Crianças, jovens e seniores foram desafiados a trocar cartas com memórias, histórias, experiências e emoções. O que partilharam acabou por ser transposto para o cinema, demonstrando como a arte pode combater a solidão e criar conexões antes inalcançáveis. Esta é a principal ideia do Projecto “Correspondências”, promovido pela associação Tanque, que deu origem a duas curtas-metragens: Quantos anos tens tu? e As flores que nunca murcham. Vão estrear no próximo dia 22 de Junho pelas 19h00, no cinema São Jorge, em Lisboa.Na Escola Básica de São José, no Jardim do Torel, os alunos da turma do 3ºF contam como a experiência de participar neste projecto foi marcada pela convivência com os seniores dos centros sociais Laura Alves e de Santa Catarina​. “Gostei de trabalhar com elas, eram engraçadas”, recorda Marta, uma das alunas que participou no projecto, referindo-se às senhoras com quem estabeleceu ligação.Para além de cartas e conversas com uma geração tão distante da sua, os alunos tiveram ainda a oportunidade de ficar a conhecer os diferentes passos da produção das curtas-metragens. Bianca, também aluna da mesma turma, revela que “existia o grupo do som, mas os outros alunos faziam outras actividades”.Nuno Ribeiro, professor desta turma, elogiou a iniciativa o impacto que teve no meio escolar. “Trazer mais gente à escola e fazer coisas diferentes enriquece-os bastante e torna as coisas mais naturais, mais envolventes”, afirma.Estas “correspondências” assumiram diferentes formas e significados. Além das cartas, também houve postais desenhados, vídeos e fotografias. Segundo Laura Neves, uma das representantes da associação Tanque, os utentes dos centros sociais e os alunos viram um filme juntos. No fim, os miúdos fizeram retratos dos mais graúdos. “Foi mesmo bonito, porque os seniores ganham uma vida, uma luz completamente diferente quando estão ao pé das crianças”.Vera Menezes, também da associação Tanque, conta que, quando uma das cartas que os alunos no 9ºC do Liceu Passos Manuel escreveram para os seniores, "começaram todos a bater palmas, a dizer algo como ‘há esperança nos jovens, estamos muito contentes'”.O projecto, que envolveu cerca de 30 idosos e 40 crianças e jovens,​ permitiu desconstruir ideias preconcebidas de ambos os lados. Os jovens passaram a compreender melhor a realidade dos idosos. “Ficaram mesmo sensibilizados para o facto dos seniores estarem a viver tão sozinhos, de terem sofrido. Eu acho que às vezes é algo que eles não têm mesmo noção”, salienta Laura Neves. Por seu lado, os utentes também observaram o mundo dos jovens dos dias de hoje. Vera Menezes aponta que “achavam que hoje os mais novos não tinham desafios, e isso também foi um processo que fomos tentando esclarecer”.A verdade é que o mundo mudou, os desafios já não são os mesmos, mas as emoções e expectativas que todos têm em relação à vida não diferem muito de geração em geração, concluíram. Laura dá um exemplo claro: "Ao perguntar a um miúdo de 16 anos qual o seu maior medo, ele respondeu quer era ficar sozinho. Ora, num centro de dia, a resposta à mesma pergunta é igual.”Vera sublinha ainda que um dos objectivo foi tentar fomentar “a ideia de legado, de podermos viver mais perto uns dos outros emocionalmente e menos separados.” E Laura acrescenta que o projecto “Correspondências” deixa uma mensagem simples, mas importante: Quando prestamos mais atenção aos outros, contribuímos, mesmo nas pequenas coisas, para tornar o mundo um lugar melhor.O projecto teve o apoio do programa BIP/ZIP, um programa da Câmara Municipal de Lisboa, criado em 2011, que financia projectos locais e parcerias com o objectivo de melhorar a qualidade de vida e a coesão social em bairros mais vulneráveis da cidade.Texto editado por Ana Fernandes