Lugar de torcedor é na arquibancada. Mas, para milhares de holandeses, há mais de duas décadas a festa se inicia bem antes de a bola rolar e ainda longe do estádio. Começou despretensiosamente, virou tradição e agora se espalha por torcidas de diversas cores. Como num bloco de carnaval, eles se reúnem em um ponto de concentração e depois iniciam uma romaria que, entre música, dança e álcool, estende-se até as arenas. Ontem, o local de partida era o campus da Universidade Rice, e o destino, a 4km dali, o Estádio de Houston, onde a Holanda golearia a Suécia por 5 a 1 pela segunda rodada da Copa do Mundo. Torcedores da Holanda marcham rumo ao estádio de Houston para jogo contra a Suécia — Foto: Alex Slitz/AFP Ainda antes das 8h — com quatro horas de folga até o início da partida no horário local, portanto —, já era possível ver pessoas vestidas de laranja rumando para o estacionamento da universidade. Por lá, o clima era de festival: crianças distribuíam kolaches, espécie de pão doce oriundo da Europa central e que ganhou popularidade no Texas; mulheres serviam salsichas dentro de uma massa fina; e voluntários convidavam os presentes a pegar garrafas de água e bebida isotônica dentro de isopores. Também havia banheiros químicos, tendas para se esconder em alguma sombrinha e, claro, um DJ que terminava de acordar quem ainda estivesse com a cama presa às costas. Mas o grande desafio da festa laranja não era o relógio, mas, sim, o termômetro. Houston tem registrado temperaturas acima dos 30ºC que, somadas à umidade alta, transformam os torcedores em máquinas de suor. Alguns se protegiam com guarda-sóis, outros se aliviavam com ventiladores portáteis. Mas, com cerca de 15 mil pessoas aglomeradas sob o sol, segundo estimativa dos organizadores, não havia muito a ser feito além de abraçar o caos — no bom sentido, claro. PROVOCAÇÃO SAUDÁVEL O sucesso da micareta holandesa se deu, entre outros motivos, porque ela extrapolou pretextos nacionalistas e se tornou um evento da cidade. Tão comum quanto escutar (e não entender) holandês era ouvir conversas em inglês e, claro, espanhol, dada a proximidade do Texas com o vizinho México. Como o Houston Dynamo, time de futebol da cidade, também usa o laranja em seu uniforme, ficou mais fácil para a população local se vestir a caráter no improviso. Mas as camisas mais comuns eram mesmo de ídolos neerlandeses. O cardápio era vasto e ia de Bergkamp a De Ligt, ainda que os incontestáveis recordistas de popularidade fossem o 14 de Johan Cruyff e o 4 de Virgil Van Dijk. — Este desfile mobilizou toda a nossa comunidade. Então, resolvemos vir e trazer as crianças. Estou adorando tudo até agora — disse o americano Ron, que arrastou a mulher e as duas filhas, além de um amigo, para a caminhada matutina. Ron não foi o único. Quem esperava um ambiente hostil na Orange Walk (a Caminhada Laranja) não poderia ter encontrado cenário mais tranquilo. Até havia um ou outro descamisado um tanto agitado, provavelmente já sob efeito de álcool (era preciso apelar para a criatividade ou contar com a vista grossa da polícia para driblar o veto ao consumo nas ruas). Mas a verdade é que a caminhada de ontem teve cara de passeio de família em pleno fim de semana, ainda que as crianças fossem as mais afetadas pelo calor — houve quem precisasse abandonar a procissão para tomar um ar e refrescar a nuca com uma garrafa de água gelada. Em meio ao clima festivo, houve espaço até para uma recorrente e saudável provocação. Vários torcedores mexicanos foram à caminhada holandesa com cartazes que exibiam o bordão “no era penal” (não foi pênalti). Tratava-se do resgate de um lance polêmico do Mundial de 2014, quando o árbitro marcou uma falta dentro da área do zagueiro Rafa Márquez sobre o atacante Arjen Robben aos 48 minutos do segundo tempo. Os mexicanos, que àquela altura venciam por 1 a 0, atribuem ao suposto erro grosseiro do juiz a virada sofrida nos acréscimos, em Fortaleza (CE). REMAKES EM PROFUSÃO Essa farra que hoje tem cara de festival começou como uma brincadeira de amigos, ainda em 2004. Naquela ocasião, um grupo de holandeses comprou um ônibus de dois andares, daqueles que carregam turistas de um lado para o outro na Inglaterra, e o levou a Portugal para que os acompanhasse ao longo da campanha naquela Eurocopa. O carisma da iniciativa levou a federação de futebol do país, a KNVB estampada no uniforme laranja, a propor que o ônibus servisse de “abre-alas” para as caminhadas. De uns tempos para cá, com a capilaridade das redes sociais, as imagens da festa têm se tornado virais. E lá estava ele ontem de novo. Depois de uma aventura de mais de 26 dias pelo Atlântico, o ônibus chegou na semana passada ao Texas. Depois de uma parada em Dallas para o jogo contra o Japão, rumou para Houston. De lá de cima, o condutor do evento, em inglês e com bom humor, dava orientações ao público para lidar com o calor e evitar tumultos instantes antes da partida para o estádio. Já o DJ, ao longo de todo o percurso, mostrava ainda não ter superado a música-chiclete “Freed from desire”, aquela do infinito na-na-na-na-na, que desde a Copa de Clubes do ano passado experimenta um revival. — É uma tradição do meu país, e eu e meus amigos queríamos viver isso uma vez — disse o holandês Denis, que viajou para os Estados Unidos só para assistir aos jogos da Copa. — Está muito quente, quente demais, mas divertido. Como muitas boas ideias, e algumas péssimas também, o desfile holandês tem ganhado remakes de outras nacionalidades. Ontem, Houston sediou ainda uma caminhada de torcedores suecos, que partiram de outro ponto da cidade rumo ao mesmo estádio. Foi uma versão compacta e menos estruturada da festa laranja, que reuniu entre 4 e 6 mil pessoas, de acordo com as autoridades locais. Não houve registro de atritos entre holandeses e suecos, que se encontraram no estádio. Suecos felizes suam no Texas — Foto: Reprodução Os europeus, pela tradição no futebol e pela vocação para a farra, são especialistas nas caminhadas, como mostraram os belgas em Seattle, na segunda-feira, antes do empate em 1 a 1 com o Egito. Ou os espanhóis, no mesmo dia, em Atlanta, onde ficaram num surpreendente 0 a 0 com Cabo Verde. Mas, em tempos de hiperconectividade e tendências globais, até uniformes menos laureados têm se espalhado pelas ruas. Canadá, Austrália e Catar Os canadenses, que se esforçam para provar que não são só um apêndice sem graça dos EUA e do México neste Mundial, aproveitaram o primeiro jogo em casa do país na história do torneio, contra a Bósnia e Herzegovina, no dia 12, para manchar de vermelho as avenidas de Toronto. E até seleções que não são exatamente conhecidas por encher estádios mundo afora, como as de Austrália e Catar, organizaram seus desfiles. E mais festividades devem ser registradas nos próximos dias, conforme os torcedores se mobilizam nas ruas e na internet, muitas vezes com o apoio das federações. Por ora, ninguém faz uma festa tão numerosa e envolvente quanto a dos holandeses. Mas é bom que eles não se sintam acomodados. Assim como tendências de dentro do campo são rapidamente superadas por novidades táticas, as caminhadas de torcidas parecem prontas para mudar de tamanho e ser apropriadas por novas “escolas”.
Caminhadas da torcida da Holanda tomam ruas dos EUA e inspiram mais países na Copa do Mundo
Caminhada de torcedores até os estádios mobiliza comunidade de Houston com pegada de festival e clima de programa em família; apelidada de Orange Walk, ela se tornou tendência no Mundial e já é replicada até por países sem tradição no futebol
Marcha holandesa reúne 15 mil torcedores em Houston, tradição desde 2004 que inspira outras nacionalidades via redes sociais. Engajamento comunitário autorreplicante sem publicidade: blueprint para marketing experiencial viral.












