Seleção do Haiti na Copa do Mundo 2026 — Foto: Martin Meissner/AP Photo/Martin Meissner Em sua segunda Copa do Mundo, o Haiti tentará hoje contra o Brasil, pela primeira vez, não ser derrotado no torneio de futebol mais importante do planeta. A derrota de 1 x 0 para a Escócia na primeira partida desta edição foi o melhor resultado, até o momento, de uma seleção que, em 1974, perdeu os três jogos que disputou diante da Itália (3 x 1), Polônia (7 x 0) e Argentina (4 x 1). O retrospecto perante a seleção brasileira é ainda pior. Em três jogos, levou 17 gols e marcou apenas um. A fragilidade da seleção haitiana no futebol, no entanto, contrasta com a história de um povo que lutou e venceu o exército colonial da França de Napoleão Bonaparte, que na época fez tudo o que estava ao seu alcance para manter o domínio sobre a colônia mais lucrativa do mundo. Enquanto assombrava a Europa com suas conquistas militares, o imperador francês perdeu a guerra para revolucionários negros que, em 1804, tornou o Haiti o segundo país independente das Américas - o primeiro foram os Estados Unidos, em 1776. Acompanhe detalhes e curiosidades sobre o jogo entre Brasil e Haiti aqui Uma das batalhas mais importantes dessa luta estava estampada na camiseta que o Haiti pretendia usar nesta Copa do Mundo. Mas, dias antes do início do torneio, a Fifa, que acata mansamente as ações anti-imigração do governo dos EUA contra torcedores e delegações de seleções de países emergentes, proibiu a seleção haitiana de usar o uniforme que fazia alusão à Batalha de Vertiéres, ocorrida em 18 de novembro de 1803. Este foi o confronto decisivo que permitiu ao líder Toussaint Louverture declarar o Haiti, em 1º de janeiro de 1804, a primeira república independente negra do mundo. A Fifa alegou que a alusão à Batalha de Vertiéres feria o seu regulamento que proíbe uso de “mensagens, slogans ou imagens de cunho político, religioso ou pessoal” nos uniformes oficiais das seleções. Para a entidade, retratar uma cena de guerra e revolução armada entra nessa restrição mesmo que não tenha se tratado de nenhum tipo de protesto político ou reivindicação atual. Para a Federação Haitiana de Futebol e a Saeta, a empresa colombiana que é a fornecedora de material esportivo da equipe, a arte na camiseta era uma homenagem cultural à ancestralidade, resiliência e identidade histórica do povo haitiano. Mas a Fifa bateu o pé e manteve a decisão. Fifa barrou alusão a batalha decisiva da independência do Haiti no uniforme da seleção Restará agora ao Haiti mostrar a sua força contra o ataque do Brasil, o que parece improvável, mas não impossível. A resistência dos jogadores de Cabo Verde contra a favorita Espanha, na última segunda-feira, é uma inspiração para os haitianos, que hoje são associados a crises humanitárias causadas seguidamente no país desde o período posterior a sua vitoriosa luta conduzida por ex-escravos para a independência há dois séculos. A liberdade e a independência de um povo negro, em um período em que a escravidão era, para além do racismo, um modelo econômico para as grandes potências, custou um preço alto ao Haiti. O país enfrentou um isolamento diplomático e econômico que travou a prosperidade durante todo o século 19. No século 20, entre 1915 e 1934, os EUA ocuparam o território e pouco contribuíram para os interesses locais, aumentando ressentimentos que culminaram décadas depois nas ditaduras de François Duvalier, conhecido como Papa Doc, e depois de Jean-Claude Duvalier, filho do primeiro e apelidado de Baby Doc. É desse período que remetem as primeiras imagens que o mundo replica do Haiti relacionadas a perseguições políticas, desorganização institucional e seguidas crises econômicas e humanitárias. O cenário ainda foi agravado neste século atual por desastres naturais como o terremoto de 2010 que matou mais de 200 mil pessoas e destruiu a já precária infraestrutura da capital, Porto Príncipe. Desde então, o fluxo migratório de haitianos se multiplicou e o Brasil, a partir de sua política de acolhimento a refugiados, se tornou um dos principais destinos. Segundo dados do Observatório das Migrações Internacionais (OBMigra), mais de 123 mil haitianos estão com autorização de residência ativa em território brasileiro hoje para torcer pela equipe do seu país de origem. Depois do empate do Brasil contra Marrocos na primeira rodada, o sobrevivente Haiti pode clarear o caminho da seleção brasileira ou, em caso de resultado negativo ou mesmo vitória difícil, pode minar de vez a confiança para o hexa. Ao contrário do espírito da missão de paz da ONU que o Brasil liderou no Haiti de 2004 a 2017, ajudar os haitianos hoje na Filadélfia não passa pela cabeça de nenhum brasileiro.
Brasil enfrenta resistência ancestral do Haiti
Brasil enfrenta resistência ancestral do Haiti












