A encerrar uma “semana histórica para a Ucrânia”, com o arranque das negociações técnicas do processo de adesão, o Presidente Volodymyr Zelensky veio à reunião do Conselho Europeu pedir aos chefes de Estado e governo da União Europeia que aumentem a pressão sobre a Rússia para tentar “trazer Vladimir Putin para o diálogo” e para a mesa das negociações.Animado pelo “novo impulso para uma paz justa e duradoura na Ucrânia” durante a cimeira do G7, e pelas declarações do Presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, que prometeu fazer “tudo o que puder” para convencer a Rússia de que chegou o momento de “fechar um acordo” para acabar com a guerra, Zelensky quer envolver os líderes da UE nas negociações de paz – obrigando-os a dar uma “cambalhota” para rever a sua política oficial de isolamento da Rússia, que a deixou à margem do processo liderado pelos EUA.Depois da invasão em larga escala da Ucrânia, em Fevereiro de 2022, a UE cortou todos os laços diplomáticos institucionais com a Rússia. Mas na véspera do Conselho Europeu, soube-se que membros do gabinete do presidente António Costa encetaram “contactos breves” com elementos do Kremlin “com o objectivo de abrir canais de comunicação” entre Bruxelas e Moscovo.Não era um tópico na ordem de trabalhos. Mas a questão de falar ou não falar com a Rússia, tomou conta da agenda do Conselho Europeu: quem vai ser o interlocutor da UE?A iniciativa de António Costa – que terá sido motivada pelos apelos do líder ucraniano para um maior envolvimento da UE no processo diplomático com a Rússia, que nenhum dos 27 contesta –, não caiu bem junto dos líderes dos países Bálticos, que defendem a manutenção de uma linha dura contra o Kremlin.“O recurso à diplomacia só se justifica se houver sinais claros e positivos da Rússia que indiquem a vontade de estabelecer um cessar-fogo ou de encetar negociações de paz legítimas. Até ao momento, não vemos sinais positivos”, afirmou o Presidente da Lituânia, Gitanas Nauséda.“É muito cedo para negociar com a Rússia”, concordou o primeiro-ministro dos Países Baixos, Rob Jetten, que como outros, insiste que deve ser Putin, e não a UE, a dar o primeiro passo. “É por aí que tudo começa”, considerou.À chegada ao Conselho Europeu, vindo de uma reunião do Grupo de Contacto para a Defesa da Ucrânia, no quartel-general da NATO, Zelensky insistiu que a pressão económica está a funcionar, e que a ajuda dos aliados e parceiros europeus colocou a Ucrânia numa posição muito mais favorável, tanto no teatro de guerra, como nos corredores da diplomacia.“A União Europeia continua determinada a aumentar ainda mais a pressão sobre a Rússia e a continuar a enfraquecer a economia de guerra russa, para que esta ponha fim à sua brutal guerra de agressão e encete negociações significativas com vista à paz”, dizem as conclusões do Conselho Europeu relativas à Ucrânia, que desta vez já não têm um asterisco para notar a posição dissonante da Hungria.“Há uma nova dinâmica. A maré está a virar. A Ucrânia está a reconquistar território. A economia da Rússia está mais débil do que nunca”, assinalou a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen. “E nós estamos todos unidos, e a trabalhar juntos, no G7 e na UE, para pressionar a Rússia”, garantiu o presidente do Conselho Europeu, em declarações breves antes do início da reunião.O primeiro-ministro, Luís Montenegro, lembrou que “foi dos primeiros, para não dizer mesmo o primeiro, a sustentar a ideia de que era necessário e positivo que se abrisse um canal de contacto entre a União Europeia e a Rússia”, com o “intuito de ajudar a Ucrânia e a Europa a solucionarem uma frente de conflito que não ajuda ninguém”.“Nós prestaremos um bom serviço à Ucrânia e à Europa se a União Europeia tiver um papel mais activo e proactivo a aproximar as partes, e é isso que é a minha expectativa”, referiu Montenegro, que não tem uma “posição fechada” sobre a melhor “fórmula” e “metodologia” para o processo de diálogo. Já quanto aos protagonistas, o primeiro-ministro disse não ter “problema nenhum” em afirmar que “há algumas personalidades portuguesas que fariam esse papel muito bem” – sem revelar quais.A sessão de trabalho com o Presidente da Ucrânia durou quase duas horas: Volodymyr Zelensky saiu sem falar à imprensa, enquanto os líderes prosseguiam a discussão sobre o tema do alargamento. O Governo de Kiev, que na segunda-feira começou oficialmente as negociações técnicas para a adesão à UE, com a abertura do primeiro “cluster” de capítulos relativo aos princípios e direitos fundamentais, tem a expectativa de alargar o processo aos restantes cinco “clusters” a curto prazo. “A Ucrânia tem estado a trabalhar arduamente nas reformas e esperamos poder abrir mais ‘clusters’ no Verão”, disse a presidente da Comissão Europeia, que já confirmou que o país cumpre os requisitos necessários.