O Conselho Científico do Instituto de Educação, Qualidade e Avaliação (Eduqa) concluiu que a utilização de uma questão no exame nacional de Português idêntica à publicada num livro de preparação para exames, editado em Agosto de 2025, ainda antes da elaboração das provas, na passada terça-feira, não compromete a equidade da prova, nem confere uma vantagem indevida aos alunos que tiveram acesso a esse material de estudo.Num parecer divulgado esta sexta-feira, o conselho científico, que é o órgão de consulta e apoio técnico-científico do Eduqa em matéria de avaliação, considera que "o acesso à resposta apresentada no livro de apoio da Leya não viola o princípio da equidade nem constitui um benefício para esses examinandos, na medida em que a competência de produção escrita decorre de uma aprendizagem complexa desenvolvida ao longo de todo o percurso escolar do aluno, não sendo possível desenvolvê-la satisfatoriamente através da simples resolução de um item com um estímulo semelhante (ou mesmo idêntico)".O item em causa avalia competências de escrita através da elaboração de um texto de apreciação crítica, formato que tem sido regularmente utilizado nos exames nacionais de Português nos últimos anos. Segundo o Eduqa, a tarefa exigia não apenas a descrição da imagem apresentada, mas também a construção de um comentário crítico fundamentado e organizado, sendo a classificação atribuída com base em diversos critérios relacionados com a estrutura textual, a pertinência da informação, a coesão discursiva e a correcção linguística.O documento sublinha ainda que, durante a preparação para o exame, os alunos costumam trabalhar vários itens semelhantes, apoiados em diferentes "estímulos visuais", como é o caso dos cartoons. Para o Eduqa, não é "plausível que tenham memorizado todas essas respostas". Por outro lado, diz ainda, a sugestão de resposta que se encontra no livro de preparação para exame "debruça-se sobre a relação entre o 'título' e a imagem, induzindo uma determinada linha de raciocínio".Não houve "vantagem efectiva" para os alunosNo enunciado do exame nacional, diz o Conselho Científico do Eduqa, o título do cartoon, Child Labour, foi "propositadamente" retirado, "possibilitando um alargamento do campo de reflexão e abrindo caminho para interpretações da imagem mais diversificadas, de acordo com o que é esperado num item de resposta extensa". O facto de o título do cartoon não constar no enunciado é considerado, por alguns especialistas, uma falha por ser parte da obra.Por essa razão, este órgão do Eduqa considera que o facto de poder haver alunos que tenham tido contacto com o cartoon de Javad Takjoo, e até treinado a resposta do livro de preparação, não proporcionou "uma vantagem efectiva aos examinandos". "Mesmo os alunos que tivessem contactado anteriormente com o cartoon teriam de desenvolver uma resposta original e adequada aos critérios de avaliação estabelecidos."No parecer, assinado pela presidente do Conselho Científico do Eduqa, Ana Casimiro, o organismo recomenda ainda que, futuramente, as equipas responsáveis pela elaboração dos exames reforcem os procedimentos de verificação de manuais, cadernos de actividades, livros de preparação para exames ou publicações comerciais recentes. "Esta precaução permitiria reduzir o risco de repetição de estímulos, evitar leituras públicas de favorecimento ou desigualdade e preservar a confiança no processo de avaliação externa."Na quinta-feira, o Ministério da Educação determinou à Inspecção-Geral da Educação e Ciência (IGEC) a realização de uma auditoria aos procedimentos internos do Eduqa relacionados com a elaboração dos exames nacionais do ensino secundário, considerando que existiu "uma falha objectiva da equipa responsável pela elaboração do exame na verificação de questões/itens já disponibilizados por editoras".Também na quinta-feira, em reacção a toda a situação, Filinto Lima, presidente da Associação Nacional de Directores de Agrupamentos e Escolas Públicas, acreditava que a pergunta em causa pudesse mesmo ser anulada. "Houve uma falha objectiva. E que pode ter efeitos na equidade — foi isso que o ministério pediu que fosse avaliado. Se se provar que tem esse efeito, não há outra solução. Houve alunos que treinaram aquela pergunta porque treinaram com aquele livro, e outros alunos que não. Por isso acredito que o parecer que foi pedido diga que há esse perigo.”
Exame de Português: Conselho científico do Eduqa nega que pergunta igual à de livro afecte equidade
Órgão do Eduqa considera que alunos que tiveram contacto com a pergunta do livro de preparação não tiveram “vantagem efectiva”. Ministério determinou a realização de uma auditoria.








