O presidente da Ucrânia, Volodymyr Zelensky, devolveu à Polônia a Ordem da Águia Branca, a mais alta condecoração estatal do país, depois que o presidente polonês, Karol Nawrocki, decidiu retirar a honraria em meio a uma disputa politicamente carregada sobre a memória da Segunda Guerra Mundial. A condecoração havia sido concedida a Zelensky em 2023 pelo então presidente Andrzej Duda, em reconhecimento a serviços prestados à segurança, à resiliência e à defesa dos direitos humanos. A crise foi deflagrada depois que Kiev decidiu batizar uma unidade militar ucraniana em homenagem ao Exército Insurgente Ucraniano, conhecido pela sigla UPA, organização paramilitar que atuou nas décadas de 1940 e 1950 e é acusada pela Polônia de massacres contra poloneses durante a guerra. Em uma publicação nas redes sociais, Zelensky afirmou que a Ordem da Águia Branca havia sido entendida por Kiev como uma homenagem ao povo ucraniano e às Forças Armadas do país. — Acreditávamos que a Ordem da Águia Branca, concedida em 2023, era destinada ao povo ucraniano e ao nosso exército. Foi isso que foi dito na época. Hoje, enviei a Ordem de volta ao presidente da Polônia — escreveu Zelensky. — Acredito que o futuro confirmará o respeito que os ucranianos merecem. A mensagem publicada por Zelensky na rede social X foi acompanhada de fotos da condecoração e de um comprovante postal indicando que ela seria enviada ao gabinete presidencial polonês. No texto, o presidente ucraniano também reagiu ao argumento de Nawrocki de que a Ordem da Águia Branca simboliza a mais alta confiança da República da Polônia. — Ontem, o presidente da Polônia observou que a Ordem da Águia Branca não é uma condecoração comum. É um símbolo da mais alta confiança da República da Polônia. Representa um vínculo especial com o Estado polonês e a gratidão especial do povo polonês. Um símbolo assim exige não apenas mérito, mas também respeito pelos valores que formam a base da nossa comunidade — escreveu Zelensky. — Portanto, se for considerado que esse símbolo especial pode permanecer com Catarina II, Benito Mussolini e Gerhard Schröder, então nós, na Ucrânia, não vamos discutir isso. Nawrocki justificou a retirada da honraria após Zelensky assinar, em 26 de maio, um decreto que batizou uma unidade das Forças de Operações Especiais da Ucrânia em referência à UPA. Para o governo polonês, a decisão de Kiev foi considerada ofensiva à memória das vítimas polonesas. — Para a esmagadora maioria da sociedade polonesa, a UPA continua sendo, acima de tudo, uma formação responsável pelos crimes brutais cometidos contra cidadãos da República da Polônia durante a Segunda Guerra Mundial — afirmou Nawrocki, em vídeo divulgado no site oficial da Presidência polonesa. O presidente polonês classificou a decisão ucraniana como “ultrajante”, “incompreensível” e “profundamente decepcionante”. — Isso fere não apenas a nossa memória histórica. Também enfraquece a confiança construída ao longo dos anos e nos últimos meses — acrescentou. Apesar da tensão diplomática, Nawrocki afirmou que a retirada da condecoração não afetará o apoio da Polônia à Ucrânia na defesa contra a invasão russa. A Polônia tem sido uma das principais aliadas de Kiev desde o início da guerra, acolhendo centenas de milhares de refugiados ucranianos e funcionando como um importante centro logístico para a ajuda enviada ao país. Na publicação, Zelensky disse que a Ucrânia continuará grata à Polônia pelo apoio e permanecerá aberta ao diálogo sobre os pontos de divergência histórica. — A Ucrânia é grata ao povo polonês por seu apoio e cooperação, que desempenham um papel significativo na luta pela nossa e pela sua independência em relação à Rússia — afirmou. — A Ucrânia permanecerá aberta a todos os formatos significativos de engajamento com a Polônia, a fim de tentar evitar interpretações conflitantes dos capítulos difíceis e dolorosos do nosso passado compartilhado e garantir o devido respeito a todas as vítimas inocentes do século XX. Zelensky também destacou que a Ucrânia continuará a se defender da agressão russa. — A Ucrânia continuará a se defender nesta guerra desencadeada pela Rússia, e sem dúvida alcançaremos uma paz digna — escreveu. — Tenho orgulho do nosso povo e de CADA guerreiro ucraniano, dos milhões de homens e mulheres ucranianos que merecem respeito inquestionável pelo heroísmo que o povo ucraniano demonstrou ao se defender da agressão russa. A decisão de Nawrocki provocou reações em Kiev. Autoridades ucranianas anunciaram que também devolverão honrarias estatais concedidas pela Polônia, em sinal de solidariedade a Zelensky. Kyrylo Budanov afirmou no Telegram que a decisão do presidente polonês foi “um ato hostil contra o nosso povo” e “um presente para o agressor, Moscou, que certamente o usará contra ambos os nossos países”. Nem todos na Ucrânia, porém, apoiaram a devolução das condecorações. O ex-primeiro-ministro Arseniy Yatsenyuk escreveu no X que uma “decisão prejudicial e incorreta do atual presidente da Polônia não pode ser corrigida por outras decisões incorretas da nossa parte”. A controvérsia reacende uma ferida histórica sensível nas relações entre Polônia e Ucrânia. Muitos ucranianos veem a UPA como uma força que lutou pela independência do país contra o Exército Vermelho soviético, a Alemanha nazista e autoridades polonesas. A bandeira vermelha e preta do grupo é usada com frequência por tropas ucranianas na linha de frente. A Polônia, por outro lado, acusa a UPA de ter promovido um genocídio de cerca de 100 mil poloneses étnicos na Volínia, atualmente parte da Ucrânia, entre 1943 e 1945. Em 2016, o Parlamento polonês reconheceu os crimes cometidos pela organização como genocídio. Os ucranianos afirmam que formações armadas dos dois lados, incluindo a UPA e forças clandestinas polonesas, participaram de ataques e represálias que deixaram grande número de civis mortos entre poloneses e ucranianos. A disputa ocorre em um momento delicado. A Polônia deve sediar, na próxima semana, um grande evento sobre a reconstrução da Ucrânia no pós-guerra, com expectativa de presença de Zelensky. A Ucrânia também iniciou nesta semana, em Luxemburgo, a primeira fase das negociações para adesão à União Europeia. O primeiro-ministro polonês, Donald Tusk, rival político de Nawrocki, pediu que os dois líderes evitem ampliar a crise. — A linha de frente está em outro lugar — escreveu Tusk nas redes sociais na sexta-feira à noite, ao afirmar que a disputa entre Polônia e Ucrânia “alegra Putin e choca os nossos aliados”. Tusk também pediu a Zelensky e Nawrocki que “acalmem as emoções e não alimentem as tensões”. Nos últimos meses, Polônia e Ucrânia vinham registrando avanços nas discussões sobre a exumação de vítimas polonesas. Uma reunião entre os presidentes dos dois países em Varsóvia, em dezembro, havia sido vista como sinal de progresso no processo de reconciliação histórica.
Zelensky devolve maior condecoração da Polônia após honraria ser retirada em disputa sobre a Segunda Guerra; entenda
Presidente ucraniano reagiu à decisão de sua contraparte polonesa, Karol Nawrocki, motivada por feridas históricas entre aliados










