentemente, a China lançou um novo marco regulatório para investimentos internacionais realizados por indivíduos e aumentou a fiscalização sobre tecnologias consideradas estratégicas. Também cresceu o escrutínio sobre empresas chinesas listadas na bolsa de Hong Kong. Embora o número de IPOs de companhias chinesas tenha aumentado desde o ano passado, as autoridades passaram a examinar mais atentamente as estruturas societárias utilizadas para captar recursos internacionais. Segundo Harry Yu, o foco imediato das autoridades parece estar nos canais de acesso pouco supervisionados ou não autorizados, e não em uma rejeição generalizada ao planejamento patrimonial offshore. Ainda assim, ele observa que algumas famílias podem ampliar relações com centros financeiros como Singapore, Switzerland e Dubai. Isso, porém, não significa abandonar Hong Kong. Na sexta-feira (19), as corretoras chinesas Futu, Tiger Brokers e Longbridge — alvo da mais recente ofensiva regulatória — informaram que seus clientes da China continental não poderão mais transferir recursos para as contas, abrir novas posições ou ampliar investimentos já existentes. O regulador chinês prometeu eliminar essas operações consideradas irregulares em até dois anos. Antes da repressão, analistas estimavam que ativos entre HK$ 200 bilhões e HK$ 250 bilhões (US$ 25,6 bilhões a US$ 32,1 bilhões, aproximadamente) em Hong Kong poderiam ser afetados pelas medidas contra as corretoras.
Repressão de Pequim a investimentos offshore ameaça setor financeiro em Hong Kong
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