O Parlamento chumbou esta sexta-feira o pacote laboral do Governo. Depois de duas greves gerais, de meses de contestação sindical e de uma negociação de última hora que se arrastou pela madrugada dentro, a proposta caiu na generalidade. O Chega, que andou semanas a sinalizar que ia viabilizar o texto, acabou por votar contra, juntando-se à esquerda parlamentar. André Ventura disse que o partido "não se vende, nem verga". A verdade é mais simples e menos lisonjeira para ele: o Chega vergou-se, sim, mas não ao PSD. Vergou-se à impopularidade do pacote.Vale a pena fixar isto, porque é fácil deixar a manchete do dia a esconder o que importa. O Governo teve maioria para apresentar a proposta, teve o apoio do PSD, do CDS, da IL e em parte do Chega, teve meses para negociar e teve um parceiro à direita disposto a garantir a viabilização da proposta. E mesmo assim não conseguiu. Não conseguiu porque, entre a proposta e a votação, houve qualquer coisa que mudou a equação: uma mobilização que tornou o custo político de aprovar o pacote mais alto do que o custo de o chumbar.Isso não acontece sozinho. Não foi um certo sentido de justiça que assaltou subitamente os deputados do Chega às quatro da manhã. Foi o resultado de greves, de concentrações, de discussão nos locais de trabalho, de gente vulgar a perceber o que estava em cima da mesa e a recusar-se a aceitar. A CGTP e a UGT, que não se juntavam numa greve geral desde 2013, encontraram um adversário comum suficientemente ofensivo para pôr de lado décadas de distância. Os contratos a prazo, o despedimento mais fácil, o outsourcing sem travão, a gestão do tempo de trabalho à medida de quem contrata: havia ali uma direcção clara, e essa direcção tinha um preço eleitoral que ninguém estava disposto a pagar sozinho.É por isso que esta vitória interessa para lá do imediato. Vivemos um momento em que a direita e a extrema-direita marcam a agenda quase em todo o lado, em que cada eleição parece confirmar que o vento sopra de um lado só, e em que a tentação de assumir a derrota como destino é grande. Esta votação diz o contrário. Diz que mesmo num Parlamento com maioria à direita, mesmo com um partido como o Chega a tentar capitalizar o desconforto sem nunca o resolver, ainda há espaço para travar uma agenda quando a pressão é suficientemente larga, sustentada e visível.E diz também como se faz. Não foi um comunicado bem escrito. Não foi uma intervenção brilhante num debate televisivo. Foi gente a faltar ao trabalho em dois dias diferentes, a perceber que recibos verdes, estágios não remunerados e contratos a prazo não são detalhes técnicos mas uma forma de viver com menos segurança do que a anterior geração teve. Foi essa experiência concreta, repetida em milhares de pessoas, que se transformou em pressão política capaz de fazer um partido recuar de um acordo que já dava como garantido.Vale a pena dizê-lo sem ilusões: o Governo já avisou que não desiste de mexer na legislação laboral, e o pacote pode voltar, talvez mais limitado, talvez com outra arquitectura. O Chega não chumbou isto por convicção sobre direitos laborais, chumbou sobre o desgaste eleitoral de aparecer associado a uma machadada nos direitos de quem trabalha.A lição sobre o método fica. A luta sindical e popular não é um ritual simbólico que se cumpre para depois se aceitar o resultado que a política institucional já tinha decidido. É um instrumento que altera os resultados. Foi isso que aconteceu esta sexta-feira, e é isso que vale a pena levar para a próxima vez que alguém disser que já está tudo decidido e que não vale a pena lutar.
O povo enterrou o pacote laboral
A luta sindical e popular não é um ritual simbólico que se cumpre para depois se aceitar o resultado que a política institucional já tinha decidido. É um instrumento que altera os resultados.








